Bruno Vieira Amaral, autor de três livros, despreza fontes de inspiração e afirma que a chave é prestar atenção ao que o rodeia, desperta, entusiasma ou atormenta.

Nunca ignora as suas curiosidades – examina-as, disserta-as, constantemente aprendendo e ensinando. Afirma que é diferente e sabe que nunca vai conseguir agradar a todos. Divide-se entre a família e os amigos (a quem dedica os seus livros), o trabalho, os blogues que assina – ou para os quais contribui – e o engenho e imaginação que o compelem a escrever sempre mais.

Considera-se alguém difícil de descrever, até por ele mesmo. Nasceu em 1978, no Bairro do Vale da Amoreira, na Moita. Aí, frequentou o segundo e terceiro ciclo. Era uma presença assídua na biblioteca, desde que esta abriu no município. Lá, leu alguns dos livros que mais o marcaram. “Li, entre outros, Cem Anos de Solidão, O Nome da Rosa, A Peste, O Estrangeiro”. Gabriel García Márquez, Umberto Eco, Albert Camus, mas não só. Não se abstém de dizer que, no início, também leu muitos livros de banda desenhada. “Lembro-me de ler os livros da Mafalda, do Lucky Luke”. Também lia lá os jornais, que, com doze anos, não tinha possibilidade de comprar.

Licenciou-se em História Moderna e Contemporânea no ISCTE. A sua incursão audaciosa no mundo literário chegou, em 2002, na Mostra Nacional de Jovens Criadores. Foi a poesia, género que não encaramos, hoje, como o seu eleito, que lhe valeu esta nomeação. Chegou a colaborar para o DN Jovem, para a revista Atlântico e para jornal i. Atualmente, é assessor de comunicação das editoras do Grupo Bertrand Círculo e editor-adjunto da revista LER. Reside na Baixa da Serra, na Margem Sul, mas o Vale da Amoreira, o bairro problemático do distrito de Setúbal que o viu nascer, continua a ser um local que gosta de visitar – é sempre, para si, “um regresso que tem muito significado”.

As Primeiras Coisas, o seu primeiro romance, foi eleito livro do ano de 2013 pela revista Time Out. O mesmo romance valeu-lhe, ainda, um Prémio PEN (poesia, ensaio e narrativa), na categoria de Narrativa (em dezembro do ano passado) e o Prémio Fernando Namora (em novembro do mesmo ano). O livro nasceu um pouco do confronto entre o que o bairro era na sua infância e adolescência, quando lá vivia, e o que é agora. Esse confronto não se cinge ao ponto de vista social, mas também (e particularmente) às questões pessoais e mais subjetivas do autor. Afinal, foi lá que teve as suas primeiras alegrias e “frustrações”, é de lá que são as suas memórias, daquele espaço geográfico específico. “Se é verdade que o Bairro se transformou ao longo destes anos, eu também me transformei, e o meu olhar sobre o Bairro também se transformou”.

O autor refere que, para este seu primeiro romance, a ideia original surgiu de observar pessoas e questionar como seria viver as suas vidas. “Comecei por escrever esboços de situações e de personagens, umas inspiradas em pessoas que conheço, outras inventadas, outras ainda roubadas às notícias dos jornais, e o Bairro Amélia foi crescendo e acho que, pela estrutura do livro, poderia continuar a crescer”, refere. Há quem encontre na história traços autobiográficos. O narrador regressa a casa da mãe, no seu bairro de infância, para reencontrar velhos amigos, conhecidos e vizinhos. Na realidade, esta casa situa-se do outro lado do Tejo, (no ficcional Bairro Amélia, pobre e estagnado) onde também se encontra o Vale da Amoreira, onde nasceu e cresceu. Imediatamente desde aí, e também pela escrita intimista e profunda, é bastante intuitivo dizer que há algo do autor neste livro.

“Se é verdade que o Bairro se transformou ao longo destes anos, eu também me transformei, e o meu olhar sobre o Bairro também se transformou”.

