Este é já o oitavo livro de Jodi Picoult que leio, e se tivesse sido o primeiro, seria provavelmente o último. A autora norte-americana é conhecida pela sua capacidade de criar narrativas envoltas em dilemas morais, nas quais somos envolvidos de tal forma que criamos uma ligação emocional com todas as personagens sejam elas o herói ou o vilão. Em Ilusão Perfeita, pela primeira vez, isso falha. Tudo é um quase-bem feito, um quase-bom, fazendo verdadeiramente jus ao seu título.

O livro começa apresentando-nos uma mulher que acorda num cemitério sem saber quem é, e que com a ajuda de um polícia recém-chegado de uma comunidade índia Sioux a Los Angeles, consegue descobrir que é Cassie Rivers, a mulher de Alex Rivers, a maior estrela de Hollywood.

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Jodi Picoult apresenta-nos assim o turbilhão de emoções pelas quais Cassie passa ao passar de uma pessoa que nem ela sabe quem é, a alguém sobre o qual o mundo sabe tudo. Alex tenta reconquistá-la mas há sempre algo que parece não fazer sentido, na medida em que apesar de este ser um homem respeitador, deixa ver laivos de uma raiva submersa.

É apenas quando Cassie descobre um teste de gravidez positivo que se lembra de quem é e do que lhe aconteceu. Aqui, esperei uma revelação que fizesse mudar o rumo da história, tal como seria expectável mas a nossa personagem principal vai ter com Will Flying Horse, o polícia que para além de servir para Picoult inserir aqui e ali pequenas lendas índias, até aqui pouco ou nada fez na história e lhe conta tudo.

Dá-se um salto temporal no qual vamos conhecendo toda a história de amor entre Cassie e Alex, uma história bem ao estilo Hollywood: a mulher sem graça que resiste aos encantos do homem desejado por todas, o que o faz apaixonar-se por ela. Algo que sempre apreciei em Picoult foi o facto de a autora saber escrever romances sem recorrer a clichés do chinês como este. Pois bem, os deuses também sangram, e esta foi apenas a primeira das grandes desilusões com o livro.

Toda esta descrição (que demora páginas a mais para a sua pertinência) para Cassie nos revelar que aquela que parecia uma vida perfeita é manchada pelas nódoas negras que a violência doméstica deixa no corpo e na alma de uma mulher. Neste ponto, parece que o livro rema no caminho certo mas a temática é abordada de uma forma execrável.

A mulher é apresentada mais uma vez como o ser frágil à mercê de um homem dominador, esperando sempre que com o novo dia renasça também o homem pelo qual se apaixonou, e desculpando sempre os maus momentos com todos os bons que passaram juntos. Cassie deixa Alex sem o confrontar e vai viver com a família de Will numa reserva índia para salvaguardar o filho de ambos, mas o amor que sente por ele fá-la voltar para o marido após o nascimento da criança.

Mais uma vez esta é uma decisão caída sabe-se lá de onde, mas que acaba por dar azo ao único ponto interessante do livro: o paralelismo entre os luxos de Hollywood e o desapego dos bens materiais da comunidade Sioux.

Cassie tenta ainda uma reconciliação com Alex através de terapia, algo que é abordado muito ao de leve, e de onde se pode retirar apenas a conclusão de que a violência doméstica é um problema que não assola apenas pessoas de estratos sociais inferiores, uma vez que para além de Cassie e Alex existem outros casais de alto status-quo que procuram o mesmo tipo de ajuda.

O livro termina com Cassie a convocar uma conferência de imprensa onde diz a todos os jornalistas que vai pedir o divórcio de Alex por ser abusada fisicamente por ele há anos, algo que a mesma admite não fazer por si, mas sim porque se ela o magoar é mais fácil de ele a esquecer.

Esta justificação bem como as outras dadas pela personagem demonstram que o crescimento da mesma é apenas ilusório e que todas as decisões que foi tomando em relação a este assunto foram impulsivas e, sempre que fundamentadas, tinham como ponto de partida a dependência do marido.

O final é abrupto, acabando por representar o livro, onde tudo são pontas soltas e nada parece ter uma conclusão no verdadeiro sentido da palavra. Sinto que tendo em conta a temática abordada o resultado é fraco, e que todas as tentativas para fazerem de Cassie Rivers uma mulher lutadora e decidida acabam por sair furadas, fazendo da mesma uma pessoa sem vontade própria, cujas decisões são apenas fruto de impulsos momentâneos ou do mero acaso.

(Ah, se estão a pensar no que aconteceu a Cassie para acordar num cemitério sem saber quem era, resta-me dizer que a premissa inicial foi chutada para canto de tal maneira que fui obrigada a reler uma parte do livro para perceber que tinha simplesmente acontecido, depois de Cassie ter saído de casa pela primeira vez. )

NOTA: 3/10

Título original: Picture Perfect

Autor: Jodi Picoult

Editora: Civilização

Ano de Lançamento: 2011

Número de Páginas: 444