Para a 11.ª entrada do Boca de Cena escolhemos Francisco Pestana. Nome e imagem de fácil reconhecimento e com grande experiência profissional, é um indiscutível ator que se apaixonou pelo teatro na sua forma mais pura. Trabalhou para o público, deu voz a personagens emblemáticas e não parou. Sem dúvida, uma das figuras de proa no teatro português.

A sua influência é inegável enquanto personagem e produtor criativo nos campos do cinema e televisão, mas a sua pegada maior foi deixada no teatro. Enquanto estuda Direito, Francisco Pestana torna-se ator profissional e é co-fundador da Comuna Teatro de Pesquisa, onde permanece até 1981, participando em inúmeros espetáculos.

Em 1982 é co-fundador do Novo Grupo, companhia residente do Teatro Aberto, fazendo também parte da direcção. Este é um grupo teatral que, desde a fundação, sempre teve como objetivo apresentar espetáculos que pudessem interessar os potenciais espetadores de teatro. Desta forma, a preocupação passou sempre por levar a cena obras dramatúrgicas que fizessem o espetador refletir, pensar, especular, filosofar e divertir-se a propósito de temas contemporâneos e emergentes do dia-a-dia das pessoas. É assim que Francisco se torna numa figura incontornável da cultura e arte portuguesa, a que lhe seguiram diversos prémios e distinções que constituem uma carreia produtiva e carregada de sucessos.

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Comecemos então pelo início. Nasce na Madeira em 1951, onde reside até 1969, ano em que conclui os estudos liceais no Funchal, e se muda para Lisboa, onde frequenta o curso de Direito. Ao mesmo tempo, inicia a sua atividade artística no Grupo Cénico da Faculdade de Direito de Lisboa, na época dirigido por Adolfo Gutkin.

Em 1970, participa pela primeira vez como ator no Grupo Cénico, em Melim 4. Rapidamente é convidado para o cinema, integrando o elenco do filme Nojo ao Cães, de António Macedo. No mesmo ano, em 1971, estreia-se também no teatro profissional em O Processo, de Franz Kafka, no Teatro Villaret. A partir daqui, Francisco Pestana inicia a sua vida artística sem parar, dedicando-se por inteiro ao que o realmente apaixona, o teatro.

Tem participado como ator em várias tourneés pela América Central e do Sul, assim como em vários países europeus, em festivais internacionais. Em 1970, apresenta-se no I Festival Internacional de Teatro de San Sebastian, em Espanha e nunca mais parou. Participar em experiências deste género foi muito marcante para o ator, para além de lhe proporcionar convívio com povos de 32 países, foram estas experiências que lhe fizeram intensificar a paixão que tem pelo teatro, na medida em que tomou consciência da força cultural e civilizacional do teatro, enquanto motor e agente do desenvolvimento humano.

A sua atividade como dramaturgo inicia-se em 1992, e várias foram as peças publicadas ou levadas a palco. Em 1993, Francisco Pestana, vê publicada a Ilha de Arguim, estreada em 1997 no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal, sendo também gravada e exibida pela RTP-Madeira, em 1998. Esta peça valeu-lhe, em 1994, o 1.º Prémio no concurso Inatel/Novos Textos. Também A Barraca leva a palco a sua peça Subúrbio, em 1995, no Teatro Cinearte, peça que arrecadou a menção honrosa no concurso Inatel/Novos Textos.

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A sua presença em cinema e televisão vai muito além das personagens a que dá vida, tanto nacional com internacionalmente. Desde 1983, Francisco faz dobragem de voz em séries e filmes de animação. Gosta de dobrar, de emprestar a sua voz a tanto a outras pessoas reais, como a personagens de ficção. Já foi a voz portuguesa de Walt Disney e deu também voz a personagens de séries de animação emblemáticas, como Abelha Maia, Dartacão, Alice no País das Maravilhas, entre tantas outras.

Atualmente, podemos encontrar Francisco Pestana no Teatro Aberto, onde continua o seu trabalho como ator e diretor. Não é um ator do género de ter fãs. Nunca lhe interessou ser um ator popular. “A mensagem e a profissão de ator são efémeras, valem o que valem, no momento”, lê-se numa entrevista dada ao site Star Wars Clube Portugal, em junho de 2014, a propósito de uma questão colocada sobre uma mensagem que quisesse enviar aos fãs. Na mesma entrevista, termina desta forma:

 “Acreditem que, mesmo quando o meu trabalho é menos conseguido, eu trabalhei no sentido de vos proporcionar uma boa interpretação da personagem que aceitei interpretar. Amem-me quando o meu trabalho lhes fizer bem e odeiem-me quando o meu trabalho, enquanto ator lhes fizer mal, ou pior, lhes for indiferente”.