O romance de Tolstoi sobre a morte esperada ou a vida não vivida é considerado por muitos críticos um dos melhores da literatura mundial. O livro começa com uma descrição do ambiente que se vivia no local de trabalho e depois no velório de Ivan. Aí, ocorre um retorno no tempo, até à adolescência do protagonista, aos seus estudos, casamento e leito de morte.

Ivan morre. Os seus colegas de trabalho juntam-se para conversar. No entanto, ao invés de trocarem condolências sinceras, discutem sobre promoções e sobre quem irá ocupar o lugar de Ivan na empresa, agora vago. É com esta forma subtil de apontar o dedo às pessoas que povoam esta sociedade que Tolstoi começa e acaba o seu romance. Pessoas sem valores e sem consciência, que se movem por interesses pessoais e consoante as suas posições sociais.

Ivan Ilitch viveu uma vida constante, sem grandes sobressaltos. O personagem sempre fez o que considerou correto, ou o que a sociedade que o rodeava lhe impunha como correto. Quando jovem, divertia-se e ia a festas – mas sem nunca perder a discrição. Quando conheceu uma mulher, (Praskovya Fiodorovna) que o cativou, inicialmente pela sua beleza, casou com ela e acabaram por ter uma filha e um filho. A vida de Ivan acabou por transformar-se naquilo que ele prevera e para o qual ele trabalhara. Era, a certo ponto, alguém com autoridade suficiente para não ter de a explicitar – e era essa superioridade, silenciosa e reconhecida, que o deixava com um sentimento que ele sempre associou à felicidade e plenitude.

Quando lhe é feita uma proposta de trabalho que este considera irrecusável, acaba por mudar-se para um novo apartamento, ainda antes da sua mulher (com a qual partilhava um quotidiano conjugal atribulado e frustrado) e dos seus filhos. Ao chegar, sente uma súbita afeição para com aquela casa e o ambiente doméstico. Decide tratar, com as suas próprias mãos, da decoração e da preparação da casa que irá, em breve, receber a sua família.500_9789722036870_bis_morte_de_ivan_ilitch

Enquanto se dedica às mobílias, cortinados e afins da sua nova casa, Ivan sofre um acidente. Este afeta-o na zona dos rins, e marca o início do papel central da dor física e psicológica neste livro. Será um rim ou é o apêndice que está doente? A narrativa cria uma bolha em volta dessa dor crónica e insuportável da qual nunca se descobre a origem e resvala para o limbo entre a vida e a morte, saltitando entre as duas, acompanhando Ivan em momentos lúcidos e outros em que é consumido pela dor muda.

Ivan Ilitch questiona-se, nas suas últimas semanas de vida, acerca do que pode ter feito de errado para ter aquele desfecho trágico e anunciado. Passa a viver fechado na casa que lhe deu tanto trabalho a decorar e que agora se lhe assoma como uma prisão. É assaltado por raiva, frustração, revolta e alguns instantes de conformismo.

O pior de tudo acaba por ser a mentira que sente a pairar pelas divisões de sua casa. Os familiares não admitem que este vai morrer em pouco tempo e tratam-no como se a sua dor (nunca diagnosticada) seja algo que ele exagera e que é passageiro. Não compreendem as noites solitárias que passa nem a agonia interna que tenta esconder. Só o criado (que o ajuda a ficar mais confortável) e o filho (que entende que ficará sem pai, que se comove e chora por ele) percebem e admitem o que está a acontecer.

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A linguagem negra e crua de Tolstoi, despudorada e realista, que não amolece nem nos momentos mais delicados, marca este romance curto mas cheio de significado. O autor russo comprova, aqui, que não tem qualquer problema em tratar temas relacionados com a morte e com a agonia do final da existência humana. O protagonista que o autor escolheu revela-se alguém que nunca questionou a legitimidade do que fazia e a quem o leito de morte trouxe a consciência da finitude e algumas questões que nunca o assaltaram anteriormente – um caso de alguém a quem o prenúncio da morte trouxe a elucidação.

Nota: 8/10

Título original: The Death of Ivan Ilych (em russo: Смерть Ивана Ильича, Smert’ Ivana Ilyicha)
AutorLev Tolstoi
Editora: LEYA
Ano de lançamento desta edição:  2008
Número de Páginas: 96