Todos os meses o Espalha-Factos dá destaque a um autor e, neste mês de agosto, a escolhida foi a britânica Jane Austen. Sensibilidade e Bom Senso foi a primeira obra que a autora publicou sob o pseudónimo A Lady. Apesar de a narrativa começar de uma forma um pouco enfadonha, as personalidades opostas das duas protagonistas, bem como as revelações e  eventos que começam a ocorrer a meio são elementos que tornam esta leitura numa história que mostra as desvantagens tanto da sensibilidade, como do bom-senso.

Originalmente intitulada Elinor and Marianne, a histórica foca-se precisamente nestas duas irmãs que, após a morte do pai, se vêem obrigadas a abandonar o seu lar quando este passa a ser propriedade do seu meio irmão mais velho e da sua arrogante esposa. Na companhia da mãe e de mais uma irmã, as duas acabam por ir morar para Devonshire, onde Marianne conhece Willoughby, um jovem rapaz por quem se sente imediatamente atraída. Entretanto, Elinor vê-se atormentada pela possibilidade do seu amado Edward (irmão da esposa do seu meio irmão) poder se vir a casar com outra pessoa que não ela.

Apesar da narrativa fluída e sempre característica da autora, no caso desta história o começo foi, infelizmente, um pouco maçador. Após a mudança das Dashwoods, muita da narrativa foca-se em demasia nos eventos sociais aos quais as irmãs comparecem não havendo muitos acontecimentos que dêem um seguimento significativo à história. Felizmente, por volta das últimas 100 páginas da história a narrativa começa a mudar de rumo, sendo vários diálogos bastante reveladores sobre certas personagens.

Não podia falar das personagens desta obra sem deixar de mencionar as mais interessantes. Elinor, irmã mais velha, é uma rapariga inteligente, com juízo, boa compostura e reservada. É sensível e romântica, no entanto muitas das vezes guarda os seus sentimentos para si. Já Marianne começa como sendo uma rapariga alegre, extrovertida, muito expressiva e uma “romântica incurável”. Ao conhecer Willoughby acredita, de forma muito ingénua, que os dois partilham um amor verdadeiro, uma atitude que a coloca numa fragilidade emocional após o desenlace do caso entre os dois.

Na adaptação cinematográfica de Ang Lee em 1995, Emma Thompson é Elinor e Kate Winslet é Marianne.

Na adaptação cinematográfica de Ang Lee em 1995, Emma Thompson é Elinor e Kate Winslet é Marianne.

Apesar de, aparentemente, a autora ter escrito estas duas personagens como uma forma de crítica ao excesso de “sensibilidade”, encontrei tanto facas de dois gumes em ser-se “sensível” e “sensato”. Como já referi anteriormente, o comportamento romântico de Marianne acaba por a colocar em problemas, no entanto o comportamento reservado e sensato de Elinor impede-a de se expressar romanticamente, bem como de tentar avançar para conquistar Edward.

Felizmente estas personagens não têm os seus feitios muito acentuados: Elinor é romântica e anseia por casar com Edward, apesar de não o expressar e Marianne, apesar de impulsiva e sensível não é estúpida, amadurecendo bastante durante a narrativa. No final as duas aprendem a expressar os seus sentimentos, mantendo, ainda assim, um auto-controle à base de bom-senso.

As restantes personagens ou são amáveis ou detestáveis. Não podia deixar de fazer uma menção honrosa ao Coronel Brandon, cujo carácter e backstory o tornam numa personagem nobre de carácter, sendo a sua bondade e afeto para com Marianne notáveis. Por outro lado, personagens como Fanny Dashwood, Robert FerrarsMrs. Ferrars, Lucy Steele, entre outras, são, de carta forma, uma crítica à arrogância, avareza e futilidade que predominavam na época na qual a história decorre. No caso de John Willoughby, à semelhança de Orgulho e Preconceito, será uma personagem que existe para mostrar que nem sempre as aparências são o que parecem.

Em suma, Sensibilidade e Bom Senso pode não ser das obras mais atrativas e envolventes no começo para qualquer leitor. No entanto o contraste entre as duas protagonistas, bem como a forma como lidam com os seus problemas amoroso torna esta narrativa interessante ao explorar os prós e contras de dois tipos diferentes de personalidades. Não é a minha história favorita de Jane Austen, mas não deixa de ser uma leitura deveras interessante.

Nota final: 7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Sense and Sensibility
Autora: Jane Austen
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 292
Ano da publicação: 2001
Publicação original: 1811