Maria Barroso morreu hoje aos 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. O Espalha-Factos relembra alguns momentos da vida de uma menina que tinha o sonho de ser atriz, quando isso ainda era visto com preconceito e que lutou pela liberdade quando isso era proibido.

Maria de Jesus Barroso nasceu em Olhão, a 2 de maio de 1925. Maria de Jesus é a quinta de sete filhos de Maria da Encarnação Simões, professora primária, e de Alfredo José Barroso, oficial do Exército.

Cedo descobre a paixão pela representação. Aos 15 anos, convence o pai a deixá-la inscrever-se no curso de Arte Dramática do Conservatório Nacional, mas com a condição de continuar a estudar. Contra a vontade da sua mãe, que partilhava do preconceito que existia contra os artistas na época, seguiu este caminho.

Teatro

Estreia-se no teatro profissional a 21 de junho de 1944, com a peça Sua Excelência, o Ladrão. Nesse mesmo ano entra para o elenco da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, ao mesmo tempo começa a frequentar o curso de Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras. Foi aí que conheceu o seu futuro marido, Mário Soares.

Enquanto esteve no Teatro Nacional, fez parte de quase duas dezenas de peças. Maria Barroso destacava Benilde ou a Virgem Maria (1947) e a Casa de Bernarda Alba (1948), em que contracenou e foi dirigida por Palmira Bastos.

A Casa de Bernarda Alba viria a ser uma das suas últimas peças  e dela a atriz guarda as melhores recordações:

“Andámos a representá-la pelo país. Quando o fizemos em Coimbra, estava lá toda a intelectualidade que era contra o regime – e havia uma cena muito emotiva, que terminava com a Adela aos gritos. No terceiro ato, essa figura dizia, quebrando a vara que a mãe trazia sempre com ela: ‘Veja o que eu faço à sua tirania.’ O teatro ia vindo abaixo com as palmas, bateram, bateram e começaram a chamar pelo meu nome… Eu era muito tímida, mas Palmira Bastos levou-me à frente, e a certa altura atiraram para o palco uma pasta com as fitas da Faculdade de Letras e uma capa. Foi uma noite lindíssima, foi a noite de teatro mais bonita que tive”, Maria Barroso em entrevista à revista Única/Expresso (2009)

A Casa de Bernarda Alba teve as consequências frequentes na época. A censura do regime do Estado Novo proibia a sua apresentação no Porto. A atriz ainda representou em Paulina Vestida de Azul, no Teatro Nacional, mas no final das férias de 1948 seria informada por Amélia Rey Colaço que não poderia ser contratada de novo. Para Maria Barroso, fora algo terrível:

 “Lutei pela dignificação do teatro, procurei representar o melhor possível e puseram-me fora! No ano seguinte casei e fui fazer outras coisas”, afirmou Maria Barroso em entrevista à revista Única/Expresso (2009)

Apenas volta aos palcos nos anos 60 com O Segredo de Michael Redgrave, e em Antígona, na versão de Jean Anouilh, no Teatro do Nosso Tempo, no Villaret

Poesia

Apesar de não ter permanecido muito tempo no teatro, continua a fazer-se ouvir nos recitais de poesia em noites de oposição à ditadura do Estado Novo.

 “Gostava muito de dizer poemas, sobretudo do Novo Cancioneiro, que, como se sabe, tinha muitos textos revolucionários de Joaquim Namorado, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca… Ia com o coro de Fernando Lopes-Graça a Almada, ao Barreiro, onde havia as sociedades operárias, e ficavam todos muito electrizados”, recordou   em entrevista à revista Única/Expresso (2009)

Cinema

Maria Barroso também teve uma passagem breve mas marcante no cinema. Em O Crime de Aldeia Velha (1964), de Manuel Guimarães, dá a voz à atriz Barbara Laage. Dois anos mais tarde faz um dos seus papéis mais relevantes: Júlia, de Mudar de Vida.

Júlia é uma mulher dividida entre o amor do namorado, chegado da guerra colonial, e do seu irmão, com quem casou. Maria Barroso interpreta uma Júlia entre a fragilidade e força interior, mostrando uma nova mulher ao cinema português.

O filme teve uma reposição no ano passado. No ciclo Harvard na Gulbenkian – Diálogos sobre o cinema português e o cinema do mundo, Joaquim Sapinho expressou a sua admiração pelo trabalho de Maria Barroso, convidada para a apresentação do filme, e destacou: Maria Barroso foi uma artista e uma cidadã extraordinária, que estava sempre a fazer a ponte entre a arte e a política”.

Depois de Mudar de Vida, apenas apareceu em filmes de Manoel de Oliveira, como Benilde ou a Virgem Mãe (1975), na pele da governanta Genoveva, ou Amor de Perdição.

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Maria Barroso em Mudar de Vida

Direitos Humanos

 Maria Barroso será sempre conhecida por ser uma mulher ativa na defesa dos direitos humanos. Desde a oposição que fazia ao regime do Estado Novo através do teatro ou da poesia.

Logo em 1969, luta pela liberdade e é candidata a deputada pela Oposição Democrática. No III Congresso da organização é mesmo a única mulher a intervir. Em 1973, é também a única mulher na foto da fundação do PS,  na cidade de Bad Münstereifel, na  República Federal da Alemanha.

Com a democracia torna-se deputada nas legislaturas de 1976, 1979, 1980 e 1983.

Como primeira-dama destaca-se na luta pelos direitos da família. Em 1990 cria o movimento Emergência Moçambique e em 1995 preside à abertura do ciclo de realizações do Ano Internacional de Luta contra xenofobia, racismo, antisemistismo e exclusão social. Em 1994 faz parte da fundação da Pro Dignitate – Fundação de Direitos Humanos, com a missão de prevenir a violência e promover os direitos humanos “através de estudos científicos, de planeamento e avaliação de medidas de prevenção e de outras acções dirigidas à defesa dos referidos direitos, lê-se no site da fundação.

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De 1997 a 2003 preside à Cruz Vermelha Portuguesa.

Numa entrevista ao jornal i , no seu 90º aniversário, resume bem o legado de uma vida em prol dos outros: “queria defender os pobres, os desalinhados, os injustiçados”.