Bruno Vieira Amaral serve-se desta facilidade de encontrar traços autobiográficos no romance como “um recurso literário, um truque sujo”, um método (como existirão outros) de “aproximar o leitor do autor”. Sabe que a graça está em imaginar enquanto se lê, e é precisamente isso que procura – levar o leitor a questionar-se sobre quem está ali, se será “mesmo o Bruno”. Gosta, assim, de deixar o público na incerteza – considera-a, aliás, um meio para chegar ao que quer. Acaba por constatar que há algo de pessoal em quase todas as obras, até nas de ficção científica. Afinal, os autores terão de se basear em algo concreto “para compor personagens e ilustrar situações”. Reconhece que usou elementos que lhe são familiares para conceder verosimilhança àqueles que provinham pura e simplesmente da sua imaginação. Chegou a imaginar corpos para algumas personagens, aquelas que o aspeto físico importava mais para o narrar da sua história.

No entanto, e apesar de todas estas questões acerca da presença ou não de traços pessoais, a experiência que tem dos leitores fá-lo descobrir que são raros aqueles que se interessam pela veracidade dos factos presentes no livro. Só os mais curiosos, “uma minoria”, se questionam e se preocupam em perceber se Bruno Vieira Amaral voltou a casa da mãe, ao bairro, e viveu, de facto, o regresso aos velhos lugares, situações e pessoas.

A estrutura do livro pode ser considerada atípica. Ao início, o autor tentou escrever o romance de modo convencional, mas, ao fim de trinta ou quarenta páginas, desistiu porque “parecia tudo artificial”. Existem diversos capítulos, cada um com o nome de um habitante do Bairro Amélia. Entre eles, a virginal Vera, desaparecida de casa dos pais a dois meses de completar dezasseis anos, o anjo exterminador Roberto, a medrosa Hortênsia e Ernesto, o empregado de mesa. A estrutura tradicional roubava o encanto, a “magia”, às personagens. O editor, Francisco José Viegas, aconselhou-o a escrever tal como estava a pensar – histórias autónomas, mas entrosadas. Aos poucos, foi ousando e experimentando diferentes modos de organizar a sua escrita. Acabou por descobrir a melhor maneira de conservar a estrutura de cada história, mantendo-as, simultaneamente, encadeadas. Recebeu bastantes críticas menos positivas – leitores que gostavam das histórias mas que não lhes agradava, de todo, a estrutura. Sabia que era inevitável ser alvo de julgamento, que não podia agradar totalmente a um público tão heterogéneo e diversificado. “Eu é que sou o autor. Não vai dar, eu tentei”, lamenta.

A primeira pessoa a quem mostrou o livro – ainda inacabado – foi José Rentes de Carvalho, seu amigo e também escritor. Este deu-lhe uma opinião mais literária do que pessoal e advertiu-o a não se expor demasiado, porque a dada altura isso podia fugir-lhe do controlo. No final, com o livro publicado, o autor e professor transmontano disse, sobre este, que o achou “surpreendente, de rara e comovente beleza.”. Pedro Mexia, do Expresso, também teceu comentários bastante favoráveis a este romance de estreia. “Amaral não dá um passo em falso durante trezentas páginas, o pathos é sentido, a prosa é imaculada sem ser exibicionista, a verdade magoa”.

O entrevistado partilha que começou a escrever este romance no seu blogue, colocando-o num local onde sabia que este se tornaria extremamente vulnerável a opiniões de terceiros, e que foi aí que se apercebeu de que, se antes um livro só estava acessível ao público e às críticas quando alguma editora o publicava, o paradigma hoje é bem diferente.

Apesar de na altura já ter As Primeiras Coisas finalizado, o primeiro livro da sua autoria que autografou e que viu nas livrarias foi o Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa. Para além de reconhecer que este é um livro bastante mais fácil de publicar, confidencia, ainda, que não fazia muita questão que a sua primeira obra fosse um romance. Não pretendia que o rótulo de romancista lhe pesasse logo desse modo, havia uma “série de formalidades” inerentes a este género literário que não queria que lhe fossem impostas imediatamente desde a sua estreia.

Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa é uma viagem pelas peculiaridades e peripécias de cinquenta figuras de livros que nos são bastante familiares, criadas pela fantasia de autores como Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Almeida Garrett e até alguns mais contemporâneos, como Lídia Jorge e Dulce Maria Cardoso. O autor não cai em categorizações teóricas nem demasiado formais. Faz, sim, uso da sua capacidade de síntese para que estas descrições sejam como pistas que abram no leitor o apetite para descobrir as personagens, e não um dicionário catalogado das mesmas (até porque não está organizado por ordem alfabética, mas por critérios sociais e comportamentais muito mais complexos).

As personagens são escolhidas a dedo pelo autor, sem mais critérios para além de “questões de preferência pessoal, que foram soberanas”. São, também, uma forma de percorrer a história portuguesa, através da época em que viveram (elas ou os seus autores). Assim, este livro agrega “personagens que ficaram, que partiram, que retornaram; pobres e privilegiados; gente do campo que vem para a cidade, gente que foge da cidade para o campo; personagens que se perdem nas grandes urbes e personagens que aí se redescobrem; homens que se matam por amor e mulheres que casam por interesse; gente que corre o mundo e gente que não sai do mesmo lugar”. Entre elas, encontramos Blimunda, do Memorial do Convento; Juliana, d’ O Primo Basílio e João da Ega, d’ Os Maias.

Quando questionado acerca de ter ou não alguém em específico que o inspire, diz que “Não. A minha fonte de inspiração é estar atento”. Começou a escrever quando ainda não sabia ler. Parece paradoxal, mas jura que é verdade. Desenhava as letras, fazia cópias – embora não entendesse o que lá estava escrito. “Ainda não sabia escrever e copiava o título dos livros e da Bíblia para uma folha de papel de carta”, recorda.

Admite que nem sempre estamos “conscientes das nossas maiores influências”. Reconhece algumas, no entanto, pelo menos a nível das suas obras literárias. “Diria que, no caso do romance, As Primeiras Coisas, houve três livros que me ajudaram a avançar na escrita: A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues, O Que Diz Molero, de Dinis Machado, e As Pequenas Memórias, de José Saramago. Um texto que também foi fundamental para perceber o que era aquele livro é do escritor José Rentes de Carvalho e chama-se Procissão”, explica.

Não evoca o ego quando questionado se acha que o seu estilo de escrita difere da maioria em alguma caraterística especial. Prefere assumir-se como alguém atento e preocupado, tanto com a coesão e coerência do discurso como com a sua estética. “Procuro apenas encontrar as palavras certas – no significado, no som e para o ritmo do texto”, afirma.

O seu livro mais recente, Aleluia!, é sobre a fé coletiva e a religião evangélica. Mais uma vez, começou a escrevê-lo “por questões de natureza pessoal”. Foi a sua curiosidade e “grande interesse pela génese dos movimentos religiosos” que o levaram a debruçar-se sobre este tema. O resto veio por acréscimo. Dedicou o livro ao seu amigo, João Leal, após ter dedicado o primeiro aos seus avós e o segundo à sua mulher e filhos.

Já foi entrevistado inúmeras vezes e sente que não há nada que fique por dizer. Em tom irónico, afirma que, se já lhe custa pensar nas respostas, não teria o atrevimento de pensar também nas perguntas. Tem por hábito contribuir para alguns blogues coletivos, mas há um que assina sozinho – Circo de Lama. Lá, encontramos crónicas, pequenos contos, histórias caricatas ou pensamentos soltos do autor.

Os projetos para o futuro, pergunta “da praxe”, passam, claro está, pela escrita – mas largar o trabalho não é, de todo, uma opção a considerar. “É difícil, não só em Portugal, mas particularmente em Portugal, viver da escrita”. Sabe que o público tem sempre alguma desconfiança face ao que é novo e ao que é diferente. “Muitos leitores esperam para ler, não cedem à primeira investida”. Não só pensa em continuar a escrever, como já se encontra a trabalhar no próximo livro. “Estou a escrever um romance, que espero ter concluído até ao final do ano. É baseado numa história real. Um homicídio de um primo meu, aqui nesta zona [Vale da Amoreira]. Aconteceu há cerca de 30 anos, em 1985”, confidencia.