Quatro séculos depois de Tirso de Molina dar vida, na sua obra, à personagem de Don Giovanni (ou Don Juan, como é vulgarmente conhecido), o encenador Paulo Sousa Costa escolheu, como projeto final do mestrado em encenação, apresentar em cena a sua adaptação deste sedutor impetuoso. Inspirado nas versões de autores como Lorenzo da Ponte, Molière, António Patrício, José Saramago e Natália Correia, Don Giovanni, ou O Imorigerado Imortal chega hoje ao palco do Teatro Thalia, nas Laranjeiras, e aí fica até 6 de setembro. 

Sinto em mim um coração capaz de amar toda a terra” – Don Giovanni

A frase “Nem tudo é o que parece“, projetada no cenário do palco, adivinha uma revelação inesperada. Sob a música da obra homónima de Amadeus Mozart, ouve-se trovoada e chuva a cair. Vêem-se duas sombras, um duelo. Cai o Comendador, e a sua filha, D. Ana (Liliana Santos), grita a morte do pai. Sozinho, um Don Giovanni atrapalhado, com a camisa ensanguentada, entra e sai de cena.

Vemos agora Leporelo (António Machado), fiel aio de Don Giovanni que, num monólogo jocoso, desaprova o estilo de vida do seu amo. Não é o único. Sedutor carismático e irresistível, que viaja o mundo deixando nele as lágrimas dos corações que despedaça, Don Giovanni colecionou senão o ódio das que, em noites frutíferas, o amaram. Só em Espanha foram 1003 as mulheres que suspiraram o seu nome, relembra Leporelo. Em palco estão apenas três: D. Ana, enganada no leito por um impostor que julga ser Giovanni e que, com a ajuda do seu noivo (Sérgio Moura Afonso), jura vingança pela morte do pai; D. Elvira (Carolina Puntel) cuja paixão a levou à loucura e Zerlina (Júlia Belard), uma ingénua camponesa a quem, como a tantas outras, Giovanni rouba, para mais tarde partir, o coração. À vingança destas vai juntar-se a de Maseto (Tiago Costa) que, vendo Zerlina encantar-se por outro homem, procurará Giovanni para o tentar matar. Mas, numa época de aparências e falsas moralidades, permanece agora a questão, ecoada na memória do espectador: será que tudo isto é o que parece?

 “O ator nasce no teatro, sem qualquer dúvida. Isto é a raiz do ator” – Ângelo Rodrigues

Ângelo Rodrigues foi o escolhido por Paulo Sousa Costa para interpretar o imortal Don Giovanni, uma personagem algo diferente daquilo a que está habituado. “Mas isso é bom, não é? Poder descolarmo-nos do que habitualmente fazemos e ter a oportunidade de fazer um registo completamente diferente”, defende.

Imortalizado por Mozart no século XVIII, a personagem de Don Giovanni tem sobrevivido ao tempo e marcado gerações. “O Don Giovanni é um sedutor, como digo na peça. É um bem-falante, é persuasivo e o facto de ter o dom da palavra e de ser muito comunicativo acaba por ser muito manipulador. As mulheres acabam sempre por cair nas graças dele. Acho que o Don Giovanni não teria tanto sucesso hoje em dia”, conta ao Espalha-Factos o ator, que em nada se revê na personagem. “Sou muito respeitador do mundo feminino e sou muito apologista de que as mulheres têm os mesmos direitos dos homens. Estou nos antípodas do que o Don Giovanni representa”, afirma.

Aos 27 anos, já com um currículo rico na representação e recém-licenciado pela Escola Superior de Teatro e Cinema, Ângelo diz ter sentido o peso da responsabilidade. “Este é um dos clássicos mais adaptados de todos os tempos e não só sobrevive por causa da qualidade do texto mas muito por causa do mito criado à volta do Don Giovanni. Por isso sim, foi uma responsabilidade“, diz, não escondendo a admiração por Paulo Sousa Costa. “ há já algum tempo que queria trabalhar com ele, mas ele não sabia. Ele convidou-me e eu, ingenuamente, nem sabia qual é que era o papel que ele queria, mas depois deduzi que seria o Don Giovanni. Estava com receio de perguntar“, brinca.

A ele juntaram-se Liliana Santos, António Machado, Júlia Belard, Tiago Costa, Sérgio Moura Afonso e Carolina Puntel. “É um grupo muito bem disposto. Com o António Machado estamos sempre a rir, nunca conseguimos manter uma postura séria, o que também é bom porque traz bom ambiente e leveza aqui aos ensaios. É ótimo poder trabalhar numa ambiente assim“, confessa o ator.

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Mas Ângelo não teve mãos a medir. Ao Espalha-Factos conta que o principal desafio foi conciliar a carga horária, carregada de projetos bem diferentes. Com a peça de final de curso, Os Condenados, as gravações da novela Poderosas e o ensaio de Don Giovanni, Ângelo trabalhava 16 horas por dia. “A certo ponto aquilo era assim um bocado esquizofrénico. É preciso uma gestão emocional enorme para não entrar em conflito, mas quando as personagens estão devidamente agarradas há espaço emocional para construir uma coisa nova, como foi o caso”, diz o ator, que já pisa os palcos desde os 15 anos.

Mas como “quem corre por gosto não cansa“, Ângelo Rodrigues tentou e conseguiu. E está agora licenciado em Teatro. O projeto de final de curso, a peça Os Condenados, levou-o ao palco do D. Maria, no final de julho passado. “Foi avassalador porque tive a oportunidade de pisar o palco do teatro mais conceituado do país e isso para mim foi uma enorme honra. Foram só três dias e a sala esteve sempre cheia. Estavam 30º no domingo e as pessoas preferiram ir todas para o teatro às 4 da tarde. Era um registo mais cómico, mais absurdo, as pessoas riam-se, tínhamos o contacto ali mais próximo. É outra forma de dar a conhecer o nosso trabalho sem ser através da televisão. E as pessoas gostam disso porque é muito mais próximo, mais humano e torna-nos, a nós atores, mais humildes“, confidencia.

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Em cena como Don Giovanni até 6 de setembro, Ângelo anseia continuar pelos palcos. “O ator nasce no teatro, sem qualquer dúvida. Isto é a raiz do ator“, remata.

Don Giovanni, ou O Imorigerado Imortal está em cena de quarta a domingo, às 21h30. O preço dos bilhetes é de 15€.

Fotografias de José Correia