A propósito da sua recente participação na Origin Passion & Beliefs, em Itália, o Espalha-Factos visitou o atelier de Valentim Quaresma e esteve à conversa com o designer de joalharia. A carreira internacional, os apoios e plataformas de projeção e a criação da identidade de cada coleção foram alguns dos temas em destaque.

Entre 15 e 18 de maio, a Origin Passion & Beliefs reuniu 100 designers emergentes do panorama internacional e fabricantes italianos do setor da manufatura. Promovida pela Not Just a Label, plataforma online internacional de exposição de designers independentes, a feira promove contactos e parcerias ao nível criativo, de produção técnica, matérias-primas e gestão em quatro áreas de excelência da moda e das artes: peles, pedra, têxteis e tecnologia.

Havia [criadores] de todo o mundo, desde a Nova Zelândia, ao Japão, Estados Unidos da América,…”, começa por contar Valentim Quaresma. O designer foi um dos 100 selecionados para participar, o único português presente.

Os 200 expositores em campo foram ocupados pelos designers internacionais emergentes e pelos fabricantes de manufatura italiana. “Foi uma sinergia engraçada”, comenta Valentim Quaresma. “Levei para lá algumas peças da última coleção mas levei, essencialmente, a parte mais comercial, não só dessa coleção, o trabalho que eu estou sempre a reproduzir”, revela, “eu chamo-lhe quase clássicos”.

E a verdade é que já conta com uma boa dose de clássicos. Desde que lançou a sua própria marca, em 2008, o designer tem reunido, com cada coleção, uma série de peças que compõem a cara e a identidade da marca. “Em todas as coleções, eu mantenho sempre uma, duas ou três peças que depois fazem parte dessa coleção de clássicos”, explica. Esta coleção está a venda em pelo menos 10 lojas diferentes, espalhadas pela Europa – desde Itália, ao Reino Unido, passando por França e pela Bélgica – e mostra aquilo que de mais característico e comercial Valentim Quaresma faz. O traço essencial é o recurso ao upcycling, o uso de materiais descartados de forma a criar peças de valor superior ao dos objetos originais: “uso alfinetes, pérolas, molas de pressão, moedas,…”, esclarece.

“Uso alfinetes, pérolas, molas de pressão, moedas,…”

Apesar de a sua carreira a solo ter arrancado apenas em 2008, quando vence o prémio de Coleção de acessórios do ano na competição International Talent Support, Valentim Quaresma já era tudo menos um designer inexperiente. O seu primeiro emprego, aos 16 anos, marcou logo a estreia na área que havia de seguir. “Estava à procura de emprego e, por acaso, fui parar a uma oficina de acessórios de moda. Estive lá durante dois anos, depois fui despedido”, relembra entre risos. Estávamos em finais da década de 80 e o ensino artístico começava a emergir na cena nacional. “Eu conhecia imensa gente que começou a entrar no IADE, que penso que era o único sítio que tinha cursos de Moda, e comecei a interessar-me”, revela Valentim Quaresma.

Desde cedo compreendeu que o seu trabalho não estaria ligado a roupa mas sim a acessórios. “Percebi logo que tecido não era bem o que eu queria trabalhar e aprender”, avança. A ideia de ter “abertura para trabalhar com outro tipo de materiais e fazer outras coisas” afigurou-se-lhe “muito mais aliciante”. Depois de se ter formado em Joalharia na Ar.co., Valentim Quaresma criou joias e acessórios para um dos maiores nomes da moda portuguesa, Ana Salazar, durante 20 anos.

Ainda estava no 2º ano do curso quando experimenta marcar uma reunião com a reconhecida designer para mostrar o seu trabalho. A parceria alargar-se-ia durante cerca de duas décadas mas, entretanto, Valentim Quaresma já ia dando os primeiros passos a solo. “Quando comecei com a minha marca, ainda estava a trabalhar com ela”, diz, “senti uma necessidade de explorar mais a minha parte criativa, de fazer algo diferente, e comecei a trabalhar toda a parte criativa e escultórica do meu trabalho”.

