Está já entre os 10 filmes portugueses mais vistos da década, somando mais de 257 mil espectadores em duas semanas de exibição. O Pátio das Cantigas, de Leonel Vieira, é inspirado no original de 1942, de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), e propõe uma homenagem a este clássico do cinema português. Transpondo a história original para os dias de hoje, esta nova versão d’O Pátio das Cantigas não pretende ser um remake, mas sim uma homenagem. Analisemos então os motivos que o fazem ser pior do que aquele estrelado por Vasco Santana e António Silva.

1. O Enredo

A história original pretende trazer um olhar cómico à vida de um bairro lisboeta durante a época dos Santos Populares, representando todas as vicissitudes que o tornam único e, simultaneamente, relacionável com o espectador: as relações familiares, os ódios e os amores, as aspirações das personagens e os sonhos que idealizam realizar. Na versão de 2015, o filme acrescenta detalhes que o desencaminham de um enredo louvável ou sequer com um toque de originalidade. Destaco o absurdo em que se torna a personagem de Manuel Cavaco, avô das irmãs Amália (Sara Matos) e Susana (Anabela Moreira), que, dada a sua mudez, intervém apenas com a sua figura – ainda que expressiva. É desrespeitoso um ator de experiência tão vasta e reconhecida ser relegado para um papel secundário onde nem o diálogo figura.

Por outro lado, temos a personagem de Amália, que em ambas as versões sonha com uma carreira de artista. Esta nova variante centra-se numa Amália também ela extrovertida, que consegue ir cantar à televisão mas acaba fechada em casa envergonhada pela sua embaraçosa prestação. Encontramos ainda fatores a apontar na invenção de uma loja de ouro, perto da mercearia do Evaristo (Miguel Guilherme), que dá que falar no pátio e acaba por dominar o resto do enredo – situação que abordaremos num ponto mais à frente.

2. O Humor

Se o filme original se encontra repleto de trocadilhos hilariantes num constante jogo de duplos sentidos, esta nova versão não passa de uma tentativa de comédia que cai num humor pouco inteligente e até brejeiro. Creio que este seja um dos principais fatores negativos, já que não honra o feito atingido por Vasco Santana (também ele roteirista do filme), que consegue trazer à tela situações de uma comicidade inesquecível, tanto na forma como no conteúdo. Breve nota para a personagem de José Pedro Vasconcelos. O penteado e a indumentária são condicentes com o tipo de ‘piadas’ que a personagem pratica.

pdc-d1-16_770x433_acf_cropped

3. A relação entre as personagens

É certo que este novo filme não pretende ser uma cópia do original, mas o que é facto é que a mudança de relações familiares entre os personagens acaba por desvirtuar o sentido da história. Rufino (Manuel Marques) é irmão de Narciso (César Mourão) e não o filho que é para ele um pai, dada a falta de juízo do protagonista. Simultaneamente, Carlos Bonito (Rui Unas) perde o sentido ao seu nome, transformando-se apenas num quase-bonito, na medida em que deixa de ser o galã do filme, para passá-lo a tentar conquistar o coração da insensível Amália. Este desenvolve então uma relação com a tímida Susana, com quem planeia fugir, sem sucesso. Tudo isto banaliza o sentido da trama e retira qualquer laivo de originalidade que aqui pudesse ter lugar.

4. As cenas emblemáticas

Estão presentes na memória de qualquer português e são quase-sagradas. As míticas cenas em que, de madrugada, Narciso, dada a sua embriaguez, conversa com um candeeiro e até lhe pede lume ou provoca o dono da mercearia mais famosa do pátio com a célebre “Oh Evaristo, tens cá disto?”, são intocáveis clássicos do cinema nacional. Contudo, apesar de estarem também presentes na versão de 2015 d’O Pátio das Cantigas, há nestas cenas aspetos que devem ser apontados. César Mourão está de parabéns por conseguir recriar o diálogo noturno com alguma fidelidade, não desvirtuando o seu sentido e poder humorísticos. Por sua vez, a situação ocorrida na mercearia do Evaristo – que oferece a Narciso um característico convite à saída da mesma – acaba por ser uma recriação que não homenageia, mas ridiculariza. A provocação ao dono do estabelecimento é substituída por um “Oh Evaristo, não percebes nada disto!”. Enfim.

