Patrícia Henriques e Gustavo Oliveira são bailarinos da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC). Já levaram a dança portuguesa a palcos de todo o mundo. Em 2011, um júri internacional reunido em Londres colocou-os entre os 100 melhores bailarinos do mundo. Hoje tudo mudou. Já não são bailarinos a tempo inteiro e têm de fazer trabalhos fora da CPBC para se sustentarem. Estes são mais dois bailarinos que tencionam sair do país em busca de uma vida mais estável.

Em Marvila, onde se avista o Rio Tejo entre os intervalos das ruas, o fado começa-se a ouvir logo pela manhã. No início da Rua do Açúcar, em frente ao Edifício Abel Ferreira da Fonseca, a rádio passa Amália Rodrigues. Mas é apenas o início, andando mais uns passos, até ao número 31, o fado dança-se. Ou melhor, em tempos, o fado dançou-se. Estamos nos estúdios da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo. Companhia fundada por Vasco Wellenkamp e Graça Barroso em 1998.

À secretária está Patrícia Henriques, uma das bailarinas da companhia. Enquanto Gustavo Oliveira, seu companheiro e bailarino da CPBC termina um telefonema, Patrícia mostra-nos a casa. De um armazém de uma antiga fábrica de vinagre, surgiu um estúdio de dança. “Era para ter sido feito de outra forma, mas não deu”, sorri com ironia Patrícia. E esta não foi a primeira residência da companhia, aliás como nos diz, no início, os bailarinos brincavam e chamavam à CPBC :”companhia itinerante”. Foram muitos os espaços que ocuparam e as divisões que tiveram de fazer com outras companhias.

Se hoje têm um espaço, ele está preenchido por cartazes de espetáculos ou programas pedagógicos que a companhia fez em Portugal ou pelo mundo fora. Um dos cartazes que se destaca é o de Amaramália, uma das peças mais emblemáticas da companhia. “Sempre foi bem aceite, desde lá fora, como aqui em Portugal”. Patrícia ainda se recorda bem das reações do público dos países nórdicos. Lá, os bailarinos são conhecidos por terem uma expressão facial fechada quando dançam e o público também é mais frio nas reações. “Depois aparecemos nós”, começa a contar Patrícia com a mudança de expressão que ilustra a situação. A bailarina ainda se recorda quando fez os holandeses chorar pelo fado que dançou.

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O telefonema de Gustavo termina. Os dois sentam-se e começam a falar do que os preencheu desde muito novos: a dança.

A dança nasceu com eles

Patrícia começou na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal. Aos 9 anos, quando lhe perguntavam o que queria ser, ela respondia sem qualquer dúvida: “Eu não quero, eu sou bailarina.” O seu percurso não foi um mar de rosas. Na altura, o seu corpo não preenchia os requisitos de um corpo magro de uma bailarina. Tinha um corpo atlético e, há 20 anos, não era fácil vingar assim na dança.

Aos 9 anos, quando lhe perguntavam o que queria ser, ela respondia sem qualquer dúvida: “Eu não quero, eu sou bailarina.”

Foi também na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal que conheceu Vasco Wellenkamp. Entretanto, também frequentou a Escola Superior de Dança, mas era a linguagem daquele coreógrafo que queria seguir.

Ainda quando estava na Escola Superior de Dança começa a trabalhar com o coreógrafo e com Graça Barroso. A primeira peça de Vasco Wellenkamp que dançou foi Fragmentos de Silêncio, ainda na CEDECE em Setúbal. A partir daí foi dançando tudo.

Enquanto Patrícia falava, Gustavo não parava de se mexer. O próprio admite “tenho um corpo fácil para ser trabalhado, para dançar”. Até sentado nos vai dando movimentos. Tudo começou do outro lado do oceano, em Recife, no Brasil.

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Se Patrícia sempre seguiu o fado de Wellenkamp, Gustavo começou na dança com três anos, no Centro Cultural Daruê Malungo, grupo comunitário em Chão de Estrelas. A capoeira foi a sua primeira entrada na dança e a partir daí nunca mais a abandonou.

