Recarregadas as baterias e reanimados os espíritos, é ainda debaixo de um sol escaldante que Carcavelos dá continuação ao Musa Cascais, de ânimos tão leves e ambiente tão acolhedor quanto aqueles verificados no dia anterior. Igualmente competente em termos de logística e discutivelmente ainda melhor no âmbito das actuações, o segundo dia do suburbano Musa fez jus às festividades iniciadas no primeiro, trazendo à beira-mar um cartaz sólido e digno do festival de reggae português.

Sobre o ambiente, pouco há a acrescentar àquilo que já foi dito em relação ao dia inaugural: o público continua a parecer sentir-se bem e em casa no espírito deste Musa, e o clima de festa que se vivia por todo o recinto só se intensificou ao caminharmos para o fim do dia, à medida que os festivaleiros menos interessados nas pequenas atuações que se iam apresentando. No Musa foi-se feliz, e não só, enquanto se apreciava música, já que um descanso à sombra das tendas ou um refresco na esplanada parecia ser tão bem recebido quanto o som que emanava das colunas. Também neste dia se apreciaram as secundárias Bass Station e Arena Soundsystem com assiduidade, locais onde não faltou assistência: na primeira, os festivaleiros esbracejavam freneticamente ao som dos mais variados ritmos electrónicos (Noyze, Mr. Gasparov), enquanto que na segunda flutuava-se pelas suaves correntes do reggae e do dub (Roots Dimension, Imperial Sound Army).

Não obstante, como no dia anterior, reinou o cartaz do palco principal. Chegamos ao recinto a tempo da segunda atuação do Main Stage Musa, a dos alegres e incisivos Urbanvibsz. De poucas palavras e muitos instrumentos, o coletivo do Barreiro contagia os já relativamente numerosos presentes com o seu reggae tocado a cordas e sopros, com direito a coro de fundo e a ocasional dança mal amanhada. Num set bem composto (apesar de ainda largamente desconhecido do público), o grupo da Margem Sul não destoou minimamente da raison d’être deste Musa. Muito à semelhança, aliás, do próximo a tomar o palco, o tão carismático quanto energético Chaparro. Agarrado ao inseparável cajado de madeira, agigantado pelas tranças que por pouco não se arrastam pelo chão e munido de uma talentosa banda de apoio (um aplauso para os Rasnatura!), é de pulmões cheios que Nuno Chaparro interpreta os seus temas, saltando entre zonas do palco e afirmando o orgulho de cantar em português e espalhar o movimento reggae pelo país. As suas composições podem não ser as melhores a passar por este dia de Musa, mas a imponente presença e contagiante energia do cantor em palco valeram por este concerto que deixou poucos na indiferença.

Findas as apresentações nacionais da noite, o Musa transporta-se para a Jamaica na porção final desta edição de 2015. De Stephney chega-nos o ex-concorrente de reality show feito artista Romain Virgo, seduzindo público cascalense com o seu lovers rock tingido de pop e transbordando o main stage com o seu arsenal de apenas três músicos. Numa performance electrizante, o jovem músico arrancou o suor aos festivaleiros, que já se amontoavam sobre as frágeis grades protectoras que ameaçavam ceder à pressão arrecadada pelos cânticos de amor de Virgo. E se a situação roçava o descontrolo neste concerto, pior dir-se-ia do próximo jamaicano a tomar o palco, o veterano Beres Hammond. De implacável e inextinguível sorriso no rosto, o cantor de 40 anos de carreira foi uma das confirmações pelas quais se compra bilhete, e não desapontou com o seu set dinâmico, charmoso e sempre bem medido. Veiculando mensagens de amor, união e alegria entre músicas, também Hammond não deixou o público parado, este que se deliciava de olhos e ouvidos perante a presença do músico de Saint Mary.

Para o encerramento ficou porventura o melhor. É por uma exímia demonstração de virtuosismo técnico e musical que os britânicos Steel Pulse pautam a sua apresentação, a última da noite antes do fecho definitivo de portas. Fundando-se no reggae mas nem por isso nele se cingindo, o colectivo adapta uma vasta míriade de estilos musicais ao seu ritmo trademark, formando uma excelente mescla de sons e influências para a ondulante multidão que gastava os últimos pontos percentuais da sua bateria nesta grandiosa performance final. Um fim digno para um festival que, não trazendo enchentes de pessoas, fez mais pelo roots reggae em Portugal do que qualquer concorrente deste ano. Findas as festividades, e já com alguma sobriedade de corpo e mente, há que admitir que o Musa Cascais foi um interessante, imersivo, e inegavelmente apreciável sucesso. Afinal, com tanto reggae dançado, sol apanhado e emoção vivida, as reflexões finais não poderiam ser outras.