Pela primeira vez em Portugal, um grupo não profissional remonta o bailado Petrushka. A obra estreada em 1911 é levada a palco pela Companhia de Bailado da Madeira (CBM), nos dias 17 e 18 de julho, no Centro de Congressos da Madeira, às 19h30.

Petrushka foi montado a 13 de junho de 1911 pela companhia russa de ballet de Diaghilev, no Teatro Chatelet. O bailado burlesco russo é constituído por quatro atos e relata a história de um boneco de palha que ganha vida e a capacidade de amar. Numa série de peripécias, o enredo acontece entre o Fantoche que ama a Boneca, mas é rejeitado devido ao Mouro.

Petrushka-1

Portugal recebe pela primeira vez este bailado, em 1970, com o Ballet Gulbenkian. A Companhia Nacional de Bailado remontou a obra numa versão do australiano John Auld. Em 2015, para comemorar o trigésimo aniversário da Escola de Bailado Carlos Fernandes, a CBM apresenta Parade, com coreografia de Marta Atayde, Fabíola Mano e Gonçalo Sousa, e Petrushka.

Este último conta com produção e figurinos de Marta Atayde e ensaios por Marta Atayde e Gonçalo Sousa. Na interpretação da personagem de Petrushka está Gonçalo Sousa, os bailarinos convidados Chermaine du Mont e Francisco Rousseau irão fazer o papel de Boneca e Mouro, respetivamente, enquanto Carlos Fernandes fará de Charlatão.

  • Entrevista a Marta Atayde

O Espalha-Factos falou com Marta Atayde (ensaiadora) para saber alguns pormenores sobre a remontagem de Petrushka na Madeira.

Espalha-Factos: Porquê a remontagem deste bailado?

Marta Atayde: O bailado já faz 104 anos e surgiu pela possibilidade de ter guarda-roupa e cenários da Companhia Nacional de Bailado, que já tinham sido do Ballet Gulbenkian, pelo menos estava esperançada que sim. E porque acho que esta produção é uma relíquia. É um bailado que não é muito dançado e as pessoas não o conhecem muito. Depois tinha uma parte teatral e os três principais são bonecos. É interessante mostrar na ilha um bailado que ninguém viu aqui passar. Depois tinha a esperança de termos guarda-roupa. Um mês depois tivemos uma resposta negativa. Mesmo assim disse: ‘São os 30 anos da Escola, são os 104 anos de Petrushka e com isto, seja o que Deus quiser. Vou para a frente com isto.’

“acho que esta produção é uma relíquia. É um bailado que não é muito dançado e as pessoas não o conhecem muito”

EF: Foi também a Marta que ajudou a fazer os figurinos?

MA: Tudo, os figurinos, os adereços, pronto, tive de me cingir a outra coisa. Muita coisa tive de adaptar e muita coisa tive de fazer de início. Adereços de novo, guarda-roupa e cenários também. É muito complicado porque não temos subsídios e não temos ajudas. São produções que exigem muita minuciosidade, é preciso bailarinos e infelizmente aqui na Madeira não temos… Temos o Gonçalo que trabalha connosco já há três anos e que se dedica muito na Escola. Mas é muito amor à profissão.

EF: É o primeiro grupo não profissional a remontar a peça no nosso país. O facto de não serem profissionais dificulta?

MA: Foi muito difícil, porque aqui não há miúdos que dancem. Não há iniciativa dos rapazinhos começarem a fazer ballet. A dança não é encarada como futuro. Por exemplo os cocheiros, eu fui buscar pessoas que de maneira nenhuma estão ligadas à dança. São pessoas que estão a ter um empenho enorme. Um é farmacêutico, outro é professor universitário, outro é cantor de ópera e trabalha na TAP. Peguei nestas pessoas da maneira mais simples, para que eles pudessem executar o papel.

EF: A Marta é ensaiadora, como bailarina já tinha trabalhado com este bailado?

MA: Sim, quando me fazem perguntas eu digo que apanhei a melhor época do Ballet Gulbenkian. Foram convidados alguns dos maiores coreógrafos, melhores mestres, porque nós tínhamos uma companhia internacional fantástica.

EF: Como em muitas produções da CBM, desta vez também têm bailarinos convidados?

MA: Todas as produções maiores que temos feito, que já fizemos várias, convidamos bailarinos de outras companhias. Desta vez vem um ex-bailarino do Ballet Gulbenkian [Francisco Rousseau] e uma bailarina da Companhia Nacional de Bailado [Chermaine du Mont], que contracenam juntamente com o Gonçalo. Ficam os três muito bem. Não podia ser melhor!

“Nós tentamos desenvolver a dança aqui na ilha, porque não estão muito vocacionados para isso”

EF: De certa forma, está a envolver a ilha na dança.

MA: Nós tentamos desenvolver a dança aqui na ilha, porque não estão muito vocacionados para isso. Não levam a sério, no sentido profissional. Cada um quer seguir a sua vida, cada um tem a sua profissão. Há uma miúda aqui que foi para Londres, mas primeiro foi para a Escola da Ópera de Paris. Não foi aceite porque era uma miúda que para a idade era um pouco baixa e têm todos de ser escolhidos a dedo, altura, idade, tudo isso. Mas em 100 aparece uma. Infelizmente.

EF: A dimensão da ilha também tem influência nisso?

MA: Claro. Quando eu pergunto: ‘Gostarias de seguir?’ Elas [alunas da Escola de Bailado Carlos Fernandes] dizem-me que sim e têm qualidades para isso. Mas eu não vejo da parte dos pais que isso pudesse acontecer.

EF: É também um problema cultural?

MA: É e é pena. Nós temos tentado desenvolver toda essa parte. A companhia não tem patrocínios absolutamente nenhuns. Obviamente que quando nós fazemos espetáculos da companhia tem de ser com os bailarinos da escola e com convidados. Mas o que nós gostaríamos é que fosse de outra maneira, porque assim é incomportável.

EF: Em relação ao bailado, vão manter toda a linha?

MA: Vamos manter a linha, com uma ou outra alteração. Vamos manter a linha coreograficamente. Não podemos fazer os cenários todos, impossível. Mesmo tudo o que nós fizemos foi com muito sacrifício. Nós tentámos o máximo possível não fugir muito ao original.

“O maior desafio está a ser levar este bailado todo a cena”

EF: Qual tem sido o maior desafio?

MA: O maior desafio está a ser levar este bailado todo a cena (risos). Foi assim uma coisa que me deu na cabeça e depois disse: ‘Agora não posso recuar’. Isto é um grande desafio, porque foi uma grande loucura da minha parte (risos). O meu sonho é sempre fazer produções e produções. Obviamente, minimamente bem apresentadas.