As diferenças manifestaram-se assim que Valentim Quaresma começou a criar as suas próprias coleções. Quando, em 2011, se torna no primeiro designer de sempre a apresentar uma coleção exclusivamente de acessórios na ModaLisboa, passando a integrar o calendário anual oficial do evento, confessa que “foi complicado começar a planear o desfile”. “Quando se está a “acessorizar” uma coleção de roupa, os acessórios tendem a firmar o conceito dessa coleção. Neste caso é diferente: eu apresento o próprio conceito”, afirma. Assim, numa coleção de joalharia “a roupa tem de passar para segundo plano, porque não pode roubar o protagonismo nem a leitura que eu quero que as pessoas tenham das peças, do meu trabalho”, esclarece, “a roupa passa a acessório”.

“A roupa tem de passar para segundo plano, porque não pode roubar o protagonismo nem a leitura que eu quero que as pessoas tenham das peças, do meu trabalho. A roupa passa a acessório.”

E como se chega, então, à coleção a apresentar? “Começa com a ideia e com o conceito. Pode partir de uma conversa, de qualquer coisa que eu esteja a ler, de um pensamento que esteja a ter sobre qualquer coisa,…”, expõe, “depois vou à procura dos materiais, onde tento sempre inserir o metal, que é aquilo que me dá mais prazer em trabalhar”. “É muito à base da experimentação: pegar nos materiais e pôr logo a mão na massa”, conclui, “eu não desenho as peças que faço”.

Que futuro para o design de joalharia?

Valentim Quaresma é um caso de sucesso, a nível nacional, na criação de jóias. Tem mostrado e comercializado o seu trabalho internacionalmente, em eventos de moda e arte em países como França, Espanha, Inglaterra, Holanda e Letónia. Integra o calendário anual oficial da ModaLisboa. Já foi destacado por publicações como a GQ, a Máxima ou mesmo as edições portuguesa e italiana da Vogue. No ano passado, uma das suas peças foi escolhida para ser incluída no videoclip de G.U.Y., êxito da estrela pop norte-americana Lady GaGa.

“Eu não desenho as peças que faço.”

Apesar de toda a projeção internacional, Valentim Quaresma diz também enfrentar obstáculos financeiros, associados à falta de apoios, tal como tantos outros criadores. Em termos de projeção do trabalho, pensa que a maior dificuldade é “a parte de gestão e de gerência”, para a qual os criadores não estão preparados. “Há uns, como eu, que têm a sorte de trabalhar com gabinetes de imprensa e há outros que não têm e têm de aprender”, constata o designer, “se não aprendes a bem, aprendes a mal. Aprendes com os erros”.

Valentim Quaresma ressalta o papel dos concursos e competições de design, como o International Talent Support, que considera ter sido “uma rampa de lançamento” para projetar o seu trabalho internacionalmente. “É um concurso ótimo”, elogia, acrescentando que incentiva outros designers portugueses a concorrerem. “Há muito poucas candidaturas de Portugal”, lamenta o criador que, apesar de admitir o “imenso trabalho” envolvido em todo o processo, já que “há uma série de requisitos a preencher para se poder concorrer”, reforça que “são concursos que dão dinheiro, o que é ótimo para quem está a começar (ou para quem não está a começar)”.

Outro passo em frente no futuro da joelharia é, sem dúvida, para Valentim Quaresma, o avanço da tecnologia. Seja em termos de confeção, com o recurso a técnicas como a impressão 3D, ou em termos de gestão: “quando eu comecei, nem sequer havia internet nem telemóveis”, observa, “agora, se temos essas ferramentas para trabalhar, é agarrar nelas e fazer”.

Para o futuro da sua própria marca, Valentim Quaresma avista a implementação de mais postos de venda, de forma a fazer crescer ainda mais o seu trabalho: “continuar a trabalhar toda a parte comercial e tentar vender cada vez mais, acho que é esse o caminho”, remata.

Fotografias de Catarina Veiga