A criação dos estúdios da Marvel em 2008 apanhou muita gente de surpresa. As vozes mais críticas referiam que seria necessário uma mão firme no comando da Marvel para fazer renascer o universo que Stan Lee criou no início dos anos 60. Cinco décadas depois, a aposta arriscada traduziu-se num boom inesperado de filmes de super-heróis que parece não ter fim.

O que parecia complicado tornou-se fácil devido à simplicidade do estúdio em ligar os diversos arcos das bandas desenhadas nos vários filmes que vão saindo para as salas de cinema. Esta estratégia tem resultado lindamente mas a adaptação das histórias de quadradinhos de Matthew Murdock para a televisão tinha tudo para correr mal face ao passado negro do personagem no cinema, nomeadamente no flop de 2003 realizado por Mark Steven Johnson, que muitos fãs ainda tentam esquecer. Felizmente, não foi o caso. 

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Daredevil é a primeira aposta televisiva da Marvel com um super-herói protagonista e arrasa com a concorrência mal termina o primeiro episódio. É tudo o que Arrow deveria ter sido. A palete de cores viva e o humor sarcástico utilizado no universo cinemático dá lugar ao drama cru e ao ambiente sórdido de uma cidade assolada pelo crime. O grande trunfo da série criada por Steven DeKnight recai nesta escolha de representar Hell’s Kitchen sem esconder o submundo criminoso que toma conta de todas as vertentes da cidade. Não há adornos. Há uma natureza intensa, muito por culpa da Netflix, que decidiu apadrinhar esta adaptação da história de Matthew Murdock para os tempos modernos.

A série conta-nos a história de Murdock, um advogado que ficou cego durante um acidente e que, com o passar dos anos, aprendeu a desenvolver os outros sentidos. Esta capacidade única faz com que Matthew possua duas vidas: de dia trabalha numa firma e à noite veste o papel de um vigilante à procura da corrupção na cidade natal Hell’s Kitchen. O personagem é interpretado por Charlie Cox que agarra esta oportunidade com unhas e dentes e que surpreende em cada momento que aparece no ecrã. Cox desempenha na perfeição o típico bom samaritano mas também consegue mostrar uma veia volátil, caracterizada pelo estilo brawler de Murdock, quando está nas ruas escuras de Nova Iorque. Mas Charlie não brilha sozinho.

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O melhor amigo Foggy Nelson,  interpretado por Elden Henson, demonstra uma química impressionante com Matthew e vende o clássico humor pateta quando é preciso. Ao lado de Foggy, temos Karen Page (Deborah Ann Wollque apresenta uma desorientação inicial mas vai desenvolvendo o personagem aos poucos. Fora deste trio, temos ainda um leque de personagens interessantes e úteis para o enredo, que aproveitam a riqueza do elenco que possui nomes como Rosario DawsonToby Leonard MooreAyelet Zurer e ainda a revelação Vondie Curtis-Hall

Um dos problemas com os filmes da Marvel é a falta de um vilão carismático no universo cinemático. Contudo, em Daredevil, temos finalmente uma interpretação que os fãs pediam à imenso tempo. Este protagonismo cai todo nas mãos de Vincent D’Onofrio que mostra um balanço perfeito entre ser um cabecilha de elite e um homem fraco com problemas mentais que já vêm desde a infância. Vincent é Wilson Fisk (também conhecido pelos amantes de B.D. como Kingpin), uma figura bastante perturbadora que parece uma criança no corpo de um graúdo. Até a maneira como este fala denota que existe algo muito errado com o personagem e o espectador fica sempre na expectativa de descobrir o que se passou com Fisk para este ser tão distante dos que o rodeiam.

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Daredevil é um paradoxo. Está situado na mesma linha temporal que o universo cinemático da Marvel mas apresenta um estilo completamente distinto dos filmes. Nota-se claramente uma grande inspiração na trilogia Batman de Christopher Nolan, tanto na construção de diálogos como na palete de cores cinzentas e frias. O ambiente hardcore vende na perfeição o crime sórdido das ruas de Hell’s Kitchen e basta vermos um episódio para entendermos isso. Os personagens estão todos em sintonia e cada um defende à sua maneira um sentido de justiça diferente. Para além disto, a série preocupa-se em criar fundações para a criação do grupo The Defenders, ao mencionar, discretamente ou com um detalhe maior, certas figuras importantes que existem dentro do universo.

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Todavia, Daredevil ainda sofre de alguns clichés dispensáveis e um ou outro plot device que é previsível mas consegue disfarçar estas pequenas falhas com um enredo sólido que pede mais temporadas para se desenvolver na totalidade e um estilo de realização que aproveita ao máximo os momentos mais tensos. A parceria entre a Marvel e a Netflix tornou Daredevil na série mais procurada no início de 2015 e não é difícil perceber porquê.

Nota final: 8,5/10