Nunca soube tão bem descer à praia de Carcavelos. Como já vem sendo costume de há uns bons anos para cá, o pacato parque de estacionamento da zona balnear de Cascais  foi ontem palco a inauguração oficial do Festival Musa, que se realiza nos dias 3 e 4 de Julho e tem vindo a ganhar popularidade como aquele que é, de momento, o único festival exclusivamente reggae do país.

Entre música, artes, cultura e gastronomia, foi com muita alegria e elevados espíritos que se viveu o primeiro dia do Musa. Um festival pequeno e assumidamente humilde, mas também dotado de um grande coração que não decepcionou as pequenas legiões de fãs que ontem se deslocaram à beira balnear cascalense.

O Espalha-Factos chegou ao recinto pelas 18h, onde os ânimos ainda arrefecidos eram carregados pelos palcos secundários, onde já se avistavam mirrados aglomerados de festivaleiros que se preparavam para o clima de festa que se avizinharia. As primeiras grandes impressões, no entanto, chegam-nos dos espaços de convívio do festival. O extremo bom ambiente e clima de camaradagem e harmonia que se vivia no espaço do recinto era inegável, não fossem as estóicas práticas do roots reggae a base ideológica deste Musa. Mesmo com as habituais marcas do consumismo que abundam na generalidade dos festivais portugueses, o recinto conserva com astúcia o sentimento de exotismo digno de um qualquer festival de reggae, criando uma espécie de oásis no meio da subúrbia de Carcavelos. Para quem se habituou a circular pela área fora deste contexto, parecia surreal o quanto se respirava ares de festival por onde quer que se olhasse: malabaristas praticam os seus dotes no meio do público, enquanto que mais atrás uma pista de skate é habilmente patinada pelos festivaleiros; na tenda de vendas, exibem-se produtos artesanais confeccionados à mão, artigos ecologicamente sustentáveis e depicções do imaginário Rastafari;  debaixo de um sol ainda escaldante, grupos de amigos munidos da indispensável imperial sentam-se no chão conversando, enquanto esperam pelas actuações do palco principal.

IMG_20150703_192232

De facto, se a impressão com que se ficava era de que o principal interesse do público residia no Palco Musa, a verdade é que os assistentes não ignoraram os palcos adjacentes, circulando ininterruptamente pelos três núcleos de som que se encontravam invulgarmente próximos uns dos outros. Infelizmente, esta proximidade não ajudou à qualidade do som, que transbordava entre as zonas dos palcos e interferia com quem estivesse a meio caminho. Nada que fizesse diferença aparente aos festivaleiros, cuja afluência às secundárias tendas electrónicas só se intensificou com o passar das horas. Na primeira, a Arena Soundsystem, reinavam os sons do clássico roots reggae (aposta ganha no contexto do festival) às mãos de artistas como Mindel Reggae, Jahmsterdam e, mais tarde, Roots Dimension. Na segunda, a mais hostil Bass Station, criava-se lugar para a dissidência: quem se quisesse afastar das calmas e pacíficas melodias do reggae por uns momentos encontrava aqui um drum and bass sujo, distorcido e ao volume máximo por Void Fuzion, Zero Degrees ou DJ Krust – panorama este que abrigou grande parte do público nas instâncias finais deste primeiro dia de Musa.

IMG_20150703_222039

Para o palco principal, no entanto, é que estava reservado o verdadeiro furor, e se já nos primeiros momentos era palpável a antecipação pela actuação de Groundation, coube aos portugueses Herculee a tarefa de inaugurar o Palco Musa. Não pareceram ter convencido muita gente com o seu ethos punk revestido de estética reggae, mas o ímpeto das suas músicas e a ferocidade dos solos de guitarra ia animando o público que, com dedicação, esperava por nomes mais sonantes. Não fez muito melhor Mary Juh, a cantora pop disfarçada de reggae que destoou do clima do festival com mais do que alguns versos sensaborões (e um medley de covers com direito a Beyoncé!), apesar dos bons músicos que a acompanhavam. Talvez a atuação menos interessante do dia, que ainda não lograva em atrair a desejada dimensão do público, este que preferia circular pelo recinto e desfrutar do sem-número de outras actividades proporcionadas pela organização.

IMG_20150703_191128

O virar do dia para a noite, e o primeiro grande espectáculo do dia, ficou reservado para o português Xibata. Numa performance equilibrada, animada e apoiada por uma secção instrumental imaculada, o ainda novato artista soube gerir com perícia a sua presença em palco, dançando efusivamente, conversando com o público com uma naturalidade distinguível e até distribuindo cópias do seu disco pelas filas da frente. Quando pedia para cantar, o público respondia em concordância e a pulmões cheios, e foi assim que desataram a ecoar cânticos de “Legalizem a Maria” pelo público, entre outros da mesma índole sociopolítica. É já perante uma enorme multidão que Xibata se despede, abrindo lugar para a porção internacional da noite. Não muito mais tarde, vindos de Itália, os Mellow Mood tomam o palco, inundando-o com a sua performance comparativamente minimalista mas também cheia de energia. Liderados pelos gémeos Jacopo e Lorenzo Garzia, os Mellow Mood contagiaram os assistentes, já familiarizados com alguns dos seus mais sonantes temas.

IMG_20150703_224646

Já depois da meia-noite, sobem finalmente ao palco os cabeças-de-cartaz do dia. De notável boa-disposição e perante o delírio absoluto da multidão que já toma proporções extremas, os Groundation dão um espectáculo tecnicamente proficiente e de uma vibração inescapável. Sempre guiados pelo sorriso e carisma inconfundíveis de Harrison Stafford, que não hesitava em anunciar a vinda do  seu ‘movimento’ e desejar felicidades e prosperidades a todos os presentes, o grupo da Califórnia aliava mensagens da iconografia Rastafari ao seu roots reggae tingido dos sons americanos do blues e do jazz, naquele que foi o espetáculo do dia. Para os mais resistentes (a maioria dos presentes, neste caso) sobra o extensamente aplaudido Jah Cure, vindo da Jamaica e trazendo também um roots reggae bem medido e nostálgico dos áureos tempos do género musical. Fechou-se com chave de ouro a primeira metade do Musa, numa performance que sugou até ao tutano a energia do público, que se recusou a dar tréguas até bem perto das 4h da manhã. No final, as extensas migrações para a tenda ou para casa, que hoje é outro dia e o Musa ainda tem muito que oferecer.

IMG_20150704_000840