Quatro amigos, uma casa abandonada e uma vontade de democratizar a arte. Foram estes os ingredientes necessários para realizar a Ocupação#1, uma intervenção de um grupo de jovens que decidiram encher de obras de arte uma casa abandonada há 20 anos.

No último sábado, em Fátima, uma casa foi ocupada com obras de arte, música, fotografia e muitos jovens movidos sobretudo pela vontade de descentralizar a arte das grandes cidades. Tudo começou com quatro jovens, o André, o Rodrigo, o Rui e o João, aos quais sem darem por isso se juntou uma multidão de artistas, que se identificaram com a ideia e desde logo se dispuseram a colaborar no projeto de ocupação, que apesar do nome, foi legal.

O local escolhido, após várias pedidos junto da Câmara Municipal de Ourém, que apoiou a ideia, foi uma casa abandonada há 20 anos, cuja construção nunca fora concluída. Segundo consta, este foi um palacete inspirado numa moradia que Júlio Iglesias tinha em Miami, mas nunca foi sequer habitado. Foi então nos mil metros quadrados de área que decorreram ao longo de todo o dia workshops, sessões de cinema, conversas, performances e várias exposições de mais de 70 artistas. O Espalha-Factos não podia perder um evento como este e foi passar o fim de tarde nesta moradia quase mística para qualquer fatimense.

A casa tinha vários andares e divisões, cada um dedicado a um ou vários artistas. No rés-do-chão havia várias exposições, em que se observavam não só quadros, mas também salas quase vazias, que deixavam qualquer um a pensar e nos inspiravam a observar com mais atenção o que encontrávamos nas paredes, auscultadores pendurados aqui e acolá, com faixas que invocavam as obras de arte que rodeavam as pessoas e suscitavam os mais variados temas de conversa.

Descendo até à cave, só com lanternas se conseguiu apreciar o reaproveitamento de lixo que ainda havia na casa e que foi transformado também em obras de arte. A reaproveitação do próprio espaço foi um dos critérios de escolha dos artistas que expuseram.

No andar de cima, além de mais exposições, estavam montados 2 palcos, onde durante o dia se realizaram perfomances de dança e alguns concertos. Grande parte do campo da arte acabou por ser representado, desde as artes plásticas, fotografia, vídeo, cinema, ilustração, design de moda, passando obviamente pela música, dança e performance.

O principal objetivo da Ocupação#1 era trazer a arte e a cultura para meios mais fechados, em que “nem as próprias pessoas sentem necessidade disso”, como referiu o João, um dos elementos do núcleo principal. Ainda assim, não deixa de referir que “houve uma aceitação bastante grande”, a julgar pelas mais de 700 pessoas que visitaram a moradia e deixaram comentários muito positivos acerca de toda a dinâmica do evento, inclusive o Bispo de Leira Fátima, D. António Marto.

Foram mais de dois meses de trabalho que não foi pago nem patrocinado, mas cujo resultado ficou à vista de todos aqueles que visitaram e apreciaram o espaço. Questionado sobre o porquê de não quererem patrocínios, Rui refere que isso lhes deu mais independência. “Ao aceitarmos patrocínios teríamos de ceder a uma data de coisas, ter o espaço forrado a lonas, ter agradecimentos (…) provavelmente tínhamos mais dinheiro e não tínhamos feito melhor do que o que fizemos”. 

“Esta casa é o ensaio do que gostávamos de ver na sociedade”, referiu Rodrigo ao jornal O Ribatejo. João justifica esta observação do amigo com o facto do grupo ser apologista da “democratização da cultura, de todo o tipo de igualdades, zero discriminação …e também trazer cultura para um meio pequeno”, que foi basicamente o que aconteceu no palacete abandonado.

O grupo aproveitou ainda para agradecer a toda uma geração mais jovem que se aprontou a colaborar e a todos os candidatos que quiseram expor as suas obras.

Fotografias da autoria de João Patrício, Miguel Rodrigues e Serenela Moreira.