No dia em que o Super Bock Super Rock voltou à cidade de Lisboa, destacaram-se os sons urbanos de Little Dragon ou SBTRKT mas o rei da noite foi o cabeça de cartaz Sting.

Com os seus 20 anos de história, que podem até ser revisitados na exposição de fotografia patente no Pavilhão de Portugal, uma das novas “casas” do renovado SBSR, o festival organizado pela Música no Coração continua sem uma definição certa, o que não é forçosamente mau.

Depois de ter passado já por vários espaços de Lisboa e arredores, mas também por outras cidades do país, a 21.ª edição ficou-se por um lugar que tinha tudo para dar certo. E deu. Na zona do Parque das Nações, com excelentes acessos, boas condições de circulação (adeus, pó) e o cenário perfeito do rio Tejo, a primeira noite deu para perceber que a escolha foi bem sucedida.

A circulação entre palcos – EDP na pala do Pavilhão de Portugal, Antena 3, em frente ao MEO Arena, Super Bock, na própria Meo Arena e Heineken, na Sala Tejo – fez-se sem dificuldades por entre suficientes serviços de comida, tabaco, promotoras de diversas marcas e afins. Os 18 mil presentes, segundo números da SIC Notícias, tiveram apenas dificuldades em trocar os bilhetes pelas pulseiras de três dias, fator que demorou a ser resolvido.

Outro senão foi a qualidade de som dos palcos e isso sentiu-se logo quando a trupe dos King Gizzard and the Lizard Wizard começou a trip psicadélica no palco EDP. Ainda o sol se punha, contribuindo também para a viagem alucinogénica e a rapaziada australiana desfiava guitarradas para uma concentrada tribo que na frente do palco viajava ao som de temas como Cellophane ou I’m In You Mind Fuzz mas também canções do novo disco a editar brevemente. Uma boa oportunidade para revisitar a banda que tinha estado na última edição do Vodafone Mexefest, onde tocou na Garagem da EPAL com uma qualidade de som duvidosa, aspeto que, a espaços, também se verificou ontem.

Quem também regressou do Vodafone Mexefest para o palco EDP e enfrentou igualmente problemas de som foi Mike Hadreas, que com o seu projeto Perfume Genius, confortou os fãs das primeiras filas vindo abraçá-los enquanto lhes tentava dar voz ao microfone. Sem nunca ter conseguido o som límpido que lhe ouvimos no cinema S. Jorge, Perfume Genius, em palco com mais três músicos, cantou e encantou com os temas dos seus três discos de estúdio mas com particular incidência em Too Bright, muito aclamado pela crítica,  no ano passado. O lirismo da sua vez e letras, a sedução frequente e as encenações da sua dança e expressão facial são tão ou mais importantes que a música do andrógino e intenso Perfume Genius. E tínhamos um regresso um acertado.

Perfume Genius, SBSR

Quem também regressou foi o coletivo sueco Little Dragon, que tocara no Meco, em 2012. Com Nabuma Rubberband editado o ano passado, o concerto fez-se valer das batidas fortes, da performance de Yukimi Nagano e de um espetáculo visual rico em cores fortes que se foi tornando mais poderoso à medida que a noite caía e que iam sendo potenciados pelos vários elementos de merchandising de marcas presentes no festival, também com muita cor e luzes pisca-pisca.

Com um público concentrado em cerca de metade do espaço da pala do Pavilhão de Portugal (a hora era de jantar e Noel Gallagher’s High Flying Birds entretanto começariam a sua atuação na Meo Arena) o momento foi de muita energia e intensidade emanada do palco e que preparou bem os presentes para o SBTRKT que se seguiu.

SBTRKT, Super Bock Super Rock

O clima continuou portanto idêntico no Palco EDP – com o mesmo público, arriscamos – que se tornou uma pista de dança ao som de “malhas” que Aaron Jerome, o homem por detrás da máscara de SBTRKT, ofereceu ao público. Temas como War Drums, New Dorp. New York ou Renegade espalharam um ambiente de boas vibes entre o dançante e animado público. As remisturas de Weird Fishes/Arpeggi dos Radiohead e o tema Wildfire na qual Little Dragon também participa.

 SBTRKT, Super Bock Super Rock

Então e o rock?

O rock apareceu na cidade pelas mãos de um novato e de um experiente homem nestas lides. Pelas 19 horas, no Palco Antena 3, Nuno Rodrigues, dos Glockenwise, acompanhado em palco por alguns parceiros da sua outra banda, mostrava o “rock punheta“, nas suas palavras, na pele de Duquesa. Canções estivais e sobre amor rural do rapaz de Barcelos, que hoje completa um quarto de século, consolaram os corações dos festivaleiros que iam chegando ao festival.

O indie rock imberbe dos The Vaccines tomou conta do MEO Arena onde muitos adolescentes (e não só) puderam ver a banda londrina a espalhar o seu English Graffitti. Trata-se de mais um regresso proporcionado pelo SBSR, que fez ressoar o espaço com temas como Handsome ou If You Wanna.

Para algo completamente diferente, e o maior chamariz da noite de ontem do SBSR, senhoras e senhores, o rejuvenescido Sting, de barbas sensuais, corpo e voz em excelente forma e grandes clássicos na ponta da língua e dos dedos. Acompanhado por uma banda competente, como não poderia deixar de ser, ofereceu um concerto impecável, mesmo para a caixa de ressonância que é o som do MEO Arena Grandes clássicos como If I ever Lose My Faith in You, English Man in New York, Message in a Bottle ou Every Breath You Take, provaram como são intemporais as músicas de Sting/The Police e que a ligação com o público português que se estabeleceu com a primeira vinda a Portugal em 1980 continua.

O SBSR prossegue hoje com um dos nomes mais aguardados do cartaz, os Blur, mas também o regresso dos dEUS e a estreia de Benjamin Clementine.

 Fotografias de Inês Delgado.