Se, na primeira noite do SBSR 2015, saímos com a impressão de que Sting estava em excelente forma, ontem verificamos que os dEUS e os Blur também estão aí para as curvas. E vem-nos à memória uma frase batida: se a vida são dois dias e um festival são três, pode a vida ser um festival?

O segundo dia do Super Bock Super Rock trazia música para gostos diversificados mas as atenções estavam, desta vez, mais focadas no palco principal, situado no MEO Arena. Os juvenis The Drums, os experientes Jorge Palma e Sérgio Godinho, os saudosos dEUS e os inqualificáveis Blur eram alguns dos nomes mais fortes do cartaz.

Super Bock Super Rock 2015

Mas o fim de tarde começou no Palco EDP onde duas repetições do Vodafone Mexefest voltaram a fazer as delícias do público português. Primeiro Sinkane, com o seu chapéu de aba larga e os temas funk e dançáveis, agradou aos festivaleiros que se ia juntando ao pôr-do-sol debaixo da pala do Pavilhão de Portugal. Depois, Kindness, elegantemente vestido de azul e com um palco cheio de bons músicos, deleitou a audiência com o groove indie das músicas mas também da sua postura: desceu do palco para as grades, cantou com fãs, tirou selfies enquanto atuava. Os sorrisos eram abertos e para os muitos que ouvimos, estava ganho o festival.

_MG_3624


_MG_3477

Mas antes, e numa toada completamente distinta, já muitos tinham ficado com o coração completamente cheio com a melancolia de Benjamin Clementine, dos poucos nomes que se estreia em Portugal nesta edição do SBSR mas que, garantidamente não tardará em voltar. Acompanhado em palco por mais três músicos, o pianista inglês, que deu nas vistas a cantar nas ruas de Paris, fez arrepiar muitos pelos com o poderoso vozeirão que tem e uma postura em palco que, de alguma forma, transmite o desconforto da rua. Pés descalços, um olhar tímido mas frontal e desconfiado, uma postura sempre ereta no banco em que mal se senta para tocar o seu piano e letras que nos dilaceram totalmente. O homem de At Least For Now, foi uma das apostas mais certeiras do festival. Que volte depressa.

Quando entrámos então no MEO Arena, os The Drums dançavam com o público mais juvenil que se concentrou na frente de palco. Mas o espaço mais despido devolve o som ainda com pior qualidade e a sensação com que ficámos foi que a fórmula algo repetitiva da banda de Best Friend não traz muito de novo.

_MG_3769

Regresso ao passado

Para algo completamente diferente, seguiu-se um momento único do festival que juntou Sérgio Godinho com Jorge Palma a cantarem e tocarem temas conjuntamente. Arrepios imensos, coros ensaiados e letras cheias de sentido encheram o MEO Arena (apesar de meio despido…) com Dá-me Lume, Frágil, Na Terra dos Sonhos e Os Conquistadores, O Primeiro Dia e Liberdade.

Acompanhados de uma banda fabulosa em palco, os dois grandes cantautores portugueses proporcionaram um momento inesquecível aos presentes e com as suas letras acutilantes lembraram-nos de que a vida é para ser vivida.

Jorge Palma, Sérgio Godinho, Super Bock Super Rock

Tom Barman, frontman dos belgas dEUS entra em palco e sublinha em português “Olá, Lisboa, há quanto tempo!”. É verdade, uma das bandas mais acarinhadas pelo público português tem passado por outros festivais em terras lusas, mas já não tocava em Lisboa, onde deu um primeiro e memorável concerto na Aula Magna, em 1996, há algum tempo.

A entrada “a pés juntos” fez-se com Via e já os anos noventa passavam em frente dos olhos de muita gente. Atrás de nós, conversava-se sobre quantas vezes já os vimos, e onde, e quão bom é sempre revê-los e como eles estão tão em forma. The Architecte (de Vantage Point), Quatre Mains (de Following Sea), de discos de fins dos anos 2000 foram bons momentos mas as viagens aos velhinhos Instant Street, Little Arithmetics, Hotellounge (Be the Death of Me) e a terminar Suds&Soda proporcionaram viagens no tempo com pouco desejo de regresso. A sorte é que o bilhete de ida para os anos noventa ainda dava direito a mais uma banda.

dEUS

Quando os Blur se despedem do público do MEO Arena (de plateia e primeiro balcão compostos, mas com segundo balcão vazio) há uma vibração absolutamente incrível. Eles, o quarteto londrino mais o coro e quarteto de metais que os acompanha e o público do SBSR estão em absoluta comunhão. O tempo não passou, os desaguisados entre Albarn e Coxon não aconteceram e a banda nunca mergulhou naqueles anos de ausência dolorosa para quem desde fim dos anos oitenta os acompanha.

Blur, Super Bock Super Rock

Foi uma banda feliz por estar a tocar quer os temas mais antigos que puseram o MEO Arena aos gritos e aos pulos e uma banda satisfeita também com as música do novo The Magic Whip. O concerto fez-se, por isso, equilibrado entre as canções do disco deste ano (com Go Out, logo a abrir, Lonesome Street, Thought I Was a Spaceman, I Broadcast e Ong Ong) e os restantes discos da carreira dos Blur que começaram a editar em 1991 (com Leisure).

Os clássicos Coffee & TV, Beetlebum, End of a Century ou Parklife, com um fã português em palco a cantar com a banda foram entoados em uníssono e suados, muito suados.

Blur, Super Bock Super Rock

Damon Albarn, enérgico, incitador do público, com os seus gritos e saltos e borrifadelas de água para o público e os colegas de palco, parecia no auge dos anos noventa e a nostalgia bateu em canções doces como Trimm Trab, Tender,  To The End ou Universal, já no fim.

A vida devia ser assim, um festival de emoções, memórias, suor e muitas lágrimas, e um sorriso rasgado no final.