“Foi a dança que me escolheu a mim, não fui que escolhi a dança” – Gustavo Oliveira

Vindo de famílias humildes, como o próprio gosta de destacar, era necessário que ajudasse nas contas. Gustavo começou a dar aulas de percussão e dança popular. “Foi a dança que me escolheu a mim, não fui que escolhi a dança”. Com 15 anos, começa a fazer dança contemporânea e clássica no Grupo Experimental de Dança. É aqui que Gustavo constata: “A capoeira é o ballet de cabeça para baixo”. Depois surgiu a ideia, porque não juntar a capoeira à dança contemporânea? Começa a partir daqui a sua identidade na dança.

Foi criando a sua marca, até que aos 19 anos, a dança torna-se outra. Quando participava no XIII Festival Internacional de Lima/Danza Nueva, recebeu o primeiro lugar para melhor solo. Nesse altura Mark Graft estava a dar aulas na sua companhia conheceu o seu trabalho e recomendou a Vasco Wellenkamp que o convidasse para a companhia, e assim surgiu o convite para vir para Portugal. Na altura, desconhecia por completo o trabalho do coreógrafo. Foi convidado a fazer parte da CPBC. Aceitou o desafio. Não tinha nada a perder e veio para Portugal.

Um encontro com a dança e com a vida

De imediato encontrou Patrícia. Se na altura foi um atraso de 12 horas que fez que tivesse de ficar na casa de Patrícia, os tempos ditaram que a relação entre os dois fosse fortificada pela dança. A primeira peça que dançou em Portugal foi Concerto em Sol M. “Incrivelmente, foi uma obra com muito trabalho de técnica clássica”, ri Patrícia do outro lado. E a estreia foi memorável. “Dancei pela primeira vez com sapatilhas de meia ponta”. Na altura disseram-lhe que tinha um pé maior que o outro. Nada disso. Eram as sapatilhas que tinham tamanhos diferentes, um engano na numeração das sapatilhas que tornou a experiência ainda mais difícil.

Depois começou a dançar tudo como Patrícia. Mas foi em 2004, com Amaramália, que fizeram o dueto Barco Negro. Esta foi uma reposição do que Vasco Wellenkamp fizera no Ballet Gulbenkian. Patrícia, que tinha visto a estreia em 1994, ficou assustada. Ainda se lembra dos bailarinos de cabelos longos, Francisco Rousseau e Rui Pinto, que dançaram o Barco Negro. “Estávamos nos anos 90 e as raparigas ficavam loucas com eles”, relembra Patrícia. Agora era a sua vez de navegar neste barco. Teria de entregar-se a Gustavo e à música de Amália Rodrigues. Dali saiu um dos mais reconhecidos duetos da dança contemporânea e uma filha, agora com cinco anos.

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Uma dança para o mundo

Amaramália percorreu o mundo. Entre os muitos palcos que percorreram, Gustavo relembra com muita nitidez a apresentação no Joyce Theater. “Não era um público que batesse palmas entre o intervalo dos fados”, algo que estranharam, mas no final tiveram uma ovação em pé.

Agora sentados num dos sofás da companhia, recordam esses momentos que levou a dança portuguesa lá fora. A marca de Wellenkamp é o que se destaca, mas nem tudo foi feito pelo coreógrafo. Os dois bailarinos afirmam que Vasco Wellenkamp “ tira o melhor de cada um dos bailarinos para coreografia”. “Por isso não é capaz de fazer reposições, se daqui a seis meses fizer uma mesma peça com outros bailarinos, será diferente”, explica Patrícia. “Ele trabalha connosco como se fossemos crochet”, acrescenta com o movimento nas mãos. Mas nem só de Wellenkamp se fez a CPBC, outros coreógrafos trabalharam nesta companhia de repertório. Rui Lopes Graça, Benvindo Fonseca, Gagik Ismailian ou Pedro Goucha Gomes estão entre os nomes que constroem o reportório da companhia.

Patrícia recebe um telefonema. É Vasco Wellenkamp! “O nosso diretor deve ter as orelhas quentes”, brinca a bailarina.

O problema da sustentabilidade

Se o sucesso da companhia se inscreveu na sua história, se vê nas paredes do estúdio e se sente nas palavras de Patrícia e Gustavo, hoje tudo mudou. A sustentabilidade tem sido um dos principais problemas da companhia. Desde 2005 que a situação se começou a agravar. Os principais apoios da CPBC eram o Ministério da Cultura, a Área Metropolitana de Lisboa, a Câmara Municipal de Lisboa e de Cascais. Há dez anos para cá, começaram a decrescer. Hoje são nulos. As câmaras começaram a ter menos orçamento e isso refletiu-se nos apoios culturais.

