O 32.º Festival de Almada traz-nos uma peça que viaja às profundezas de uma tragédia. O texto do dramaturgo escocês David Greig é levado a cena por António Simão, no Teatro da Politécnica. O Espalha-Factos já viu e desvenda-te agora os mistérios de Os Acontecimentos.

Os acontecimentos mudaram Claire (Andreia Bento). Outrora alegre e tranquila, a líder de coro já não é a mesma pessoa. Agora está obcecada. Não vê mais nada à frente a não ser aquele homem e a imensa necessidade de perceber o que lhe aconteceu. O problema é que ela não o odeia. Para o conseguir odiar, precisava de conseguir compreendê-lo e ela não o compreende. Ele é um mistério assombroso que ela tem de seguir até à génese da sua existência.

Não, isto não é o mote para a história de uma grande paixão num qualquer romance best-seller. Trata-se de uma peça de teatro baseada na tragédia do massacre de julho de 2011, em que Anders Breivik matou cerca de 77 pessoas, num acampamento de jovens, na Noruega. São os Artistas Unidos que a trazem a cena, pelo texto do escocês David Greig, no âmbito do 32.º Festival de Almada.

Claire é a responsável por um coro integrativo, formado por cidadãos representativos de minorias étnicas. O homem por quem está obcecada é o atirador que invadiu um dos ensaios do seu coro e assassinou grande parte dos membros. Claire sobreviveu, mas acredita que desde esse dia perdeu a sua alma, que deseja desesperadamente reaver. Diz que não quer compreender o que lhe aconteceu, porque isso ela sabe muito bem o que foi, estava lá. Quer compreender o que lhe aconteceu a ele, ao assassino. Perceber porque fez o que fez. Está convencida que se resume a uma de duas hipóteses: ou é má pessoa ou é louco. E se for louco, então a culpa não é dele. Mas de quem é, então?

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Claire começa uma investigação intensiva à pessoa e ao passado do atirador. Entrevista todos aqueles que lhe eram próximos ou que, de uma forma ou outra, estavam direta e indiretamente ligados a ele: o seu pai, um alcoólico convencido que o filho é homossexual, dado o seu interesse por corpos musculados, exercício físico e militarismo; um amigo de infância, que diz que apenas se davam porque ambos eram vítimas de bullying e que a relação entre os dois estava muito longe de ser íntima; o líder do partido a que estava filiado, que rejeita qualquer associação ao atirador, apesar de, manifestamente, partilharem valores, crenças e ideais e, por fim, até o próprio atirador, que Claire visita à prisão.

A figura do assassino, interpretado por João Pedro Mamede, o jovem ator que tem efetuado um percurso de ascensão desde que se formou na Escola Superior de Teatro e Cinema, há 2 anos, é questionada e examinada sob todos os aspetos.

Filho de um pai alcoólico e de uma mãe que se suicidou quando ainda era muito novo, não teve uma infância fácil. Mas também não a teve assim tão difícil. Não justifica o que fez. Não é maluco, não quer ser dado como maluco. Tem noção das suas escolhas, assume ponderadamente a sua visão do mundo. Aparentava ser uma “pessoa normal”. Não é homossexual; não é virgem; não detesta estrangeiros – detesta é que os estrangeiros vão para o país dele.

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O atirador enquadrava-se no padrão corrente, aceite na sociedade. Talvez demais. É o produto de uma sociedade desenvolvida que o protegeu e esvaziou de sentido para a vida. A sua canção preferida é Lonely Boy, dos The Black Keys – música que ouvimos o coro entoar durante a peça, que a resume e lhe traz dinâmica e intimidade.

Embebido na ideia de que a civilização e o desenvolvimento da mesma vieram corromper a pureza do mundo – invocando a imagem de um pequeno índio nativo, na América pré-colonial, que vê as navegações europeias chegarem, sem ter ideia da destruição que delas advirá – quer expurgar e limpar o mal da humanidade. Invariavelmente, é um sujeito que simpatiza com ideologias de direita e racistas, porém, só as assume depois de ter todo o massacre planeado.

Em Os Acontecimentos, embarcamos numa viagem intermitente entre a mente de Claire e a mente do assassino. Acompanhamos a obsessão de Claire por deslindar todos os pormenores da existência do homem do massacre, de tal modo que não consegue ver mais nada à frente, o que começa a afetar drasticamente a sua vida pessoal e profissional, acabando por perder uma relação amorosa e, em última instância, o coro. Quando, por fim, visita o assassino na prisão, é agora a sua vez de fazer uma escolha e decidir o que fala mais alto: o rancor ou o perdão?

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Os Acontecimentos é uma peça que se torna complexa pela intensidade psicológica que aplica, mas que consegue agarrar cada vez mais e mais o público à medida que a trama avança. O desempenho dos dois atores principais, João Pedro Mamede e Andreia Bento, é irrepreensível, assim como a encenação de António Simão. Como já foi referido, a inclusão do coro traz uma dinâmica especial ao texto de Greig e todos os elementos técnicos são adequados e trazem credibilidade ao espetáculo, tal como os Artistas Unidos sempre nos habituam.

O “mau da fita” enquanto pessoa comum, com gostos e passatempos como os de qualquer pessoa, mas alguém muito isolado e vazio, profundamente sozinho no mundo. É este o retrato que fica do homem que Claire tanto procurou. Paira no ar a sensação de que tudo teria sido muito diferente se o medo e o preconceito tivessem dado lugar ao afeto e à aceitação. Aquela coisa de que tanto se fala mas não se vê em lado nenhum. O amor, não é?           

“Oooohhh I got a love that keeps me waiting”, ouve-se ecoar.

Fotografias de Silvana Torrinha