No segundo dia do Andanças 2015, começámos com um baile matinal, depois fomos até ao Espaço Criança ouvir estórias e acabámos a aprender danças portuguesas. De tudo o que o Andanças oferece, foi dia para perceber que as tradições portuguesas estão bem vivas!

Um baile pelo mundo logo pela manhã

Para acordar no Andanças, há várias opções. Os Andantes podem ir tomar um banho na barragem, ter uma aula de alongamento ou ir a um baile matinal. Esta última opção foi a escolha de muitos Andantes.

De forma espontânea, os participantes do baile dançaram o rondó, passaram pelo repasseado ou ainda deram um passinho na mazurca, tudo isto acompanhado pelo som de Duovidozo. O grupo constituído por Inês Lopes e Ricardo Esteves tem um ano, mas a música já os junta há muito mais tempo. Na tuna académica da Faculdade de Arquitetura de Lisboa iniciaram a sua aventura pela música. Depois começaram a vir ao Andanças, como participantes,e de frequentaram algumas tertúlias, dizem ganharam o gosto por o ritmo da música dos bailes do festival.

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É entre os passos dos Andantes que vão trocando de instrumentos, afinal trazem mais de uma dezena na bagagem. “Vejam só a tralha que temos em palco”, brinca Inês. Um dos objetivos do grupo é interagir de muitas formas com a música. De tal forma isso se sente, que no final os participantes querem dançar mais ao som desta “brincadeira”.  Mesmo nesse quase final chegam duas Andantes“Anda, mesmo que não saibas apanhas depressa”, diz uma delas. A energia do meio-dia do Andanças contagia-a e quer partilhá-lo com a amiga que parece não saber de cor todos os passos. Acabam por ir as duas para o centro da pista.

Narração para crianças que faz rir adultos

Na sombra alentejana, às 15h da tarde, descansam dois festivaleiros que vigiam os filhos. “Esta é uma hora morta, vim aqui distraí-los com os desenhos,” diz um deles. De facto, são muitas as crianças que circulam no Andanças. Passam de um lado para o outros com os pais ou com amigos que já conhecem ou conheceram lá. As 3000 crianças de 2014 fizeram que a organização considerasse o número crescente desta faixa etária e melhorasse o espaço para elas. Entre as folhas brancas prestes a ser coloridas e as brincadeiras com os voluntários, vão-se preparando para assistir a Contos, o espetáculo dos Contabandistas.

“Vocês são professores?”, pergunta uma criança mais curiosa. Os risos já começam antes do início do espetáculo. Cláudia Fonseca, Sofia Maul e António Gouveia são os três contadores vindos de Oeiras e repetentes no Andanças. Sofia diz que já perdeu a conta às vezes que veio ao festival, só sabe que a primeira ainda foi em São Pedro do Sul.

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Entre a história de terror de um homem que gostava de dançar e um formiga que foi à lua, as estórias dos três contadores, que se conheceram numa formação do projeto Ida e Volta em 2004, foram também para os pais. Aliás, a interação nunca se ficou pelos mais novos. “Quando não perceberem alguma coisa perguntem aos pais,” disse muitas vezes Cláudia. Relativamente a essa diferença de contar estórias para idades diferentes, Sofia explica-nos que a noção das histórias serem só para crianças foi apenas criada há dois séculos, antes eram para toda a gente.

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“Trazemos as histórias no bolso para levar para outros sítios”, diz Sofia com um sorriso na face. Quer seja em bares, praças, grutas, bibliotecas ou comboios, os três contadores tentam levar imagens muitas vezes sem todas as cores para quem oiça as pinte também. Foi isso que fizeram naqueles 45 minutos no Andanças. Sobretudo quando o final era suportado pela sustentabilidade ou a amizade.

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Uma paragem no Minho e Açores porque as danças portuguesas voltaram

São do norte do país e trouxeram ao Andanças o chula do Minho e a chamarrita dos Açores. Diana Azevedo (ensino), Emiliana Silva (violino e rabeca chuleira), Sérgio Cardoso (clarinete e flautas), Dulce Cruz (acordeão) e Miguel Moreira (percussões) formam o recente grupo do Porto, Bailómondo. “O que nos levou a unir-nos foi a cultura do Douro, nomeadamente a cultura à volta da chula do Douro e da rabeca chuleira,” revela Diana Azevedo, a instrutora da oficina.

Ao som do acordeão faz-se o aquecimento para a seguir se dançar a contradança de Baião. Para isso formam-se quatro rodas todas com pares. E lá a saltitar até encontrar o par. Para Diana, o objetivo destas oficinas é que as pessoas saibam dançar minimamente no baile da noite. Para isso, a coreografia tem de ser simples, até porque há muitos participantes que não vão às aulas e depois participam nos bailes. Com raiz minhotas da parte do pai e açorianas da parte da mãe, desde sempre se lembra de dançar. “Costumava ir aos arraiais minhotos e no Açores a minha avó nos natais dançava comigo a chamarrita,” conta. Há oito anos as danças populares tornaram-se mais uma parte da sua vida e começou a investigar de forma mais aprofundada a chula.

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A rabeca chuleira já está afinada e formam-se colunas com vários pares para se dançar o chula. Por entre essas colunas passam sempre um par sempre com ar “exibicionista”, mas com a diversão de quem está a aprender. O Douro chegou ao Andanças.

A novidade deste ano foi para a chamarrita dos Açores.  Diana tornou este dança um pouco mais acessível para que pudesse ser facilmente ensinada. “Espero que nenhum açoriano me leva mal por ter simplificado tanto a dança,”  brinca. Da mesma forma que se faz o baile mandado, Diana comanda a dança que simboliza a ligação dos açorianos ao mar. Pede para que os participantes sintam a rebentação do mar e que as mulheres sintam a anca, como se fossem ondas.

As danças portuguesas estão de boa saúde e recomendam-se. Prova disso, é que nos últimos anos se tem notado um aumento do interesse nas danças nacionais de caráter tradicional. “Há uns anos, existia talvez  um estigma em relação às danças portuguesas que já não existe hoje em dia. Várias professores em Portugal andaram a inovar as danças portuguesas e utilizá-las de forma mais airosa.” Com isto, acrescenta que o passo base é sempre o tradicional: “se é uma dança mandada posso manter os mandos originais, mas depois a partir daí há sempre grandes adaptações para que qualquer pessoa as consiga dançar e que principalmente se divirta a dançá-las”. 

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