Restava a DGArtes, mas se a informação era para ter chegado em fevereiro, apenas chegou em junho. “Logo aí é uma falta de respeito pelo ano programado que as pessoas tinham e com os compromissos que tinham”, indigna-se Patrícia. Devido ao tempo de espera e para proteção dos próprios bailarinos, a companhia fez um despedimento para que estes pudessem ter no mínimo o subsídio de desemprego. Enquanto isso, fizeram uma digressão aos EUA, em março, mas o espetáculo pode-se fazer porque seis dos doze bailarinos eram estagiários da Escola de Dança do Conservatório Nacional.

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“Logo aí [atrasos na DGArtes] é uma falta de respeito pelo ano programado que as pessoas tinham e com os compromissos que tinham”

Chegou junho e com ele a resposta negativa da DGArtes. A Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo não teve qualquer apoio. Esta não foi a primeira vez que tal aconteceu, mas se sobreviviam com os apoios do Ministério e das Câmaras, agora nem isso.

Confrontados com as avaliações da DGArtes. Patrícia responde que só uma pessoa que não conhece o trabalho da companhia podia ter avaliado assim o seu trabalho. O relatório alega que a companhia tem apenas como objetivo a recriação, o público é adulto e de terceira idade, falta circulação de espetáculos a nível nacional e os workshops e programas pedagógicos não são sustentáveis.

“Eu acho que existe espaço para tudo e para todos. Acho que eles é que estão a condicionar esse espaço. Portanto, eles só estão a apoiar aquilo que acham que querem ver e não estão a deixar ao público a opção de escolher aquilo que quer ver.” Patrícia acusa o Estado de querer manter as companhias maiores e abalar as mais pequenas. E acha irónico o comentário relativamente ao público, porque uma grande parte dos espetadores da CPBC até são jovens. Para além disso, evidencia que grande parte dos apoios foram para teatro com performance. “A maioria dos avaliadores era de teatro”. Também a Companhia de Dança de Almada, a Quorum Ballet, a Vórtice Dance, entre muitas outras, ficaram de fora este ano.

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“O Vasco ainda se dança” – Gustavo Oliveira

Quanto à recriação das peças, Gustavo explica: “Esta linguagem que temos na companhia é uma linguagem diferente e toda a gente quer aprender isso. Inclusivamente os bailarinos mais atuais e menos atuais. O Vasco ainda se dança.” O bailarino acrescenta que há bailarinos de Itália e outros países que querem aprender a linguagem da companhia e até pagam para isso. “O Diretor faz as suas próprias escolhas para criar um estilo na sua companhia. Embora viessem sempre coreógrafos diferentes, com estilos diferentes, mas há uma linha a manter, que é essa linha que guia o público e é a linha que faz com que os bailarinos queiram vir trabalhar”, acrescenta Patrícia.

Quanto à circulação de espetáculos, Gustavo aumenta o volume da voz e destaca: “Obviamente que não fazemos, porque não há dinheiro”. O último espetáculo que fizeram foi em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval e antes disso só em junho. “Tivemos poucos espetáculos a nível nacional, porque são poucos os teatros que compram espetáculos, o resto oferece a bilheteira e isso não é uma opção para a companhia”, explica Patrícia. Se os teatros não têm dinheiro para comprar os espetáculos, a companhia também não consegue viver só da bilheteira.

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“Não dá se tudo funcionar através de projetos, porque não há dinheiro para pagar um salário e o bailarino também não tem dinheiro  para pagar para fazer aulas e para se manter em forma” – Patrícia Henriques

Uma das alternativas dos bailarinos tem sido a participação em projetos. Contudo, Patrícia explica que vai ser aqui que a qualidade da dança no país vai baixar. “Não dá se tudo funcionar através de projetos, porque não há dinheiro para pagar um salário e o bailarino também não tem dinheiro para pagar para fazer aulas e para se manter em forma. (…) E depois o tempo do projeto tem de ser o menor possível, para pagar o menos possível, portanto, o próprio criador não tem tempo para estar com grandes coisas. Vai trabalhar depressa porque tem três semanas para fazer uma criação e não tem três meses”, conta-nos a bailarina.

