Addio, adieu, auf wiedersehen… Não, José Cid afinal ainda anda por cá, e não é só nos festivais da canção ou em capas de revistas lembradas pelo Quaresma. Num acolhedor sofá protegido do sol e do calor exteriores falou ao Espalha-Factos sobre o seu álbum novo, a sua forma de fazer música e a maneira como se relaciona com os fãs: “Nós todos seres humanos passamos a vida toda a tentar que as pessoas gostem de nós.” Afirmou, com os óculos de sol ainda postos.

O seu novo álbum, Menino Prodígio, foi lançado em abril deste ano e explora alguns elementos bibliográficos do início da carreira. Autodenominado poeta, José Cid sempre colocou ênfase nas letras das suas músicas, e este trabalho não é diferente: “As minhas letras não são brancas, (…) este álbum não é poeticamente branco de forma alguma, é um álbum interveniente.”

No entanto, aquilo que mais o distingue não é a sua mensagem, mas sim a sua estética, que vê o artista regressar ao seu passado musicalmente mais pesado: “não um álbum rockeiro sinfónico, nem um rock puro e duro, porque este rock é elaborado, (…) completamente em português e completamente original, sem grandes influências.” Neste disco, José Cid regravou algumas músicas originalmente lançadas pela sua antiga banda, Quarteto 1111, juntou outros originais, um cover de Aerosmith, e o resultado é um disco que tenta conquistar o seu espaço no peculiar rock português ao lembrar o descomprometido rock & roll dos anos oitenta.

Apesar de Cid não ser imediatamente associado a guitarras e ao rock, quando passamos para lá dos macacos, bananas, cabanas e afins, lembramos-nos de que foi este o responsável por uma das mais importantes obras de rock progressiva portuguesa: “ (…) estava um bocado farto de gravar álbuns de baladas, e quando finalmente me libertei da editora anterior onde estava, imaginei-me, pressionado um bocadinho pelo mediatismo que está a ter o meu álbum de rock sinfónico 10.000 anos depois entre Vénus e Marte, que faria um álbum mais rockeiro.”

Esta visita ao passado pode explicar um pouco o sucesso que o cantor tem vindo a beneficiar junto das audiências mais jovens. Só neste ano, passou pelas festas académicas de Viseu e de Évora, depois de ter passado por Coimbra ou Portalegre no ano passado. O seu forte relacionamento com as gerações mais jovens pode parecer descabido ao início, mas não o preocupa minimamente: “O meu público é jovem, e os pais deles não perceberam que eu agarrei outras gerações, alguns ficam até de trombas por pensarem que eu já tinha acabado. Estão enganados redondamente, e isso diverte-me, obviamente.”

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Esta nova fase da sua carreira vem cimentar o seu projeto de vida: gravar músicas e tocá-las ao vivo. Admite a ambição de ser recordado como músico e afirma que a única coisa que preferia ter feito durante a sua carreira seria “arranjar uma maneira de me ser facilitada a reencarnação.” Por enquanto, continua a lutar para esse objetivo, pelo menos até que a voz lhe comece a falhar, algo que não aconteceu durante o Menino Prodígio, defende. A partir daí poderemos ver um José Cid escritor ou compositor. Se a sua vontade mandar, no entanto, vamos ainda ter de esperar muito tempo para que isso aconteça.

Fotografias de Ana Margarida Almeida.