Depois do longo dia 14, o terceiro dia de Bons Sons começou lentamente. Os festivaleiros aproveitaram a sombra do campismo para relaxar, e só a meio da tarde, com a vinda de algumas nuvens, é que a aldeia começou a ver mais movimento.

Ao fim da tarde, no entanto, já o Giacometti bloqueava completamente a rua com D’Alva. A sua música animada atraiu o público mais jovem que nesta edição compareceu em força em Cem Soldos. Terminado o concerto, a multidão divide-se entre aqueles que vão jantar e os que fazem o trajeto para a outra ponta da aldeia, para ver Trêsporcento no Eira.

Pelo meio, no entanto, um grande grupo de crianças e jovens irrompe pelas ruas em marcha. Batem ritmadamente em baldes de tinta vazios, velhos canecos, ou em qualquer coisa que faça “bang” quando lhe atiramos um pau de madeira. Fazem a procissão em volta da praça principal, guiados pelo percussionista que ontem partilhava o palco com Manel Cruz, e juntam novos apoiantes pelo caminho. Em frente à igreja fazem uma última demonstração, e com a ajuda de palmas e gritos do público celebram juntos o Deus Ritmo.

Entretanto começava no Eira Trêsporcento, ainda com público diminuto por causa da competição da marcha percussionista. Um rock alternativo com riffs de guitarra intensos chama não só os jovens do festival como também a chuva das nuvens que desde a tarde apenas ameaçavam. Mais uma guitarrada, no entanto, e já ninguém se preocupa com a chuva, que afinal de contas até ajuda a refrescar o ambiente abafado que se sentia.

Trêsporcento

A partir daqui, e já que ao sábado depois de jantar toda a família está livre, o Bons Sons foi sendo invadido por todo o tipo de visitantes vindos dos arredores. E foi durante o concerto de Ana Moura que essa diversidade foi acentuada. Os mais idosos ficam no centro da praça, em pé ou sentados em cadeiras gentilmente emprestadas pelas esplanadas que se instalam junto das casas. Ao lado, jovens casais encostam os seus carrinhos de bebés aos passeios para não fugirem enquanto apreciam o ritmo meloso da fadista, e vêm os ainda solteiros dançarem em roda de um monte de malas. Quando chega à altura de cantar sobre ter saudade, todos ajudam à sua maneira, seja em plenos pulmões com orgulho ou entre dentes enquanto tentam adormecer o bebé. O público transborda da praça para as pequenas ruas, e mesmo as tascas se vêm ocupadas durante o concerto. De uma pequena porta vêm cânticos animados, e olhando lá para dentro encontra-se uma velha adega, de gastas paredes caiadas, agora transformada numa espécie de saloon dos westerns de Hollywood. Um grupo de jovens canta aguerridamente à volta de um barril que serve agora de mesa para os copos vazios de cerveja.

Um misto de jovens que querem bailarico, adultos a recordarem esses tempos, festivaleiros que trazem garrafas do campismo ou idosos que matam saudades dos vizinhos das outras aldeias, o terceiro dia de Bons Sons existiu para relembrar as suas origens: uma animada festa de aldeia.

Ana Moura

Mal Ana Moura termina, DJ Nigga Fox ajuda à ovação com uma batida forte vinda das colunas. Virar de cabeças do Lopes-Graça para o Aguardela e está lançado o final da festa de sábado com um moderno kuduro. Os bebés, esses acordaram com o barulho, e já se fazia tarde para os mais velhos. Foi a vez dos jovens conquistarem a praça central numa celebração que se estendeu pela noite dentro.

O Bons Sons termina hoje com atuações de artistas como Tó Trips, Peixe:Avião e Camané.