Para se manter em forma, Gustavo todos os dias corre vários quilómetros. “Correr faz-me bem à cabeça e depois faço a minha própria aula dentro de casa”, diz. Antes trabalhava no estúdio das dez às seis da tarde, para que o trabalho fosse consistente e com qualidade.

A CPBC também tem apostado nos programas pedagógicos. O último foi Pic Nic de Cláudia Sampaio. “ As câmaras estão fartas de perguntar para tentar perceber se não há espetáculo este ano, porque estão habituados a tê-los. É um trabalho que a companhia faz há mais de 10 anos. São espetáculos que as escolas vão”, afirma Patrícia

Os direitos dos bailarinos

A companhia passou vários momentos de dificuldades. De 18 bailarinos passaram para 12, depois para oito, para dois, a seis e agora… Pela primeira vez, estes dois bailarinos estão desempregados. Para se sustentarem, vão trabalhando por fora. Gustavoworkshops e coreografa em escolas particulares dentro e fora do país. Patrícia já deu aulas na ESD, colaborou com a Companhia Olga Roriz, esteve a coreografar no Projeto Quorum e vai dar mais alguns cursos de verão nos próximos tempos. “São coisas muito espaçadas, não dá para viver assim”, evidencia.

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“A companhia sempre prezou por ter contratos e não trabalho precário. Os bailarinos aqui estavam protegidos, sempre foi uma prioridade do Diretor. Ele sempre achou que se os bailarinos tivessem contrato estariam aqui a dar sangue e suor, porque sabiam que iriam ter o seu ordenado ao fim do mês”, conta Patrícia. Agora não é possível pagar a ninguém. “A mim faz-me muita confusão que se diga que é nas alturas de crise que se criam as melhores coisas. Ora, muito bem, mas não é o trabalho deles. Porque passar fome para ser criativo, hoje em dia não é uma opção. Também temos a opção de ter uma família de ter uma casa e de comer”, afirma a bailarina sobre as condições de trabalho.

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“sobreviver como bailarinos até aos 55 anos é completamente ridículo” – Patrícia Henriques

No último mês, discutiu-se o Estatuto do Bailarino da CNB, mas e os bailarinos independentes como Patrícia e Gustavo?  “Os bailarinos da CNB sempre foram os privilegiados do país. Mais privilegiados foram os bailarinos do Ballet Gulbenkian. E o resto da classe poucos privilégios tinham. Nem sequer tínhamos o privilégio da reforma antecipada” , afirma Patrícia. Para terem direito à reforma antecipada aos 55 anos, os bailarinos teriam de se manter a dançar assim até essa idade. “Mas sobreviver como bailarinos até aos 55 anos é completamente ridículo.”04

Apenas existe essa proteção na CNB, onde os bailarinos podem deixar de dançar nos espetáculos principais, mas fazem outro tipo de trabalho ou no extinto  Ballet Gulbenkian , onde a partir dos 45 anos a Fundação Gulbenkian lhes garantia a pré-reforma até aos 65 anos. Há dez anos, os bailarinos da CNB apresentaram uma contra proposta para descontar o dobro nos últimos dez anos, para poderem sair aos 45 anos em vez de ser aos 55 anos. Nada feito!

“Gostava de salvaguardar que não estou contra os privilégios que os bailarinos da CNB e Gulbenkian tinham, não são eles que têm demais, todos os outros é que nunca tiveram as condições e a proteção por parte da lei para se manterem com uma reforma antecipada aos 55 anos. A maioria dos bailarinos do mundo termina a sua carreira nos palcos entre os 40 e os 42 anos com muita sorte, se não tiverem tido lesões graves durante a carreira. Um bailarino fora destas duas companhias, quando tem de deixar os palcos e passar por exemplo ao ensino, passa a ter a reforma aos 65 como professor e perde a reforma antecipada como bailarino, o problema é que o corpo sofreu um desgaste muito grande, e a fisioterapia vai ser uma despesa até ao fim da vida“, explica Patrícia.

