Ao longo da sua carreira, Agatha Christie foi aclamada por milhões – como ainda hoje é –, ganhando o título de Rainha do Crime ou Duquesa da Morte, bem como o de Dama pela Rainha Isabel II em 1971. No entanto, pouco ou nada se sabia sobre o génio que se escondia por detrás da cortina literária. Com a publicação da sua autobiografia em 1977, os fanáticos do género policial tiveram a oportunidade de navegar pelos detalhes da vida de umas das mais importantes figuras da literatura a nível mundial.

O livro – com quase 700 páginas – começa com um prefácio, esclarecendo que a autora começou a construir a sua autobiografia em 1950 e parou aos 75 anos de idade, cerca de quinze anos depois. O prólogo informa-nos que Christie se encontrava instalada em Nimrud (Iraque), na sua Casa de Expedição, onde residia em 1950, quando lançou as primeiras pedras para esta fantástica obra.

Um dos aspettos mais fascinantes deste livro é que Agatha não se sente completamente presa pelo critério temporal de uma autobiografia. Embora a autora siga uma linha linear ao longo da sua vida, são vários os pretextos que ela utiliza para realizar analepses e prolepses, comentando as diferenças marcantes entre o tempo que está a ser descrito e a época em que a obra estava a ser desenvolvida.

Agatha Christie em Nimrud, onde começou a escrever a sua autobiografia.

Agatha Christie em Nimrud, onde começou a escrever a sua autobiografia.

Para os leitores de hoje, esta obra torna-se especialmente interessante por nos dar uma perspectiva aprofundada e pessoal dos séculos XIX e XX, abordando aspectos como as Guerras Mundiais, o aparecimento do avião, a reprodução dos automóveis, entre outros.

Ainda assim, uma das mais fascinantes caraterísticas do livro é o momento em que o leitor percebe que Agatha Christie nunca teve, no fundo, desejo ou vocação para se tornar escritora. A escrita era algo que ela via como lazer – adicionalmente, a autora comenta que nunca achou ser particularmente boa nessa prática. Após escrever contos e poemas, decidiu apostar no ramo policial e viu a sua carreira crescer de uma forma absurdamente rápida e inesperada. São poucos os livros que a autora diz ter gostado realmente de escrever, acrescentando que a profissão de escritor, como todas as outras, tem as suas desvantagens.

Obviamente que muitos dos aspetos interessantes de uma autobiografia são aqueles que abordam a vertente pessoal da vida da escritora. O leitor navega pelos primeiros amores de Christie, passando pela destruição do seu primeiro casamento, o nascimento da sua única filha, as inúmeras casas que a autora possuiu, entre outros marcos.

Ashfield, a casa de infância da autora.

Ashfield, a casa de infância da autora.

Agatha Christie termina a obra num tom nostálgico, referindo Ashfield – a sua casa de infância – como uma das mais bonitas memórias que usufrui. A autora fecha este magnífico trabalho da mesma forma que começou, dizendo “Uma das maiores sortes que podemos ter na vida é uma infância feliz. Eu tive uma infância muito feliz”.

Para os leitores ávidos de Christie, esta obra é uma deliciosa viagem pelo “mais fascinante mistério de Agatha Christie: a história da sua extraordinária vida”, como comenta o Daily Mail. Mesmo para aqueles que conhecem pouco do seu trabalho, esta autobiografia é um relato maravilhoso de uma vida repleta de aventuras e desamores, num mundo que se encontrava numa rápida e constante mudança. Uma obra que fará certamente as delícias de qualquer apaixonado por livros.

NOTA: 9.5/10

Título original: An Autobiography

Autor: Agatha Christie

Editora: ASA

Ano de Lançamento: 2011

Número de Páginas: 703