Não tenho receio de dizer: muitas vezes vou ao cinema para relaxar. Para conhecer uma boa história, com uma mensagem simples e universal, um plot que podia ser o da vida de pessoas como nós, capaz de provocar emoções fáceis de resolver. Foi nessa expectativa que fui ver A Família Bélier.

E posso dizer que as minhas expetativas foram ultrapassadas. A película francesa conta a história de Paula (Louane Emera), uma adolescente francesa que, além de todas as questões normais da sua idade, tem ainda que ajudar a sua família. Pai (François Damiens), mãe (Karin Viard) e irmão (Luca Gelberg) são surdos-mudos e, por isso mesmo, é a protagonista desta história que trata das negociações da quinta da família e assume constantemente as funções de intérprete de língua gestual, mesmo quando os pais vão ao ginecologista. Estava tudo bem, até que, depois de integrar o coro da escola, Paula descobre o seu talento para a música. O dilema é clássico e todos sabemos como se resolve: A família ou o sonho?

Não é difícil de adivinhar qual será o desfecho, mas a previsibilidade nem sempre é pecado. O início é inteligente e, utilizando o som com perícia, é nos demonstrado como pode ser doloroso um começo de dia com alguém que não percebe o martírio que é ouvir uma cadeira a arrastar ou uma colher de pau a bater repetidamente na frigideira. E, depois deste momento, damos conta que, para essas pessoas, além de todos esses sons que não existem, há toda uma vida em silêncio.

Já sabíamos, mal entrámos na sala de cinema, ao que íamos. Um filme para nos fazer soltar lágrimas espontâneas, sorrisos enternecidos e encadear olhares cúmplices com quem, na mesma sala, não tivesse deixado o coração à porta. Louane Emera é uma protagonista absolutamente eficaz. É bonita, carismática, muito talentosa na maneira como entra nesta personagem, e adorável. Simplesmente adorável.

Na sua primeira performance como atriz, Louane prova estar como peixe na água e é fundamentalmente em si que o filme se sustenta. É a narradora e a personagem principal, num relato muito autêntico da vida desta adolescente, que ainda antes de sonhar que podia cantar, só entra para o coro por causa de um rapaz giro. Mal ela sabia a complicação que isso podia dar. Mas afinal, quem nunca se meteu em confusões por causa de rapazes ou raparigas giras?

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Cheio de momentos musicais, que não são metidos a martelo, como acontece em muitos outros filmes do género, esta história ganha também por se focar na vida normal de Paula e não na sua luta para chegar ao estrelato. Até porque, com a voz que tem, nem nos parece questionável que isso possa não acontecer.

Na família, que acaba por concentrar grande parte dos momentos cómicos do enredo, as interpretações de François Damiens e Karin Viard resvalam facilmente para uma caricatura excessiva e subplots mal desenvolvidos. Por isso mesmo, não é de lamentar que esses momentos ocupem pouco tempo, ganhando estas personagens, e o próprio filme, quando assumem integralmente a sua espessura dramática.

Em mais um dos bons momentos da edição de som, registamos um dos momentos mais crus e duros do filme. Durante o dueto do concerto de final de ano da escola, o som é interrompido e substituído pelo silêncio que os elementos da Família Bélier ouvem, num golpe fortíssimo que permite aos espectadores entender o quão difícil pode ser viver num mundo onde não somos capazes de ouvir nada, ou até mesmo entender, com os nossos próprios sentidos, os talentos e sonhos daqueles de quem mais gostamos.

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Este filme foi um sucesso em França e é uma pena que não o seja em Portugal. Já era altura de sermos capazes de ouvir mais o cinema noutras línguas que não o inglês e noutras linguagens que não a do superproduzido e supercorreto blockbuster norte-americano. Até porque, seja qual for a linguagem em que nos entendamos, uma boa história vale sempre a pena.

Ficha Técnica
Título: La Famille Bélier
Género: Comédia, Drama
Duração: 105 minutos
Realizador: Eric Lartigau
Argumento: Victoria Bedos
Com: Louane Emera, Karin Viard, François Damiens, Eric Elmosnino e Luca Gelberg

8/10