Vila do Conde recebeu, de 4 a 12 de julho de 2015, a 23ª edição do Curtas. Depois de uma abertura marcada pela antestreia nacional dos três volumes de As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, as sessões de competição ocuparam a maior parte da programação do festival, numa seleção bastante heterogénea por parte da organização.

A Competição Nacional abriu na segunda-feira, dia 6, com um filme que agradou ao público e surpreendeu a crítica. Amélia e Duarte, uma animação em stop motion, realizada por Alice Guimarães e Mónica Santos, resulta pela genialidade visual trazida para o grande ecrã. Uma história de amor entre duas pessoas, contada através de uma narrativa bem construída, num misto de comédia e romance. A reação dos espetadores foi clara e este foi um dos filmes mais aplaudidos ao longo da semana. Por isso mesmo, o facto de o prémio do público ter sido atribuído a este filme não é novidade, uma história que arrecadou ainda o prémio Canal +.

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Maria do Mar, de João Rosas

Maria do Mar, de João Rosas, acabou por vencer o prémio de melhor filme nacional. Bem recebida pela crítica, a história conquistou sobretudo por trazer algo de realmente novo aos espetadores, contando uma história de amor na adolescência de uma forma consistente, repleta de simbolismo. Enquanto isso, Margarida Lucas foi considerada a melhor realizadora portuguesa, com o filme Rampa, o seu primeiro trabalho cinematográfico. A aposta em planos interessantes e numa escala proporcional ao estado de espírito da personagem principal acabaram por ser os principais motivos desta distinção. Contudo, no geral, o filme acaba por não resultar particularmente bem, com uma história um tanto ou quanto incoerente e interpretações menos bem conseguidas. Numa trama que se pretende ser real, o tom forçado de alguns diálogos fez com que facilmente o espetador se perdesse.

Ainda na competição de filmes portugueses, Viagem trouxe-nos uma história forte, filmada de uma forma crua e conturbada, tal como a própria narrativa. Protagonizada por Diogo Martins e realizada por José Magro, a película impressiona pelo que consegue mostrar e transmitir sem que para isso seja necessário recorrer à palavra e, muitas vezes, vimos até aquilo que não é mostrado pela câmara. Viagem ficou fora da lista dos premiados, num dos resultados menos justos desta competição.

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Mined Soil, de Filipa César

Mined Soil assumiu-se, à partida, como um dos fortes candidatos à vitória na competição em que se inseria: a nacional. Contudo, o facto de conquistar o título de melhor filme na Competição Internacional fez com que se tornasse o grande destaque desta edição do Curtas. Filipa César traz-nos, neste documentário, um dispositivo visual diferente do habitual, que mistura o conceito de instalação com novas tecnologias e ensaio visual. Ao longo de aproximadamente 33 minutos, a realizadora é também a única interveniente no filme e faz a ponte entre a erosão do solo alentejano e a história do antigo combatente Amílcar Cabral, acabando por se refletir em temas contemporâneos. Kung Fury, de David Sandberg, foi o escolhido do público e nomeado pelo Curtas para a melhor curta-metragem europeia nos Prémios Europeus de Cinema. Esta sátira ao designado cinema trash da década de 1980 acaba por ser duplamente premiada, sem grandes surpresas.

Mas se olharmos para as nove sessões da Competição Internacional, rapidamente descobrimos outros títulos que mereciam mais, começando pela primeira sessão, composta por quatro dos mais interessantes filmes do Curtas. Bear, de Pascal Florks, vencedor do prémio de melhor documentário internacional, inaugurou esta exibição em jeito de animação biográfica. Florks fala da história de vida do seu avô que nunca se mencionava nas histórias que contava. Para mostrar esta ideia de alineação do real, o realizador substitui a figura do avô por um urso, numa animação com imagens reais esplendidamente bem conseguida. Copa do Mundo no Recife, de Kleber Mendonça Filho, é outro dos documentários que conquista o público pela dureza das imagens, contrastadas por uma narrativa assumidamente satírica.

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Mynarski Chute Mortelle, de Matthew Rankin

Mynarski Chute Mortelle arrecadou o prémio de melhor animação, uma categoria que poderia também ser ganha pelo apaixonante Ernie Biscuit de Adam Elliot ou por If I Was God de Cordell Barker, uma curta-metragem que nos traz, narrativa e visualmente, o melhor que a inocência de uma criança apaixonada nos pode dar. A Competição Internacional contou ainda com outra surpresa: a vitória de Beach Week como melhor filme de ficção. O filme de David Raboy mostrou-se bem conseguido visual e narrativamente, surpreendo os espetadores pelo ambiente gélido conseguido ao longo do desenvolvimento de trama. Contudo, histórias como Hot Nasty Teen, de Jens Assur ou Jonathan’s Chest, de Christopher Radcliffe, poderiam ser uma escolha completamente válida. Ou ainda Kiss Me Not, de Inès Loizillon, um filme que nos traz a história de amor entre dois adolescentes, filmada a preto e branco (num contraste que pretende realçar a importância do gelo na história) e em 4:3 (opção tomada pela ideia visual do olhar de uma jovem com um boné, segundo a realizadora).

Na Competição Experimental, The Dent, do egípcio Basim Magdy foi o filme escolhido como o melhor a concurso. Esta secção do festival, ficou ainda marcada pela exibição de um épico de 40 minutos, Beyond Zero: 1914-1918 e pelo original filme foundfootage Twelve Tales Told, baseado nas aberturas das produtoras de Hollywood. Já o título de melhor vídeo musical vai para Movin Up: X-Wife, de André Tentugal.  

Bétail

Bétail, de Joana de Sousa

No que toca aos novos realizadores portugueses presentes na secção Take One!, Joana de Sousa destaca-se ao vencer quatro prémios com o filme Bétail, um documentário experimental sobre a ideia de nascimento e vida de gado numa quinta. As imagens fortes, com o recurso a planos longos registados numa escala acertada, que colocam os espetadores dentro da própria cena, fazem com que a experiência de assistir a Bétail se torne uma constante surpresa e revelação. Também o filme de ficção Sala Vazia, que inova sobretudo no que respeita à realização, recebeu uma menção honrosa. Desta competição, destacam-se ainda as obras de ficção Marasmo e Andorinhas, duas histórias com um bom equilíbrio entre a qualidade técnica, uma narrativa coerente e interpretações bem conseguidas.

Para além dos filmes em competição, o Panorama Português e Europeu, assim como a secção Stereo foram dois dos muitos bons momentos ao longo da semana. No primeiro caso, os filmes oriundos da Lituânia e Polónia surpreenderam pela originalidade e diversidade. Já o filme-concerto orquestrado por Garcia da Selva e Norberto Lobo, Frame by a Second, destaca-se pela singularidade visual e sonora conseguida durante aproximadamente cinquenta minutos.  O Curtas Vila do Conde termina, assim, a sua 23ª edição com a sensação de dever cumprido e a certeza de que trouxe uma das programações mais diversificadas e bem conseguidas dos últimos anos.