Ser bailarino é trabalhar com o corpo e viver na incerteza das lesões. Apenas têm como garantia as companhias de seguro. Contudo, são considerados de alto risco e muitas delas nem fazem seguros a bailarinos. “Nós às vezes temos de obrigatoriamente trabalhar sobre a dor. A dor e o cansaço não é nada para um bailarino, isso quase que nem existe. Há um momento que o corpo já fica dormente, já nem sabe se é uma dor normal ou fora do comum. Fica tudo secundário. Estás tão preocupado em não perder o teu trabalho e não perder o teu posto, as dores nem contam muito”, conta-nos Gustavo.

Depois há a reconversão do bailarino, noutros países existe a possibilidade de receberem uma quantia durante cinco anos para tirarem um curso ou abrirem um negócio, mas em Portugal isso não existe. Até para começarem a dar aulas para os cursos profissionais têm de frequentar e pagar o mestrado durante dois anos. “Sem diploma não se entra e não existe o apoio para a pessoa fazer o curso”, revela  Patrícia.

O que falta na dança em Portugal?

Afinal, o que falta? “Falta elevar a dança como profissão”, responde Gustavo com frontalidade. Deve tudo à dança. “Como já disse, venho de uma família muito humilde e não tive possibilidade de acabar os meus estudos, mas hoje falo italiano, inglês, espanhol, graças à dança. Viajo pelo mundo inteiro, graças à dança. Pago as minhas contas, graças à dança. Tenho uma vida, não posso dizer nem de rico nem de pobre, mas estável, porque ainda consigo pagar as minhas contas com o trabalho que faço fora.”

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“Falta elevar a dança como profissão”- Gustavo Oliveira

Sente-se o tom da voz a aumentar, Gustavo está indignado com a situação do país que lhe deu tudo e desenvolveu a sua identidade como bailarino. “Eu vivi metade da minha vida aqui. Eu aprendi a ser muita coisa em Portugal. Portugal deu-me tudo. Eu cheguei aqui com 19 anos,  hoje tenho 33 e a minha carreira evoluiu toda em Portugal.”

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“nós vamos sair. É triste, temos um nome aqui a zelar, mas é isso que temos de fazer, sair de Portugal” – Gustavo Oliveira

Já tomou a decisão: “Nós não pensamos, nós vamos sair. É triste, temos um nome aqui a zelar, mas é isso que temos de fazer, sair de Portugal”, revela. “Falar de arte em Portugal é uma coisa que me irrita pela falta de cultura e respeito para com os profissionais. Por isso é que eu tenho de ir o quanto antes embora. Vou ficar muito triste porque tenho de deixar a minha filha e a minha mulher durante um período.” Tem duas propostas lá fora e vai aceitar uma delas. Vai antes de Patrícia e da filha para “preparar o terreno”. “Lá fora as pessoas gostam muito do meu trabalho e estou a conseguir espaço lá fora,” afirma.

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“Não tenho esperança que nos próximos 10 anos a política cultural do país fique muito melhor”- Patrícia Henriques

“Neste momento, eu acho que as políticas culturais teriam de mudar muito. Não sei o quão depressa se vai fazer conseguir fazer uma restruturação na forma de pensar na política cultural do país. Não tenho esperança que nos próximos 10 anos a política cultural do país fique muito melhor. Vai ser um processo muito lento”, afirma Patrícia sobre o futuro da dança em Portugal.

Gustavo embora indignado ainda consegue ser irónico no confronto com os governantes. “Se eu ganhasse o Euromilhões, faria uma companhia e pagaria muito bem aos bailarinos. O meu sonho seria fazer um centro cultural onde juntaria todas as artes, para mostrar a Portugal que tem muito talento.”

Quanto à filha, já tem aulas de dança e para os dois não os preocupa se quiser ser bailarina. Patrícia afirma é que provavelmente não será neste país. “O mais importante para mim é que ela seja feliz”, afirma Gustavo. De facto, Patrícia e Gustavo sempre fizeram aquilo que mais gostavam e agora só queriam mais dignidade pelo trabalho que desenvolveram.

É hora de almoço. Se antes Patrícia e Gustavo voltariam para ensaios. Desta vez, o estúdio vai permanecer no silêncio. Silêncio, mas ninguém irá cantar o fado, porque não há ninguém para o dançar. Um dos duetos mais emblemáticos da dança portuguesa está prestes a abandonar o barco negro que os fez navegar pelo mundo. Não têm como remar, num mar tão turbulento como está a dança profissional em Portugal.

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Fotografias de Catarina Veiga