O ritmo lento que se viveu no quarto dia de Bons Sons adivinhava já o fim do festival.

Os que já conhecem os recantos à aldeia aproveitavam para fazer a fotossíntese ao sol, que decidiu voltar a brilhar tal como seria de esperar numa tradicional tarde de verão. Deitados na relva artificial da praça principal ou sentados numa roda de cadeiras, ouvem o bandolim estridente de Miguel Pereira Cristo, que atua no Outonalidades, tudo regado com uma imperial fresca ou um copo de vinho saído da box.

Outros, no entanto, deixaram a exploração para o último dia, e correm agora pelos recantos mais escondidos da aldeia para concluírem a sua lista de “a visitar” no Bons Sons. Cumprimentam os residentes locais à passagem, passam pelo mini-mercado onde se vendem as coisas mais baratas e compram aquela última recordação para levar para casa.

Quando termina o concerto em frente à igreja, a procissão faz-se para o Giacometti, onde vai tocar Tó Trips. Acompanhado por uma bateria, o fluído ritmo tribal da sua guitarra ajuda à meditação e ao relaxamento de fim de tarde. Com poucas palavras, tanto por parte do artista como por parte do público, o concerto ajudou à melancolia que já durante a tarde se fazia sentir e foi uma digna despedida do Giacometti.

Tó Trips

Também Peixe:Avião, com a sua música expansiva, criou um momento de introspeção no Eira. A sua disposição em palco, em círculo no topo de uma plataforma elevada, representa a música coletiva que produzem. Raramente algum instrumento ou até mesmo o vocal tem destaque, e com isso criam uma paisagem sonora bastante completa, por vezes algo alienadora, outras vezes esmagadora.

Peixe:Avião

Se a tecnologia da banda bracarense conquistou os presentes, o tradicionalismo de Camané não ficou a perder. A menor afluência de público quando comparado com os concertos do dia anterior não desanimou nem o cantor nem os presentes. Guitarras bem afinadas e precisas acompanham com perícia as histórias das letras cantadas pela madura voz do fadista. Um concerto longo que ainda contou com uma versão de “Ouvi Dizer” do seu amigo Manel Cruz e “Adeus Que Me Vou Embora” do seu antigo projeto Humanos.

Camané

Depois de um esquecível concerto de Long Way To Alaska, restou ao DJ Tenreiro encerrar a edição 2015 do Bons Sons. Armado com a sua caixa de discos de vinil apelou à nostalgia com o eclético som do soul e blues dos anos 50 e 60. Passo de dança à moda antiga e uma última festa antes de voltar para casa. No fim, o último dia de festival fica mais marcado pelo prazer de apreciar boa música quando comparado com as celebrações coletivas que se tinham verificado nos dias anteriores.

Este Bons Sons foi a primeira edição anual a ser realizada. Apostou em sons mais tradicionais portugueses, e com isto afastou-se claramente do conceito comum de festival de verão. Será que ficará com isso a perder? A enchente que se verificou no sábado juntamente com o excelente ambiente dos restantes dias indica que não, mas só o tempo dirá se as edições anuais não irão retirar o aspeto “gourmet” que até agora vinha sendo cultivado, com cada edição a contar com os melhores nomes do panorama nacional de música, juntamente com a incansável dedicação dos habitantes de Cem Soldos, este o verdadeiro trunfo do festival.