Fechado o cartaz na passada segunda-feira, o Vodafone Paredes de Coura 2015 aproxima-se a passos largos e promete, de novo, cimentar a sua posição enquanto festival que é ponto de referência no panorama musical nacional e internacional.

Com uma postura e line-ups que cada vez mais evocam uma dualidade entre artistas afirmados e aqueles que ainda estão à procura de mais visibilidade, o certame nas margens do Rio Tabuão permite aos seus “habitantes” escolher entre a confirmação de amores já cultivados e a descoberta de novas paixões para plantar. Assim, no próximo mês de agosto, será dada aos amantes de Coura a possibilidade de verem nomes fortes como TV on The Radio e, por outro lado, conhecer artistas tão incógnitos quanto o DJ alemão Sascha Funke.

O nosso objetivo é o de nomear alguns concertos de bandas que poderão não ser as primeiras escolhas de muitas pessoas mas que, na nossa opinião, valem a pena ser vistas.

Fuzz

Já é do conhecimento do público que Ty Segall é um dos melhores frontman’s que por aí se “mexem”, compondo e tocando riff’s de guitarra absolutamente magistrais e fazendo uso de uma voz cada vez mais reconhecida no panorama do rock actual. O que menos gente poderá saber é que, “nas horas vagas”, o músico californiano possui este projecto paralelo onde assume em simultâneo o papel de baterista e vocalista. Nos Fuzz é possível identificar muitas das linhas que caracterizam os álbuns do próprio Segall, mas aqui tudo é mais acelerado e violento. Como um murro no estômago.

 

Charles Bradley and His Extraordinaires 

Com a vida marcada pela fatalidade familiar e pelas dificuldades monetárias, Charles Bradley lança o seu primeiro álbum, No Time For Dreaming, aos 63 anos de idade, depois de ter sido descoberto num bar em Brooklyn a fazer covers das performances de James Brown (as semelhanças físicas e sobretudo vocais são inegáveis). Com o segundo álbum, Victim of Love, lançado em 2013, Bradley volta a Portugal depois de um concerto poderoso no Primavera Sound 2014 e assumindo-se como a grande referência da música soul clássica.

 

X-Wife

Que se seja honesto e que ponha o braço no ar quem já não se lembrava dos X-Wife! É natural. A banda, que baseou os seus quatro álbuns num rock simples e num sintetizador desavergonhadamente electrónico, diluiu-se e os seus três elementos acabaram por se dedicar a outros projectos: João Vieira com o seu projecto solitário White Haus, Rui Maia como Mirror People e Fernando Sousa, ao lado de PZ e dos Best Youth. Para além de marcar o regresso dos X-Wife às actuações ao vivo, este concerto atrairá os fãs porque a banda traz consigo o seu mais recente single: Movin’ Up.

Blood Red Shoes

Dupla de bateria e guitarra de Brighton, voz feminina e voz masculina, rock “radio friendly” e refrões que nos entram tão depressa na cabeça como mosquitos em casas de janelas abertas em dias de verão. É esta a fórmula de Laura-Mary Carter e Steven Ansell que em agosto regressam a um país de que gostam e que gosta deles. Para sempre ficarão memórias do concerto electrizante e claustrofóbico que deram no metropolitano de Lisboa por ocasião do Vodafone Mexefest 2012 ou do concerto que deram no Santiago Alquimista, em 2010, quando convidaram o público a subir ao palco para cantar consigo.

 

Mark Lanegan

Depois de dois concertos em salas pequenas no Hard Club do Porto e no Armazém F, em Lisboa, o norte-americano volta a Portugal para, desta vez, mostrar-se num cenário e em condições completamente diferentes. Será interessante verificar como se comportarão a sua voz rouca e a sua música num ambiente ao ar livre e festival. Sendo um antigo membro activo da cena grunge de Seattle com os “seus” Screaming Trees, é quase certo que Lanegan não ligará a estes hipotéticos obstáculos. “He’ll take care of us”.

 

iceage

Repetentes da edição de 2013, os dinamarqueses iceage voltam às margens do Tabuão e com argumentos mais do que relevantes até para quem já os viu da primeira vez. O maior será a apresentação do excelente terceiro disco, Plowing Into The Fields Of Love, lançado no ano passado e onde se regista uma vertical mudança de estilo de um punk hardcore surrealista para um post punk barroco e banhado no excesso a que a banda já nos habituou. Comandado pela muito particular voz de Elias Bender Ronnenfelt, o set dos iceage promete ser um dos momentos mais intensos da edição deste ano.

 

The Soft Moon

 Com um baixo tirado directamente do Peter Hook, dos Joy Division, e com uma atmosfera negra e psicadélica, os The Soft Moon são uma das ofertas mais alucinantes que passarão por Coura este ano. Entre hipnotizantes drones e repetitivos padrões rítmicos, a música do grupo norte-americano é para ser dançada às escuras, com muito strobe e em registo epiléptico. No terceiro álbum, as influências electrónicas escalam e adaptam-se à já gótica sonoridade, pelo que se espera uma certa mutação do teor do espetáculo ao vivo. A insanidade vai com certeza estabelecer-se ao luar pelo recinto do festival.

 

Hinds (fka Deers)

Provenientes de Espanha, as quatro garotas originalmente chamadas Deers tiveram de mudar o seu nome devido a disputas legais. As Hinds (nome que curiosamente designa o feminino de veado) vêm da casta Burger Records (editora discográfica que lançou nomes como The Growlers, Black Lips ou FIDLAR) e reunem muitos dos elementos presentes nas bandas aqui descritas: um surf rock animado, floreado e muito soalheiro. Tendo estado presente na última edição do Vodafone Mexefest ainda enquanto Deers, a banda regressa a Portugal para mais um espetáculo que promete bons passos de dança e uma vibe muito ao estilo da power pop dos anos 60.

 

Gala Drop 

Depois da consagração obtida com o lançamento de II e de espetáculos ao vivo muito bem recebidos, os lisboetas deslocam-se mais a norte e trazem para a paisagem idílica de Paredes de Coura, a sua mescla, também ela muito exótica, de sonoridades quentes e tribais com divagações electrónicas. Na música dos Gala Drop há espaço para tudo: as influências africanas misturam-se com o dub e a música de dança para criar uma ambiência ácida e nocturna que ora faz bater o pé como nos transporta para estados mais contemplativos. Uma das melhores razões para ir abanar o corpo para a pista de dança deste ano.

 

Natalie Prass

Uma das vozes mais doces que vai passar pelo Alto Minho este ano, Natalie Prass é uma cantautora norte-americana que lançou o seu álbum de estreia homónimo este ano e que vem encantar o festival com as suas letras confessionais sobre o amor e suas problemáticas. O que faz dela um dos talentos recentes mais frescos e entusiasmantes do seu género é precisamente a boa disposição que passa pela sua pop colorida e suave, perfeitamente arranjada e ornamentada de belas e contentes secções de cordas e sopros. Há muito groove para ser descoberto na voz desta rapariga. O encontro está marcado para o último dia do festival e alguma nos diz que vai ser um a ter em conta.

Escolhas de Pedro Quirino e André Franco.