99bfc2eb1cd2f030749e1a67be0652114

6158

5. A tentativa de ‘modernice’

Se bem que esta é uma tentativa de adaptação d’O Pátio das Cantigas aos tempos modernos, a verdade é que ela contém todos os clichés adotados por quem queira oferecer uma visão daquilo que é a sociedade atual. Mas este filme não faz mais que escarnecer o principal, porque o pátio do Evaristo é caracterizado por um ambiente muito específico e contextual que, fora da época e enquadramento históricos em que se encontra, perde todo o seu encanto e a sua graça. Em primeiro lugar, destaca-se o facto de a emblemática mercearia de Evaristo ser transformada num estabelecimento gourmet. Ora, no filme original, a loja é tudo menos sofisticada. É a mercearia do bairro, que vende produtos do dia-a-dia e onde o requinte não tem espaço. Mas Leonel Vieira opta por introduzir esta variante na loja, aproveitando a deixa para fazer Narciso perguntar ao seu rival, “Oh Evaristo, tens cá wi-fi?”. Palavras para quê?

Paralelamente, acrescente-se que Narciso não é, de todo, o personagem engatatão que o segundo filme faz crer. De facto, o seu coração pertence a uma única mulher: Dona Rosa – menina Rosa, no remake (Dânia Neto). Esta versão moderna torna Narciso num condutor de tuk-tuk que aproveita o dia para levar estrangeiras a passear para, depois, se envolver com elas. É a completa deturpação do protagonista do filme.

Por último, destaque-se a recriação de Maria da Graça: uma irmã de Rosa (e não filha, como no filme original), que emigrou para o Brasil, consolidou neste país a sua carreira de atriz em telenovelas e regressa ao pátio, agora passados vários anos. Interpretada por Oceana Basílio, esta é uma personagem por quem Rufino sempre foi apaixonado e procura uma chance, sem hipóteses. Até porque se vem a descobrir o lesbianismo da mesma. Uma completa trapalhada de interesses amorosos misturada no cliché da mulher bonita inalcançável – e com uma tentativa de imitação do sotaque português do Brasil que mete dó.

6. O final

A loja de ouro que abre no Pátio, ganha uma relevância despropositada. Esta é assaltada e o filme passa a girar à volta de quem foi a personagem que o fez. No filme original, a situação mais próxima desta é aquela em que o avô das irmãs Amália e Susana é roubado por Carlos, que propõe à primeira fugir consigo. Mas aqui, é Joaquim Nicolau quem interpreta o inspetor do caso, que pára imediatamente de o investigar assim que se apercebe que Amália reside naquele pátio. Tudo isto porque este tinha ficado caído de amores pela cantora na noite anterior, quando a viu na televisão. Nada parece fazer sentido neste filme e o final só comprova isto mesmo.

screen-shot-2015-05-05-at-13-19-12_770x433_acf_cropped

Não obstante todos os aspetos menos positivos que encontro neste O Pátio das Cantigas, há particularidades que devem, também elas, ser destacadas. Miguel Guilherme e César Mourão são, indubitavelmente, bem escolhidos para os papéis que desempenham. O primeiro não poderia ser executado por mais ninguém. Apesar de tudo o que não merece louvor nesta trama, o ator tem graça pela sua espontânea expressividade e consegue honrar António Silva e os seus idiossincráticos comportamentos. Já César, ressalvadas as devidas proporções, traz à tela réstias de um Narciso modernizado, cumprindo assim, o que este novo filme promete. O que é facto é que o ator tem talento e consegue olhar para Rosa (aquilo que move o seu personagem ao longo da película) com a mesma paixão com que Vasco Santana o fazia.

Admite o realizador do filme que não pretende “ser génio e inventar em Portugal a melhor comédia do mundo. Só tentei fazer uns bons filmes de comédia e recuperar a comédia para Portugal”. Vieira fala no plural, precisamente porque este é apenas a primeira de três recriações de clássicos do cinema português: O Leão da Estrela (com estreia já marcada para este Natal) e A Canção de Lisboa, que chegará às salas de cinema em 2016.