Pouco tempo depois do primeiro aniversário da morte de João Ribas, os Tara Perdida lançaram o seu novo álbum Luto, no dia 22 de Junho. É uma homenagem ao seu antigo vocalista, agora com Tiago Afonso na voz daquela que é, possivelmente, a maior banda punk em Portugal.

O Espalha-Factos esteve à conversa com Rui Costa (Ruka), guitarrista, sobre como foi trabalhar sem João Ribas e da enorme vontade que os Tara Perdida têm de continuar a fazer música, momentos antes do showcase de apresentação do álbum, na Fnac Colombo.

Espalha-Factos: O que é que vos fez continuar e vos motivou a editar este novo álbum?

Ruka: Bem, quando foi para continuar tivemos que pensar se tínhamos força para isso e se valia a pena, porque naquele momento era uma situação muito difícil e pesada para decidir alguma coisa. Tivemos uma reunião com a Sony, que nos apoiou bastante e nos disse que era impossível a gente acabar. E tivemos com a nossa agência, que é a Just For You, que também nos diz “vocês não podem acabar”. E aí pensámos: então, olha uma maneira de superar esta dor (entre aspas, que não dá para superar) é irmos para a sala de ensaios e criar um disco. E acho que a primeira coisa que descobrimos foi o nome do disco. Então a partir daí o conceito começa-se a criar todo e acaba por ser aquilo que nos salva, entre aspas. É a criação do Luto. Foi totalmente rápido porque era: sai e grava, sai e grava. Sai tudo do coração. Está aí nesse disco.

EF: Como foi escrever e editar um álbum sem o João?

R: Em termos de composição, a gente está a fazer as coisas como sempre fez. É tudo igual. A única coisa que muda ali é não ter o Ribas a cantar. É difícil porque é um amigo, pessoa de longa data e que nos faz muita falta. Então para nós é diferente, mas a vida segue em frente. A composição é feita da mesma forma. Fizemos as coisas exatamente da mesma maneira, desta vez mais rápido porque aconteceu assim. Se eu estou a criar arranjos e eles estão bons, eu não vou mexer mais. Eles já estavam a sair-me por causa da dor.

Entrevista com Ruka

EF: O Tiago foi bem recebido pelos fãs de Tara Perdida?

R: Até agora sim. Como é óbvio, existem muitas cores, ninguém gosta só da mesma cor e ainda bem. Em relação ao Tiago, como cantor, para mim é excelente cantor, tem carisma, tem experiência… Sim, acho que sim, acho que as pessoas estão a recebe-lo bem porque ele canta muito e então, se ele fosse um bocadinho menos, se calhar levava mais porrada. Mas mesmo assim tem levado alguma, o que acho que é positivo – ele levar porrada. No sentido de haver controvérsia à volta das coisas. Ainda bem que há gente que não gosta de nós. E há muita gente que gosta também, porque a vida é isso. Não podemos agradar a toda a gente. Eu costumo dizer que prefiro ter um inimigo inteligente, do que um amigo falso burro. Por isso, gosto muito do Tiago nos Tara Perdida. Acho que ele é o futuro da nossa banda e é uma evolução para nós, em termos de lyrics e a parte da afinação. Ele está sempre a procurar a afinação… Eu tenho que falar daqui para a frente, porque eu se começo a falar para trás é estar a viver o passado. Tenho de o viver, tirar o melhor e seguir em frente.

EF: Sendo uma dedicatória ao João, qual é a mensagem principal de “Luto”?

R: É uma mensagem de motivação. De como chegaremos lá, numa das músicas que acabamos, Vem Daí. A vida não é fácil, mas há sempre solução. Então nós somos uma banda motivadora, com mensagens de motivação, a meter o dedo na ferida quando é preciso. Ainda agora temos uma música que se chama Lista Negra, que é fortíssima: letra é forte, riffs fortes. Uma música com revolta. Mas como a revolta existe, não podemos ignorá-la, por isso está aí também. Estamos orgulhosos de termos o Luto na mão. Luto de “lutar” e luto pelo Ribas. Luto pela vida e luto pela morte.

EF: Pensam que quem vos ouve, e sempre ouviu, se irá rever neste álbum?

R: Eu acho que sim, eu acho que as pessoas vão… Em relação à crítica que temos tido, e também em termos de Facebook e não sei quê… Acho que as pessoas ficaram surpreendidas. De alguma maneira também havia muita gente que achava que passava tudo um bocado muito pelo Ribas e não sei quê… Então Luto vem provar o contrário em relação a isso. Sim, é normal que as pessoas fiquem surpreendidas. Não estavam à espera de algo com tanta qualidade ou… não sei.

EF: Apesar de tudo, mantiveram o vosso espírito punk neste álbum? Ou o Tiago veio influenciar de alguma forma a vossa sonoridade?

R: Não, o Tiago não veio mudar nada. Nem veio mudar, nem nunca vai mudar. E o espírito punk mantem-se até ao fim, isso aí não há hipótese. Posso dar-te três exemplos do espírito punk: O Regresso, Lista Negra, Vem Daí. Essas três não dão hipótese. E Um Dia De Cada Vez também, que é puro Tara Perdida. Por isso, não vamos nunca renegar nada de raiz. O Tiago só nos veio ajudar.

 Showcase de "Luto" na Fnac Colombo

EF: Celebraram 20 anos de carreira este ano. Viam-se aqui, em 1995?

R: Não, impossível, nunca fazia planos para tantos anos, tão longe. Mas uma coisa é certa: sempre acreditámos que ter uma banda é ter uma família. Foi assim que gerimos a nossa carreira. Nunca podíamos quebrar. A gente quando faz um pacto é para o bem e para o mal; não é só para o bem. Sabemos o que é que é o mal, lidamos bem com isso, com a parte má da coisa. Por isso, quando a parte é boa… estamos no céu.

EF: No vosso single, Luta, no refrão ouve-se o verso “Vou querer idealizar até ao fim”. Como idealizam o futuro dos Tara Perdida, daqui para a frente?

R: Como essa própria música diz, a Luta… a Luta é um… A única banda que tocámos ao vivo, enquanto o Ribas era o vocalista, foram os Ramones. Tocámos Blitzkrieg Bop e Wanna Be Sedated durante muito tempo. E então o Ribas deixou-nos um poster dos Ramones antes de morrer. Achei que fazia sentido fazer qualquer coisa alusiva aos Ramones. Então, “oh oh oh” é à Ramones e é para o Ribas também. Por isso, está no Luto. “Idealizar até ao fim” é isso que vamos fazer. O nosso espírito é esse, de motivação. E, como é óbvio, cada pessoa identifica-se com aquilo. Mas aquilo é quase como quem está a dizer “Mas ainda não percebeste? Não desisto.”. O querer idealizar até ao fim. Não quero entender, nem me vou baixar. A luta é assim. “Sinto o  tempo prescrever”; que é ele que se foi embora e a gente começa a ver que… que a gente às vezes esquece-se que a gente morre, não é? Então é isso. É idealizar até ao fim. Até ao fim, sempre. E como a música diz na Até Ao Fim também… que isso é outro campeonato, mais emotivo.

Fotografias de Bárbara Sequeira.