Só fui uma vez ao Bons Sons, em 2012. Já o achava especial antes de ir e teria a mesmíssima opinião mesmo se nunca tivesse lá estado. Para além do excelente cartaz de música portuguesa e da envolvência da aldeia, é especial pelo que representa, pelas ideias que transporta e pelas pessoas que o constroem.

É a primeira vez que o Bons Sons acontece num ano ímpar. Até este ano, o festival realizava-se apenas de dois em dois anos, intervalo justificado pela pressão que coloca sobre a pequena aldeia de Cem Soldos, em Tomar. Por que terão então acordado uma periodicidade anual? Arrisco: porque tudo aquilo que a organização pede aos habitantes parece devolver a dobrar.

A aldeia empresta 300 voluntários ao Bons Sons, que investem o seu tempo e esforço em tudo o que há para fazer, desde as montagens às refeições, merchandising (são as avós de Cem Soldos que cosem as lagartixas), venda de bilhetes e muitas outras coisas que não nos estão perto da vista. Os próprios habitantes têm de levantar uma pulseira (gratuita, obviamente) para poderem entrar em casa durante os dias do festival.

Em contrapartida, a SCOCS (Sport Clube Operário de Cem Soldos), para além do retorno económico que proporciona com a organização do festival, leva a cabo uma missão comunitária da maior importância: dá sentido ao voluntariado organizando os jovens da aldeia em equipas, ensinando-os a trabalhar em conjunto e a gostar do sítio onde moram; aplica receitas do Bons Sons para sustentar o ATL, pagar as contas do centro de saúde da aldeia e tem em mente um projecto de requalificação urbana, Casa Aqui ao Lado, e o programa Lar da Aldeia, de assistência a idosos.

cem soldos - festival Bons Sons10

Esta é só a face mais palpável dos frutos do Bons Sons, já que há um enorme impacto cultural na região que faz evoluir mentalidades e emancipa aquela população, como nos explicou Luís Ferreira, em 2014, através de uma expressão muito simples: «os putos de Cem Soldos tocam outras malhas».

E depois é o sorriso com que tudo é feito. Haverá desaguisados naquela aldeia durante o ano, como há em todo o lado, mas durante os dias de festival parece haver uma harmonia perfeita, sentimo-nos perante uma espécie de comunidade ideal a que gostávamos muito de pertencer. E pertencemos, enfim, tal é a maneira como nos recebe.

“Metade é sensibilidade, outra metade é comunicação.”

Em 2012, contaram-me uma história trivial mas que simbolicamente representa muito. Dois ou três jovens, em vez de acamparem, naquele dia ficaram a dormir ao relento numa praça da aldeia. De manhã, uma senhora de idade, em vez de se benzer com dó (e juntar uma série de comentários sobre o aspecto-de-drogados carregados de estereótipos que a população das zonas rurais tem o hábito de fazer), convidou-os a subir e ofereceu o pequeno-almoço, gesto que se repetiu nos outros dias (já sem a parte do relento) pela amizade ali criada.

Não há dinheiro, não há patrocinador, não há produtora de eventos que consiga comprar a personalidade deste festival, onde nada soa artificial. O grande mérito parece estar na malta nova de Cem Soldos, com vistas largas, que foi moldando a disposição dos vizinhos e atribuindo sentido ético a todo o festival.

Metade é sensibilidade, outra metade é comunicação. Sensibilidade porque há o cuidado de envolver todos os gostos e idades na programação musical, conjugando nomes como A Naifa, Vitorino, Sérgio Godinho, Aldina Duarte, Ana Moura ou Camané ao lado dos novos valores da música alternativa portuguesa. Comunicação pela forma como a organização consegue transmitir todos os seus propósitos a um público bem definido, que assim se compromete com o festival e o respeita como sendo seu.

Tudo flui a um ritmo calmo, a comida é genuína, o trato é fantástico, os preços não são ridículos, os dias são longos e não estamos em nenhuma feira das vaidades, ao contrário de outros festivais. O resultado disto tudo: uma data de boas memórias de um festival mais ou menos artesanal e uma celebração refrescante da língua portuguesa.

Todos os sentimentos que nutrimos por Cem Soldos podem atingir o seu esplendor máximo num final de tarde em frente ao Palco Giacometti. Aquele concerto do António Zambujo atravessado pelo pôr-do-sol é uma das imagens mais bonitas que tenho do Bons Sons. Este ano vamos poder derreter-nos (é trocadilho, dada a temperatura) com Benjamim, Tó Trips ou Duquesa naquele mesmo palco.

Pois é, com tanta coisa, ainda nem disse que a edição de 2015 tem um dos melhores cartazes de sempre. Está tudo aqui. Até amanhã.