Um Encontro com o Destino entra nos cinemas portugueses com a aura de sucessor de A Gaiola Dourada, um dos maiores sucessos recentes nos ecrãs nacionais. A temática da emigração, Joaquim de Almeida no elenco principal e lusodescendentes na produção da película são os pontos em comum entre os dois filmes. Mas é só mesmo isso, porque em tudo o que A Gaiola Dourada vencia, a produção canadiana é pífia.

1. Os portugueses do filme não sabem falar português

Não sei quanto a vocês, mas se há coisa que me irrita é personagens alegadamente portugueses que depois falam como se tivessem uma batata na boca. E Jeanette Sousa até pode ser muito carismática (que é), mas ela não deve falar português em casa com os pais. Foi constrangedor reparar que até a Nelly Furtado dominava melhor a língua do que a protagonista supostamente bilingue do filme. Joaquim de Almeida era o único que falava corretamente e não teve oportunidade de ensinar Claudia Ferri, que é o seu par romântico na fita e nem a palavra querida conseguia pronunciar. O constrangimento sobe a níveis recorde quando percebemos que todas as falas em português são legendadas também.

 2. A família portuguesa do filme é uma réplica das Lições de Salazar

Fanatismo religioso, com um pai que fica horrorizado por imaginar que a filha pode namorar com um protestante (nem sonha, claro, que o rapaz é ateu), nacionalismo exacerbado, mulheres que cumprem um papel meramente instrumental no contexto familiar. Compreendemos o argumento de quem diz que quem saiu do país nos anos 60 vive de forma diferente, com outra hierarquia de valores e diferentes perceções do que é a cultura portuguesa. Não compreendemos que um filme feito em 2015 retrate de forma pouco construtiva estes traços estereotipados e caricaturais. Não negamos que famílias assim existam, mas negamos que elas possam ser caucionadas como o exemplo normal de uma família nacional.

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3. A protagonista do filme pensa como se tivesse mais 30 anos do que realmente tem

Todo o enredo do filme circula em torno de algo absolutamente inverosímil: uma jovem, nos seus 30 anos, que põe o futuro em causa por uma vidente não aprovar o seu casamento. Vamos concentrar-nos: Esta rapariga é jovem, canadiana, descende de uma família que largou corajosamente o seu país em busca de um melhor futuro no estrangeiro e a história passa-se no séc. XXI. Será que quando os seus pais atravessaram o Atlântico em busca de uma vida nova também ficaram a pensar nas profecias da Senhora Maria?

4. O filme não é cinema

Ver este filme no cinema, nas madrugadas da TVI ou num canal qualquer do YouTube seria absolutamente igual. Não há aqui um exercício cinematográfico minimamente desafiante. O filme estrutura-se em torno de pequenos sketches resultantes de uma conversa entre a dupla principal na noite em que se conhece. Retalhos colados sem arrojo artístico ou narrativo.

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E esta estrutura episódica, que poderia servir para introduzir ritmo no filme, nunca deixou de ser previsível e, mais que previsível, redondamente desprovida de talento para nos contar uma história ou ajudar-nos a criar empatia com as personagens. Personagens essas que nunca chegamos a conhecer bem: O que fazem? Porque o fazem? De onde vêm? O que querem alcançar? Meras marionetas numa peça romântica desinspirada e superficial.

5. Como se comprássemos uma Gaiola Dourada na loja dos trezentos

É um filme cujo orçamento parece ter ficado todo para pagar a Joaquim de Almeida, na esperança de que a receita de bilheteira em Portugal e junto do público emigrante espalhado por todo o mundo acabasse por compensar. A iluminação é má e, não raras vezes, parece que o filme se está a passar dentro de dispensas ou então sob uma irritante (e constante) luz crepuscular, o que poderia dar bons momentos de fotografia, mas parece despropositado.

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O elenco parece desenrascado entre amigos, com pessoas que não são portuguesas, sabem pouco sobre o que é ser português e não o conseguem transmitir na sua essência. Tudo aquilo em que A Gaiola Dourada soube mostrar portugalidade e figuras que reconhecemos e identificamos como reais, Um Encontro com o Destino só oferece piadas de um mau contador de anedotas. Uma família que grita muito, mulheres obsessivas com limpezas, uma pintura da cara do Cristiano Ronaldo. Ser português até pode ser um bocadinho isso, mas este filme é só isto. Poucochinho.