Basta ver televisão com o cérebro minimamente desperto para perceber que os canais deitam para o lixo grande parte do serviço público que podiam fazer. Entre muitas outras questões menores, é chocante o branqueamento da violência doméstica nas principais novelas da SIC e da TVI. Nunca repararam?

Ponto prévio: este artigo é sobre violência contra as mulheres (e contra os telespectadores, vá). Nos últimos anos, são de inquestionável importância as campanhas, mais e menos impressionantes, contra a violência doméstica e, apesar de alguma timidez, também não nos podem ser indiferentes os avanços legislativos que tentam reforçar a protecção das vítimas.

A eficácia das estatísticas, slogans, publicidade institucional e painéis é, contudo, ínfima quando comparada ao impacto das telenovelas, cujo público principal pertence, precisamente, à camada etária mais afetada por este crime (embora, infelizmente, quer a violência doméstica, quer o consumo de novelas, sejam transversais). Telenovelas porquê? Em primeiro lugar porque, estando relaxados, absorvemos mensagens com muitíssima facilidade. Depois, porque os enredos (independentemente da sua qualidade) são verossímeis: os espectadores emocionam-se, envolvem-se no percurso das personagens, moldam expectativas em função das histórias e criam paralelismos com as suas próprias vidas, como que olhando para o espelho daquilo que poderiam ser. (Meninas, sei que já sonharam com o Ricardo Pereira André.)

Ninguém está a descobrir a pólvora quando diz que as pessoas acreditam mais nas novelas do que no jornalismo. São milhões de pessoas ligadas à corrente no horário nobre. E como é que os argumentistas aproveitam esta oportunidade privilegiada de influenciar a sociedade portuguesa? Vejamos:

Em Jardins Proibidos, Luís Gama, reputado médico, homem de família (severo mas honrado), sabe que é traído e espanca a mulher. Continuação? Divorciam-se e passado pouco tempo voltam a viver juntos, com a maior das cortesias, em nome da estabilidade familiar. Como não foi reincidente, até dá a ideia de que o senhor, coitado, só bateu na mulher daquela vez porque estava nervoso e de facto tinha motivos que o justificassem. Bingo.

Num papel a roçar o de mártir, o médico ainda é preso injustamente, acusado de crimes que o filho cometeu. E nós sentimos pena, claro, enquanto nos esquecemos daquele pormenor das agressões de há 20 episódios. Ah, também está envolvido num caso de fuga ao fisco, mas já se justificou e isso não passa de um pormenor rapidamente minimizado. 1-0 para o Doutor.

Luís Gama

Já no Mar Salgado, o tema atingiu outra preponderância, mas nem por isso foi tratado de forma mais feliz. Júlia e a filha Elsa (miúda cinco estrelas) viviam reféns de Xavier, pescador alcoólico que lhes batia compulsivamente. Entre separações e reaproximações, o massacre torna-se mais recorrente e Xavier acaba por morrer depois de uma longa fuga à polícia (que culminou numa cinematográfica tentativa de rapto com tiros e tal). Óptimo! Júlia e a filha estão prontas para começar uma vida nova, venha daí a felicidade.

O problema? Subitamente, Elsa torna-se numa adolescente problemática e a mãe, que sempre fora sua cúmplice, não tem mão nela. A vida lá em casa continua de pantanas. É, falta lá o pai – a grande referência da família -, que quando lhe batia ela era uma pessoa humilde e bem comportada. Bela mensagem de encorajamento para as mães portuguesas. É claro que vai acabar tudo bem, com certeza num revés instantâneo no último episódio, mas o percurso dá-nos uma lição muito pedagógica: é melhor comer e calar.

mar-salgado

Podemos pensar em várias explicações. Por exemplo, que quem escreve as novelas não tem a mínima noção da dimensão do problema. Ou que não tem a mínima noção da importância simbólica das histórias que cria. Ou que tem a consciência social de uma pedra.

Não há um único director, um guionista, alguém que tenha sensibilidade para reparar no quão maus são estes exemplos e travá-los?

Pensando melhor… Numa equipa de dezenas de “talentosos” profissionais não há um único director, um guionista, alguém que tenha alguma sensibilidade para reparar no quão maus são estes exemplos e travá-los? Não há ninguém que veja para lá do casal romântico protagonista, de cuja história já toda a gente conhece o início, meio e fim?

Que na história os testes de ADN continuem a ser falsificados como o eram em 2000, tudo bem, fazemo-nos de parvos, siga a trama e não nos chateamos por alguém ter parado no tempo. Agora, esta suavização da violência doméstica é tão evidente que parece propositada. Não é só a criatividade que está em falta nesta indústria.

Ninguém impõe aos canais privados, orientados para o espectáculo e para o lucro, a abordagem destes temas na sua programação. Mas já que o fazem por sua iniciativa, o mínimo exigível é que seja com alguma dignidade. Sim, é verdade que a TVI dedicou uma outra novela quase exclusivamente à emancipação feminina e que aí a história da violência doméstica faz muito mais sentido. Mas o investimento em Mulheres foi tão prioritário que, de transmissão ao final da noite, já foi relegada para o fim-de-semana, arrastando-se lentamente (e despercebida) até ao final.

Entretanto, num país distante, João Bonifácio, jornalista, fez um brilhante trabalho sobre o tema, com a Crónica de um crime anunciado e mais tarde o livro Daqui não sais viva. Mas ler é muito mais trabalhoso do que ver novelas. Pode ser que comece a ser lido pelo menos por quem as escreve.

Para além de prestar um mau serviço à sociedade, o entretenimento que descarta o seu papel transformador perde também uma excelente oportunidade de perdurar na memória colectiva. É só mais uma novela e depois mudamos de canal. Se calhar até é melhor mudar já.