A partir de hoje, a Barragem de Póvoa e Meadas, em Castelo de Vide, começa a receber os Andantes, ou seja, todas as pessoas que participam no Andanças – Festival internacional de danças populares. Este é um ano especial. Comemora-se 20 Andanças. O festival iniciado em 1996 já habitou em vários locais e tem levado com ele um número crescente de participantes. Este é um festival para quem quer atuar e não se conforma apenas em ver. O Espalha-Factos falou com a Ana Martins, a coordenadora do Andanças, que vai decorrer de 3 a 9 de agosto. 

Em 1996, Portugal recebia a 1.ª edição de um festival que promove a dança e a música popular. “Isto começou basicamente com um grupo de pessoas inspiradas em muitos movimentos que trabalhavam as tradições e as suas raízes tradicionais que passavam por toda a Europa,” conta-nos Ana Martins. O Andanças só se passou a chamar assim em 1997, na sua 2.ª edição. A primeira edição de todas foi feita entre portas, no Teatro Garcia de Resende, em Évora. O sucesso ditou que se procurasse um novo sítio.

“estamos a fazer 20 anos e creio que há uma história e espero que a história se mantenha”

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Foi nesse segundo local que Ana Martins se estreou, na Serra da Gralheira. Nessa altura, o Andanças foi feito em outubro e o bom tempo foi uma surpresa para todos os participantes. “Nesses três dias estava um tempo fabuloso e foi completamente mágico. Essa magia ainda está na memória de toda a gente que foi a esse primeiro Andanças. (…) Eu acho que o Andanças se fez a partir desses dias.”

A partir daí, o Andanças começou a fazer-se em agosto e foi para São Pedro do Sul durante quinze anos. “(…) quase em cada ano que duplicava a quantidade de pessoas do ano anterior. Portanto, conseguimos o sucesso muito rapidamente. Bom, estamos a fazer 20 anos e creio que há uma história e espero que a história se mantenha”, revela a coordenadora sobre o crescimento do festival.

“Há quatro grandes pilares que sustentam o próprio festival”

Os 20 Andanças, organizado pela estrutura PédeXumbo, fazem-se em Castelo de Vide. “Este festival surgiu sem ser algo em que se tenha desenhado um conceito, que se tenha pensado em atingir este ou aquele objetivo”, afirma Ana. Com o tempo, foi-se inevitavelmente construindo um conceito. “Há quatro grandes pilares que sustentam o próprio festival”: a música e a dança, o voluntariado, a sustentabilidade e a comunidade.

Tendo em conta esses quatro pilares, o Andanças coloca ao dispor dos seus participantes mais de meia centena de estilos de dança, o mais possível adaptados à contemporaneidade. Depois há centenas de voluntários no festival, como forma de se desmarcar do poder político, comercial e financeiro. “Não que tenhamos algo contra as marcas, mas é uma poluição visual e psicológica que não queremos incluir no festival.”

Em 2005, começa também a existir uma preocupação mais ambiental, em 2006 implementam-se medidas ambientais e mais tarde o EcoAndanças. Mas de acordo com Ana Martins, depressa se percebeu que a sustentabilidade era algo transversal a todo o festival e não fazia sentido criar algo paralelo.

Nos dias em que o Andanças vive, cria-se também uma comunidade, como se fosse uma “aldeia temporária”. Nesses dias de festival, os participantes assumem a carta de compromisso proposta pelo festival, com um conjunto de práticas. “Sentem [participantes] a horizontalidade. Sentem o trabalho que se procura fazer com a comunidade e estamos todos juntos, tudo isso é muito bom. E o sucesso do festival tem um pouco a ver com isso,” diz-nos a coordenadora.

Ana Martins dá um exemplo: “A maioria das coisas que se consomem no festival são de produção local, sendo que muitas coisas têm de ser compradas fora, mas quase tudo é produção local.” Outro dos exemplos é o incentivo à utilização de transportes públicos. “Colocámos soluções para transportar as pessoas da estação mais próxima,” afirma. Sendo que o bilhete é mais barato.

“Todos os anos há cerca de 40% das pessoas que vêm ver o que se passa, depois repetem dois, três, quatro anos”

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Nesta edição, onde comemoração é palavra de ordem, há novos espaços programados e um maior enfoque nos mais novos, pois só na edição de 2014 receberam 3000 crianças. Depois, há as atividades programadas por dia, concertos e bailes, que para muitos são sempre uma descoberta. “Todos os anos há cerca de 40% das pessoas que vêm ver o que se passa, depois repetem dois, três, quatro anos,” revela a coordenadora.

Em toda a diversidade, Ana Martins garante que é possível que cada um descubra um Andanças diferente. “Ninguém consegue fazer tudo. De forma que cada um pode fazer um Andanças completamente diferente. Pode-se fazer um Andanças de mil formas diferentes.” 

Ana Martins afirma ainda que um dos maiores motivos de sucesso do festival é a presença de interação entre os participantes.  “Aqui as pessoas não vêm para assistir a coisas, vêm para participar. E isso faz mesmo toda a diferença.” Entre as novidades e o que permanece, Ana Martins tem uma certeza: “De facto, é um grande ano de festa.”