Desde 1999, o dia 12 de agosto está reservado à juventude ou assim não o tivesse determinado a Organização das Nações Unidas. O objetivo passa por alertar o mundo para uma série de questões culturais e jurídicas em torno desta faixa etária e a organização ModaLisboa fornece as bases para que parte do objetivo possa ser cumprido. Ou, pelo menos, passou a tentar fornecê-las a dezenas de jovens designers aquando da criação da plataforma Sangue Novo, em 1992. 

Patrick de Pádua foi um dos designers que tirou proveito deste projeto quando foi selecionado na edição de março de 2015 da ModaLisboa, para apresentar a sua coleção de outono/inverno 15/16 no festival FashionClash, na Holanda. Para Patrick, “Ser reconhecido pelo trabalho que desenvolvemos é ótimo. É aquele aconchego imediato que nos diz «vale a pena»! (…) Mais do que uma ideia nacionalista de estar a representar Portugal na Holanda, sinto que são mais cartas dadas. Não existem só bons designers a sair das escolas de Londres ou de Paris: em Portugal também se faz moda.”.

“Não existem só bons designers a sair das escolas de Londres ou de Paris. Em Portugal também se faz moda” Patrick de Pádua

De facto, Patrick e outros designers que têm passado pela plataforma são a prova da veracidade da sua afirmação. Porém, o designer reconhece o facto de se tratar “sempre [de] um investimento pessoal, a todos os meios” e de, em Portugal não existir “uma legião que apoie financeiramente quem trabalha em arte…mesmo assim, passo a passo, vamos vencendo!”.

Na edição anterior da ModaLisboa, em outubro de 2014, também Inês Duvale beneficiou desta plataforma ao ser a escolhida para representar Portugal na Holanda, algo que irá “guardar sempre, como daquelas experiências avassaladoras que nos acontecem poucas vezes na vida. Esse prémio foi realmente muito especial, foi-me atribuído devido à minha primeira coleção. Normalmente, as nossas «primeiras» experiências são sempre portadoras de uma carga emocional muito grande.”.

“Portugal tem uma qualidade e talento incrível que muitas vezes fica subestimado” – Inês Duvale

Quando questionada sobre o sentimento de representar Portugal no estrangeiro e o consequente reconhecimento que se espera obter, a nível nacional, Inês revela que se sentiu lisonjeada em ser uma portuguesa entre tantos concorrentes. “Portugal tem uma qualidade e talento incrível que muitas vezes fica subestimado”, afirma a designer que sente na pele a falta de apoio e de divulgação de jovens emergentes nesta área. “O reconhecimento que obtenho é maioritariamente estrangeiro e o FashionClash foi ótimo porque aos poucos vamos cimentando cada vez mais o nosso nome no mercado”, disse Inês.

Porém, é àqueles que a apoiaram que Inês Duvale atribui maior importância, sentindo que “estava a representar todos aqueles que acreditaram em mim e especialmente a minha família. As famílias são fundamentais nestes processos e a minha ajudou-me e acreditou em mim incondicionalmente.”.

A verdade é que, em Portugal, a área da moda é menos valorizada pela população em geral, quando comparada a outros países e, muitos designers decidem rumar em direção a novos horizontes antes mesmo de vestirem roupa de tamanho adulto. Tal não aconteceu a Patrick de Pádua que, tendo nascido e passado parte da infância no estrangeiro, é em Portugal que está a plantar uma carreira de sucesso.

Para o jovem designer consciente das dificuldades financeiras atuais, “Portugal continua a ser um país forte. Há várias organizações, plataformas de trabalho que ajudam e apoiam os novos projetos, novas marcas e, especialmente, fornecem as ferramentas necessárias para que jovens designers, como muitos, consigam ganhar visibilidade e entendimento acerca da indústria. É uma indústria de graúdos e não nos podemos esquecer que parte muito do nosso investimento pessoal e financeiro conseguir alcançar os objetivos a que nos propomos.”.

Inês Duvale, para quem “ser designer de moda, principalmente, criador individual requer uma luta constante e acima de tudo ter paixão por aquilo que fazemos, porque não é um mundo fácil de penetrar”, reconhece o investimento de que fala Patrick.

“Não é algo que nasça connosco mas que se aprende com formação e com a experiência de trabalho” – Tânia Fonseca

Tânia Fonseca, jovem designer participante da plataforma Sangue Novo é de opinião idêntica. Para ela, o investimento na formação é visto como essencial apesar de haver “um talento natural”. Porém, defende a necessidade de aprender a aplicá-lo acrescentando que “a formação não nos ensina apenas a desenhar peças, mas também a produzi-las e todos os processos pelos quais uma peça de roupa passa, desde o desenho até ficar pronta. Não é algo que nasça connosco mas que se aprende com formação e com a experiência de trabalho.”.

Dessa experiência de trabalho pode Inês Duvale falar visto ter estagiado e trabalhado para um criador mais experiente, Ricardo Andrez. Apesar de já não se encontrar a trabalhar com Andrez, reflete sobre o assunto: “Aprendemos imenso a acompanhar o processo criativo e os métodos de trabalho de quem já se encontra no ramo. Considero que é uma experiência que futuros jovens designers deviam passar, sem dúvida! Encaro o estágio como se fosse uma introdução ao mundo real da Moda. E, para muitos de nós, a nossa carreira começa depois de tudo o que aprendemos e conseguimos absorver num estágio.”.

“os concursos também são uma escola” – Tânia Fonseca

Contudo, Tânia Fonseca atribui aos concursos como o Sangue Novo o mesmo valor que a formação. Para a designer, “os concursos também são uma escola. Acho que é uma boa forma de começar a pôr em prática o que aprendemos e mostrar o nosso trabalho. Cada vez mais é importante a existência de concursos porque são um bom ponto de partida para quem quer começar a produzir colecções mas não tem nenhuma plataforma para as mostrar.”.

Porém, depois da formação e do estágio, chega a hora de criar um produto e Patrick de Pádua declara que “se não gostar do que estou a criar e se o resultado não for algo que eu queira vestir, não vale a pena…algo está errado.”. O designer mostra a sua paixão por streewear como sendo “o estilo com o que mais me identifico a nível pessoal. É-me naturalmente fácil pensar em conceitos, padrões e desenvolve-los.”. Para Patrick a regra passa por adaptar um estilo que já existe e acrescentar-lhe algo próprio de cada designer, tal como ele diz “If you do something you love, it will never feel like work!”.

Sangue Novo

O próximo desfile dos designers do Sangue Novo vai abrir, como usual, a próxima edição da ModaLisboa. Nele poderemos assistir, novamente, à apresentação das coleções destes três jovens designers. A propósito disso, Inês Duvale revela que encara esta e as passadas participações como “um privilégio visto que existem tantos designers emergentes a concorrer e a ModaLisboa continua a apostar no meu trabalho. Quero claramente evoluir e  mostrar um trabalho contínuo e em crescimento.”.

Tânia Fonseca traz-nos alguns pormenores acerca do que podemos, desde já, esperar da sua coleção, revelando que “é mais desportiva do que a anterior, é o resultado do cruzamento de vários temas e tentei transmitir isso através da mistura de materiais e silhuetas e da fusão de diferentes peças de roupa numa só.”.

Fotografia: Bárbara Sequeira na ModaLisboa Curiouser