Arrancou ontem mais uma edição do festival minhoto Vodafone Paredes de Coura, que ficou marcada pela maior enchente de que há memória. TV on the Radio e Blood Red Shoes fizeram levantar o pó e Slowdive soaram perfeitos na margem do rio. 

Quando pelas duas da manhã abandonamos o belíssimo anfiteatro que serve de palco principal aos concertos do Vodafone Paredes de Coura há um mar de gente a fazer o mesmo. A subida, que normalmente custa apenas pelo cansaço ou os copos a mais bebidos, torna-se de repente mais penosa porque há mesmo muitos, demasiados festivaleiros a rumar às suas casas ou tendas. Aí confirmamos, como já o fizéramos ao início da noite, que esta é a maior enchente de sempre numa noite de abertura do festival. O problema é que as condições de saída não foram feitas da maneira mais segura, uma vez que o corredor que permitia abandonar o recinto era demasiado estreito para o volume de pessoas a desejar sair.

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Ainda sobre a segurança do festival e da quantidade de gente que a ele afluiu (recorde-se que os passes gerais esgotaram este ano pela primeira vez) verificaram-se durante o concerto dos TV on the Radio, cabeças de cartaz deste primeiro dia, volumes demasiado agressivos de mosh, crowdsurfing e afins que tiveram até o rebentamento de uma tocha em plena multidão. Kyp Malone por várias vezes pediu para que dançassem em segurança, que cuidassem das pessoas na frente do palco que poderiam ser esmagadas, e que moderassem a excitação. Mas a nada disso respondeu o conjunto de jovens que na plateia procurava divertir-se de forma pouco segura e sem sequer tomar atenção ao concerto.

Mas falemos dos TV on the Radio. Provavelmente responsáveis pela grande afluência deste primeiro dia, chegaram ao palco, tendo como cenário a imagem de Seeds, o seu mais recente disco de originais, e rapidamente Tunde Adebimpe assinalou a felicidade de finalmente conseguir vir tocar a Portugal (tiveram concertos marcados para o nosso país em fevereiro passado que acabaram por ser cancelados).

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Surpreendentemente foi com Young Liars, do homónimo EP de 2003 que iniciaram o concerto, mas rapidamente deram lugar a alguns temas do registo que aqui vieram apresentar: Lazerray, Happy Idiot (com o tal grupo da frente já em êxtase), Winter, foram alguns dos temas apresentados. Na hora de Wolf Like Me (seguramente um dos temas mais conhecidos dos nova-iorquinos, retirado de Return to the Cookie Mountain, de 2006) estourou uma espécie de very light que, como já foi dito, não agradou a muitos fãs e nem à própria banda. A passagem por Nine Types of Light (2011) deu-se com Repetition e para o fim ficou Staring at the Sun de Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, disco de início da carreira da banda.

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Contas feitas, estivemos perante uma das melhores bandas dos anos 2000 e não pudemos aproveitá-la devidamente graças à diversão descontrolada. Note-se que nada disso interferiu na competência, energia e capacidade de nos tocar o coração. Mas queremo-los numa sala em nome próprio e a tocar mais do que uma hora.

Quem também fez levantar pó na frente do palco foram os ingleses Blood Red Shoes. A dupla de Brighton, que fez questão de reforçar a felicidade de regressar a Paredes de Coura, onde atuou em 2009, traz um fresco novo disco na bagagem, mas foram a Box of Secrets, de 2008, recuperar I Wish I Was Someone Better, com a qual iniciaram o concerto. Por essa altura, a sensualidade da guitarrista Laura-Mary Carter e energia do baterista Steven Ansell já tinham conquistado o anfiteatro muito composto. Uma boa surpresa para a primeira noite.

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Para algo completamente diferente, entre TV on the Radio e Blood Red Shoes tocaram os Slowdive (com muitos fãs atentos) que recordaram o concerto do NOS Primavera Sound 2014, ainda presente na nossa memória. A banda inglesa, que nos anos 90 angariou muitos fãs, entrou em palco ao som de Deep Blue Monday de Brian Eno e encerrou com a cover de Golden Hair de Syd Barret, um dos momentos mais arrepiantes da noite de ontem. Mas todo o concerto foi a prova de que há bandas imunes ao tempo e que o showgaze e pós-rock são etiquetas demasiado simplistas para caracterizar guitarras que são setas apontadas aos corações, que no habitat natural da música (lema do festival) fazem todo o sentido.

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Ao início da noite, os portugueses Gala Drop e os californianos Ceremony receberam o público que ia entrando no recinto, para apresentarem os seus mais recentes discos, II e The L-Shaped Man, respetivamente.

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Hoje, há evangelização com Father John Misty e psicadelia com Tame Impala, naquela que se adivinha a noite mais cheia de sempre da história do Festival Paredes de Coura.

Fotos de Cátia Duarte Silva