Currents é o terceiro registo em estúdio dos australianos Tame Impala, editado hoje, dia 17 de julho, com a assinatura da Interscope Records.

Passaram três anos desde o lançamento de Lonerism, trabalho que figurou na maioria dos tops da crítica internacional como um dos melhores álbuns de 2012, alimentando elevadas expectativas em torno de Currents: o mais recente disco de uma banda que soube amadurecer, contrariando habituais dores de crescimento.

O álbum inicia enérgica e veementemente com Let it Happen, tema que segue com afinco o motto “go with the flow”, estando presente uma voz interior capaz de guiar Kevin Parker a um caminho apetecível (“It’s gonna feel so good”), liberto de preocupações rotineiras, insatisfação e de todo um stress acumulado. Neste que foi o primeiro single a integrar o disco, Parker encontra-se igualmente diante de um brainstorming introspetivo e de noites mal dormidas (“I can hear an alarm / Must be morning”). Contudo, este está preparado para enfrentar qualquer adversidade capaz de lhe causar danos psicológicos manifestamente graves, ainda que receie que algo possa escapar ao seu controlo, acarretando consequências catastróficas (“If my ticker fails / Make up some other story / And if I never come back / Tell my mother I’m sorry”). A voz interior reaparece, posteriormente, contrariando a tendência para temer naturais mutações no percurso de vida e garantindo que Kevin está preparado para aquilo que der e vier. Tudo isto numa canção imersa em loops e vocais capazes de invocar os lendários Daft Punk e abalar pistas de dança (que o diga Jamie xx…).

Segue-se repetidamente a questão “Is there something wrong, man?”, em Nangs que, à semelhança de Gossip, a sexta música do álbum, dá primazia a uma atmosfera nostálgica e wavvy.

The Moment quebra a monotonia do pensar em lugar do agir, procurando fazer com que o momento seja aproveitado convenientemente, de forma a evitar sentimentos de arrependimento e sofrimento por antecipação. Neste sentido, Yes I’m Changing inicia com raiva e frustração, porém, culmina na aceitação do término de um relacionamento que não deverá mais ser prolongado, tal é a certeza da existência de um futuro florescente para ambos (“There’s a world out there and it’s calling my name /And it’s calling yours, girl it’s calling yours too”).

Parcialmente desvendando um dos temas preponderantes de Currents, Kevin recorre aos riffs e batidas simples de Eventually para ilustrar um natural embaraço causado pelo fim iminente do seu relacionamento e as dificuldades ocasionadas pela sua concretização.

The Less I Know the Better, por sua vez, é um tema cru, com um evidente destaque para as linhas de baixo harmoniosamente acompanhadas por vocais subtis e uma melodia funk. Nesta canção, rumores apoderam-se da mente de Parker, que fervilha enquanto se autointerroga e se sacia de vagas promessas de um possível retorno da relação num futuro estimado de uma década.

Já em Past Life, memórias de uma vida outrora vivenciada são invocadas e hipóteses são equacionadas com recurso a uma – vincadamente presente – voz de consciência, numa envoltura de sintetizadores, alertando para a impossibilidade de algo ser extraível a partir de uma coisa que teve o seu início e, irremediavelmente, o seu fim.

Familiarizado com relações em estado de decadência, Kevin utiliza em Disciples vocais indubitavelmente mais limpos para demonstrar que, após um longo percurso a par, da mesma forma que muitas promessas acabam por expirar, muitas palavras ficam por dizer.

Composta por um dos refrões mais catchy de Currents, Cause I’m A Man surge como um tema que contraria atos instintivos usualmente associados à fação feminina, tentando camuflar a vulnerabilidade masculina com a mera explicação de Parker ser incontrolavelmente humano.

Chega a vez de Reality in Motion, uma música de caráter introspetivo que nos remete para uma sonoridade presente em Innerspeaker e Lonerism, com um antagonismo permanente entre a recetividade e a intranquilidade perante a mudança (“It made my heart run in circles and overflow / And I was closer than ever to letting go / It made my heart run in circles in overdrive / And I was closer than ever to feeling alive”).

Na reta final do disco, com uma roupagem pop e rnb e manifestamente inconstante, Love/Paranoia revela-se como uma canção celestialmente produzida pelos australianos, que descreve sentimentos de frustração, dor e culpa. Verdadeiramente em jeito de despedida, New Person, Same Old Mistakes não foge ao psicadelismo que sempre acompanhou a banda, ainda que a eletrónica assuma um papel de maior relevo comparativamente à música rock, tal como havia acontecido no seu segundo registo em estúdio, Lonerism.

Currents dificilmente será amor à primeira audição, todavia, é um álbum sólido, arrojado quanto baste e ligeiramente mais dançável do que os seus antecessores. Ilustremente eclético, Currents agrega em si inúmeros estilos musicais numa viagem em que a indefinição, a transitoriedade e a inquietude são palavras mestras.

Nota Final: 7,5/10