Todos os meses o Espalha-Factos dá destaque a um autor e, neste mês de agosto, a escolhida foi a britânica Jane AustenOrgulho e Preconceito é um dos clássicos da literatura mais conhecido no mundo inteiro. Passado no início do século XIX, o romance de Jane Austen resiste as forças do tempo, mantendo-se atual mesmo passados dois séculos da sua publicação.

“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa.”

Mesmo que não tenhas lido o livro, é provável que conheças esta famosa frase que inicia o enredo de Orgulho e Preconceito. É a chegada de um jovem de grande fortuna a Netherfield que vai despoletar a preocupação, quase obsessiva, de Mrs. Bennet em casar bem as suas cinco filhas. Mr. Bingley é, de imediato, considerado o par perfeito para a sua filha mais velha, Jane. O amigo que o acompanha torna-se, também, motivo de conversa. Com as suas “dez mil libras por ano”, Mr. Darcy representa o sonho de qualquer mãe, no entanto, a sua arrogância desvanece rapidamente o seu fascínio inicial.

A capacidade de observação de Jane Austen leva à construção desta narrativa que retrata fielmente a pequena burguesia da sua época, dominada pela mesquinhez do interesse, pelo orgulho e pelos preconceitos de classe.

O dinheiro e o amor, dois temas sempre atuais, dominam este romance. A autora descreve, logo no início, a mentalidade que carateriza o casal que encabeça a família Bennet, à volta da qual a narrativa se desenvolve. A obra denota, imediatamente, um cariz crítico ao denunciar a lei do morgadio. Sendo esta uma família com cinco filhas, põe-se o grande problema da herança que, à falta de um filho varão, vai ter de passar para o parente mais próximo do sexo masculino. Esta capacidade de criticar a sociedade do seu tempo é um dos aspetos mais interessantes da narrativa que, para além do enredo de cariz romântico, procura condenar e satirizar certos convencionalismos e comportamentos dos seus contemporâneos.

A obra distingue-se, também, pela construção das personagens, às quais não podem ser apontadas quaisquer falhas. Os pormenores foram atribuídos com todo o detalhe possível, de modo a que cada personagem pudesse ser o mais familiar possível ao leitor. Os diálogos tão bem desenvolvidos fazem-nos rir e até emocionar, prendendo-nos cada vez mais à narrativa. Como se isso não chegasse para convencer o leitor, a autora ainda nos consegue fascinar com as descrições da época, levando-nos numa autentica viagem no tempo à Inglaterra do século XIX.

A protagonista da história, Elizabeth Bennet, é uma complexa personagem que nos cativa de forma especial. É descrita como uma rapariga jovem inteligente, de beleza discreta e com sentido de humor. Ao contrário das outras mulheres, que adaptavam as suas opiniões de modo a aumentar as suas oportunidades de casamento, Lizzie (como carinhosamente a chamam) impossibilitada de ter um futuro independente por não poder herdar, recusa-se a subjugar-se. Está determinada em casar por amor, o que a leva a recusar pedidos de homens de quem não gosta, nem respeita. Pode denotar-se aqui um feminismo por parte da personagem que é, de certa forma, inspirado nas vivências pessoais da autora que também chegou a rejeitar uma proposta de casamento.

Outra personagem maravilhosa é Jane Bennet, a primogénita, considerada a mais bela e de temperamento dócil. Esta é a irmã favorita de Elizabeth, sendo à volta destas duas personagens que a ação principal se desenrola. As duas personagens masculinas com maior centralidade na história são Mr. Bingley, o jovem rico que aluga a mansão de Netherfield, e o seu amigo aristocrático Mr. Darcy, caraterizados pelos seus temperamentos distintos. Enquanto o afável Mr. Bingley fica instantaneamente agradado pela natureza de Jane, Mr. Darcy desdenha de imediato as irmãs Bennet, considerando-as pessoas de estatuto inferior e longe do seu ideal feminino. Este é um tópico central da narrativa, as primeiras impressões, construídas sem fundamento que levam a preconceitos precipitados.

A escritora britânica faz, também, uma sátira social através de personagens secundárias que, por exemplo, procuram salientar as fraquezas da nobreza e do clero, como é o caso de Mr. Collins.

A junção de todas estas pequenas peças constitui esta obra notável, considerada um clássico da literatura, de uma das escritoras britânicas mais relevantes – Jane Austen. Nesta narrativa há sátira, há crítica, mas é o romance que acaba por ter o papel principal, pois apesar de tudo, todos nós procuramos o amor, o par perfeito que não só nos faça feliz, mas que também nos proporcione uma vida confortável. Jane Austen nunca deixou de acreditar fielmente nisso, desejando esse destino à sua própria protagonista.

Nota final: 9,5/10

Ficha Técnica

Título Original: Pride and Prejudice

Autor: Jane Austen

Editora: Publicações Europa-América

Páginas: 278

Ano da publicação: 1975

Publicação original: 1813