O acordar desta sexta-feira do Andanças (para alguns bem mais tardio tendo em conta os bailes de forró, cabo-verdianas e lusotango pela noite dentro) fez-se sob uma quente e silenciosa brisa alentejana. O matinal Qi Gong Danzado de Dolores Matamoros, a oficina de Astrodanças: uma dança pelos céus e, por fim, a oficina de Biodanza a cargo de Cristiano Martins foram alguns dos pontos altos do dia.

Ainda não eram 9h quando o recinto, até então deserto, foi ganhando vida pela chegada de visitantes para participar na primeira actividade da jornada prestes a começar. Pouco mais de 40 jovens e adultos ocuparam posições na grande roda do Palco Mimosas para receber instruções de Dolores Matamoros. Qi Gong refere-se a um sistema holístico internacionalmente reconhecido que tem por base a postura, a respiração, o movimento e a meditação como pilares para alcançar o equilíbrio físico e mental.

Ao longo de uma hora e meia de oficina, Dolores, sempre em interacção com cada um dos participantes, foi descrevendo breves conjuntos de movimentos acessíveis a qualquer um com o intuito de expulsar as energias mais pesadas e negativas, regular as forças e tensões que acumulamos e utilizamos no dia-a-dia e em paz com o ‘’eu’’ interior e exterior. O foco de atenção do workshop acabou por estar na respiração ora simples (estrutura de inspiração e expiração consciente) ora caótica (sem estrutura, respiração inconsciente) e na forma como se complementam e interligam no decorrer do quotidiano.

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Depois de uma hora estruturada para o relaxamento e análise individual, o último terço da actividade foi dedicado ao trabalho em grupo. Vários foram os exercícios executados em que a responsabilidade de libertação e relaxamento de um dependeu inteiramente do comportamento e escolhas de outro.

Cabeça, tronco, membros e alma foram os protagonistas de uma aula com o intuito de despertar sentidos e preparar os andantes para um dia que se veio a revelar uma enchente de emoções. “Fazer tudo o mais devagar possível e obedecer aos ritmos respiratórios!” foi lei desta oficina que amanhã volta a ganhar vida neste festival.

Num recinto cheio de andantes que passeavam, petiscavam, dançavam e dormiam nas largas sombras oferecidas pela copa das árvores eram 16h quando, no espaço de actividades paralelas, no meio de pequenos lagos e compridas rochas, tomou lugar a oficina Astrodanças: uma dança pelos céus. Enquanto a fila se prolongava para assistir ao espectáculo que é o Sol através de dois telescópios, devidamente preparados e posicionados, Luís Silva contou a história e foi respondendo a perguntas em torno da estrela.

As tão ansiadas erupções foram visíveis: pequenos derrames ora de cor preta, ora de cor avermelhada (dependendo do material utilizado) estavam espalhados pelo cheio círculo dourado. “São labaredas, à medida que se dá a erupção vão-se afastando do Sol e arrefecendo.”, justificou Luís. Depois de, na sessão de Astrodanças de quinta-feira à noite ter sido possível observar Saturno, dezenas foram os que não deixaram de esperar na fila para observar o Sol e as suas lentas transformações. No final, todos chegaram à conclusão que uma das participantes da oficina resumiu: “se temos origem em matéria expelida por estrelas, somos estrelas!”.

Já o pôr-do-sol foi por centenas passado na Oficina de Biodanza a cargo de Cristiano Martins. Esta que tem sido uma das actividades com maior afluência no festival por volta das 19:30h, no palco DJ, fez encher o estrado de jovens, adultos e idosos ansiosos pela chegada do facilitador de biodanza.

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Conhecer o outro, experimentar o outro, desafiar o outro e amar o outro foram os desafios-chave de uma hora e meia que não se deixou vencer pelo cansaço. Em rodas, a pares, a solo ou em grupos que se iam aglutinando, cada andante foi sendo permanentemente induzido pelas indicações e propostas de Cristiano Martins a oferecer-se ao outro como um reflexo verdadeiro do que sente.

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Protagonistas foram o olhar e a arte de saber olhar, “não importa tanto a beleza do movimento mas o vosso contacto, o vosso conforto na fixação do olhar do outro”, sublinhou o cabeça da oficina. Terreno fora sorrisos, gargalhadas e algumas lágrimas reproduziram-se e multiplicaram-se num espaço de tempo em que a palavra foi proibida. Jogos de confiança a olhos fechados, desafios de encontro de pares e de reconhecimento das características de si e do outro, fileiras de celebração e agradecimento pela vida, movimentos de aglomeração e dispersão foram alguns dos motes lançados por Cristiano a quem tão abertamente se entregou ao outro e se lançou na rede de partilhar para viver.

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Um final emocionante e emocionado viveu de um tema por todos entoado: “Eu agradeço!” foi a forma perfeita para os participantes olharem Cristiano que acabou a dançar no centro de uma roda recheada de aura. Sem dúvida um dos pontos altos do festival para aqueles que olham a vida como um palco em que não se pode parar de dançar. Até amanhã e boas andanças!