Tem origens britânicas, vem direitinha do Porto para Lisboa e é Almada quem a traz. Your Best Guess, a peça de Chris Thorpe e Jorge Andrade apresentada esta semana na Culturgest, insere-se na programação do 32.º Festival de Almada, que vem celebrar o teatro nacional e internacional na Margem Sul e arredores até 18 de julho.

Está uma quente noite de verão lá fora, mas foram muitos aqueles que escolheram refrescar-se com teatro, dentro do Pequeno Auditório da Culturgest. Sala cheia e os últimos espetadores ainda continuam a entrar. A peça que anseia por iniciar é Your Best Guess. A nossa melhor suposição é que a colaboração luso-britânica entre a mala voadora e Chris Thorpe terá despoletado a curiosidade dos que aqui estão presentes.

Um amigo conta a outro a história aborrecidamente normal, como faz questão de realçar, de como conheceu a sua mulher. Tal como qualquer outro casal aborrecidamente normal, foram apresentados por amigos, começaram a falar e a sair mais vezes e, quando deram por isso, estavam a namorar, a viver juntos e com dois filhos. Tudo decorre na mais normal das normalidades. Só que uma revelação vem colocar em causa tudo o que pensavam até o momento: a “normalidade” não existe. O “normal” é apenas e somente aquilo que se vai passando entre a vida, entre os grandes acontecimentos e mudanças. A qualquer momento, tudo pode modificar-se – de um milhão de formas diferentes.

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Este é o ponto de partida para aquilo que será uma reflexão sobre possíveis impossíveis, sobre futuros que nunca virão e sobre a imprevisibilidade da vida. Se viver no futuro é algo imprescindível (todos fazemos planos, seja para o dia de amanhã ou para daqui a 10 anos), a verdade é que há uma infinidade de cursos que a vida pode tomar. Esta peça interessa-se por aquilo que a vida não é mas poderia ter sido, pelos projetos falhados que fazemos e que, de alguma forma, deixam uma qualquer marca, um vestígio dessa quase-realidade que nunca o chegou a ser.

De um momento para o outro, a mulher do personagem que nos fala sofre um AVC e fica hospitalizada, em estado de coma. Um estado de incerteza entre a vida ou a morte. Só um desses dois desfechos se concretizará. Mas qual deles? E como não imaginar nem pensar na possibilidade iminente do outro, de dois futuros diferentes?

O interessante conceito é o motor carregador da peça que se constrói com recurso somente aos dois atores, que partilham com a audiência um texto simples mas capaz de despertar a curiosidade dos que o ouvem. É storytelling no seu estado mais puro.

A história do coma (contada em inglês por Thorpe e acompanhada por legendas em português que acabam por afigurar-se, também elas, como um elemento cénico) é desenrolada ao longo da peça e intercalada por pequenas narrações, a cabo de Jorge Andrade, de outros episódios em que um projeto de futuro, por algum acontecimento, falha.

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Uma vila inabitada devido ao cancelamento da construção de uma barragem, um amontoamento de t-shirts enviadas para campos de refugiados, porque uma equipa de futebol perdeu a final ou uma série de bilhetes retornados por causa do suicídio de uma estrela rock antes do seu grande concerto. Tudo restos de expetativas falhadas, de realidades que poderiam ter sido outra coisa mas não o foram. Porque não podemos prever nada. Porque a vida não é regular. Porque a normalidade não existe.

A peculiaridade da inutilidade dos objetos relatados, existentes independentemente da concretização do futuro que anunciavam, é indubitavelmente intrigante. Mesmo que não tenham para onde ir, são objetos que vêm de algum lado. Your Best Guess procura fazer-nos reescrever a História a partir deles, imaginar como seria se, afinal, tivessem sido bem-sucedidos, se os acontecimentos tivessem tomado o curso que era esperado. O que mudaria? O que seria igual? Que consequências?

Esta não é a primeira vez que Chris Thorpe trabalha com a mala voadora. Fundador da Unlimited Theatre e artista associado da Third Angel, companhias britânicas que têm trabalhado de perto com artistas lusos e, em particular, com a mala voadora, o dramaturgo e performer inglês esteve em Portugal, na Culturgest e no Teatro Municipal Maria Matos, em 2008, 2010 e 2014. Já em 2012, Thorpe escrevera uma trilogia de textos para a mala voadora que se tem movimentado pelo circuito internacional.

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A mala voadora voltou a lançar um convite e, desta vez, Chris Thorpe esteve em residência artística na cidade do Porto enquanto trabalhava no espetáculo. Dizem que há uma “complementaridade” entre os dois: Thorpe traz a dramaturgia e a mala voadora os aspetos cénicos. Apesar de toda a história comum, Your Best Guess é a primeira peça concebida verdadeiramente em conjunto por Chris Thorpe e Jorge Andrade, cofundador e codiretor artístico da companhia. São estes dois que vemos e ouvimos em palco, seja em inglês ou português, durante aproximadamente uma hora.

O modo próximo e informal com que cada pequena história é contada é capaz de arrancar um ou dois arrepios à plateia. O trabalho de som, a cargo de Rui Lima e Sérgio Martins, alia-se ao texto de Chris Thorpe e contribui em grande parte para o efeito. O maior arrepio nostálgico é guardado para o fim, quando o espetáculo é fechado com a interpretação assobiada de um “projeto falhado” de canção.

Não sendo uma peça dotada de um texto, produção ou interpretações sobrenaturais, Your Best Guess tem a seu favor, na descontração e informalidade com que simplesmente nos conta aquelas histórias, a capacidade de nos transportar até cenários e possibilidades alternativas, até irrealidades que nunca poderemos descortinar, a futuros que, por muito que tentemos, nunca vamos conseguir adivinhar.

Fotografias de Jorge Gonçalves