O conceito mais inovador de teatro na cidade de Lisboa veio para ficar. Já a caminho da sua 3.ª edição, a Mostra de Teatro Breve em Contentores não para de surpreender. O Espalha-Factos esteve presente na 2.ª edição e hoje mostra-te porque não podes ficar de fora deste evento.

Escondido algures perto da Estação de Santo Amaro, na encantadora zona de Alcântara, está um espaço que atrai qualquer curioso que por lá passe. O Village Underground Lisboa já abana a cena cultural da capital há um ano, mas só há três meses é que o teatro passou a fazer parte do plano. E que plano! A Mostra de Teatro Breve em Contentores é tudo aquilo que esperamos dela: um palco alternativo para teatro alternativo, fora das tradicionais salas de espetáculo, que dá oportunidade a novos criadores e atores de mostrar o que valem (e não é pouco!).

O fundo é, praticamente, idílico: o céu cobre-se de tons rosa, laranja e violeta, o sol põe-se enquanto, no horizonte, avistamos a Ponte 25 de Abril, estendida sobre o estuário do Tejo, neste princípio de noite. Fotografias não conseguiriam capturar aquilo que os nossos olhos têm à sua frente neste momento. O ambiente está no ponto quando somos chamados a reunir-nos, junto à bilheteira do Village Underground Lisboa. A visita está prestes a iniciar-se. Um guia dá-nos algumas indicações práticas antes de subirmos os degraus acima até ao primeiro contentor.

Sim, aqui todo o teatro se faz, se vê e se escuta dentro destes minúsculos contentores (daí cada noite estar dividida em três tours – para que haja espaço, dentro do contentor, para público e artistas em cada sessão). À nossa espera está a primeira peça da noite, A Gaveta, e assim que trespassamos a entrada do contentor, assalta-nos a sensação de que estamos realmente dentro de uma. No centro do contentor está uma espécie de “gaiola”, uma jaula, onde três corpos femininos habitam. À sua frente, um monte de gavetas brancas, fechadas. Nada mais. O espetador é convidado a passar por entre as “grades” da jaula, pelo meio das atrizes, para chegar aos assentos do outro lado do contentor. A princípio, ninguém se atreve. Depois, a timidez é vencida e o público ocupa o seu lugar.

unnamed

A jaula está iluminada por uma única luz, uma lâmpada que as personagens acendem sempre que partilham com o público aquilo que sentem. Estão ali fechadas há algum tempo, mas não sabem como ou quando ali foram parar. A primeira está agarrada às grades, com toda sua força, procurando, desesperada, uma forma de sair. A segunda filosofa sobre o significado da situação em que se encontram. Já não se lembra de muita coisa da sua vida, mas também não tem energia nem vontade de chorar ou revoltar-se por isso. A emoção ficou suspensa com a entrada na gaiola. A terceira está deitada no chão, a chorar.

Ao longo dos 20 minutos em que o público partilha o espaço com as personagens, vai observando a interação entre elas, que, acreditando – ou não – estar mortas, procuram uma gaveta que se abra para poderem sair dali, para poderem seguir em frente. Mas o que fazer quando a única forma de sair de um lugar é sair de dentro de ti e a única forma de sair de dentro de ti é amar?

A Gaveta é uma peça cativante. O texto, de Rui Paixão, pode ser minimalista mas o ambiente e as reflexões em que nos mergulha são, nessa sua forma minimal, intensas. Helena Caldeira, Inês de Morais e Maria Alves, as três jovens que encontramos dentro da gaiola, conferem uma aura própria ao espaço e ao drama da “gaiola”. Um começo intenso para uma noite que ainda estava por trazer muito mais.

Avançando para o segundo contentor, deparamo-nos com um registo bem mais cómico. Absinto segue a descida de Deus, todo-poderoso, à Terra, em fato e óculos escuros, juntamente com um profeta folião que, envergando uma peruca ruiva, vai pregar a palavra do Senhor aos jovens que esperam pelo autocarro na paragem, depois de uma noitada em Santos.

unnamed (1)

Segue-se então uma animada conversa em que o Livro do Apocalipse passa a ser submetido aos juízos e comentários de senso comum – que à luz do que ali se observa, parecem muito menos disparatados que os textos bíblicos – de uma rapariga, acabada de sair da discoteca, que está preocupada com as notícias do iminente fim do chocolate. Mas como tudo está bem quando acaba bem, Deus vai ao encontro da jovem para lhe oferecer mais uma tablete de Kit Kat e assegurar que o chocolate não vai acabar. Afinal, ela não devia acreditar em tudo o que ouve.

Isabel Teles de Menezes consegue, aqui, uma divertida abordagem dos textos bíblicos, que acaba por dizer imenso ao público e ao espaço de Alcântara. Desempenhos não tão fortes por parte dos atores, André Susano, Margarida Vieira e Raquel Veloso, que nem sempre conseguem entregar o desempenho descontraído e confortável que o texto pede.

Seguem-se mais 5 a 10 minutos de intervalo, entre os quais o público pode desfrutar da vista de tirar a respiração, enquanto bebe qualquer coisa na Cafetaria (não um contentor, mas um autocarro desativado da Carris!).

E se os últimos são os primeiros, o melhor ficou mesmo para o fim! A entrada no terceiro contentor leva-nos a 20 minutos de uma espetacularidade inacreditável. Rafael Dias Costa – que transita do, tristemente, já extinto Teatro Rápido – apodera-se do espaço, do texto e da atenção da audiência de uma forma completamente absorvente. Ficamos presos à forma como fala, como se move, como gesticula, como ri maleficamente…

unnamed (2)

Escrever Amor, texto de Laura L. Tomaz, é inteligentíssimo e divertido até dizer chega: Edgar é um pseudoescritor hipster, apaixonado pela sua máquina de escrever, que roubou ao pai. Entre os clichés e episódios anedóticos da sua vida que conta ao espetador, Edgar sucumbe à paixão pela sua fantasia, Basille, a mulher que povoa e incendeia todas as histórias que escreve na sua velha máquina de escrever. Um monólogo que não poderia ser mais cheio. Uma esquizofrenia performativa que só pode resultar tão poderosamente às mãos de um ator como Rafael Dias Costa.

O público levanta-se para aplaudir de pé e congratular, pessoalmente, os atores. Antes que déssemos por isso, a Mostra de Teatro Breve em Contentores acabou. A noite já caiu por inteiro mas toda a gente vai para casa com a satisfação de ter visto arte acontecer ali mesmo, à frente dos seus olhos.

Uma experiência única e, definitivamente intimista, a Mostra de Teatro Breve em Contentores é mesmo qualquer coisa imperdível. E pensar que tudo isto se passa dentro de um pequeno contentor plantado à beira rio… Mágico!

Fotografias de Ruy Malheiro