A Culturgest apresentou um novo espetáculo no dia 16 de junho.  Metamorfose III é um espetáculo de dança e multimédia criado por jovens intérpretes, onde luz e som estão já à partida definidos. Sem um conceito certo ou uma direção a seguir, Metamorfose III funciona como uma coletânea de momentos coreográficos independentes e isolados entre si, resultado de um universo de criação partilhada.

Dois fortes focos de luz ofuscam a reduzida plateia. Apesar do espetáculo ser apresentado no Grande Auditório apenas as seis primeiras filas estão destinadas a receber público. Mesmo assim não encheu.

Metamorfose III é um espetáculo que se espera único, mas que sabemos à partida que foi criado por alunos das três áreas que constituem este espetáculo: som, luz e dança. Talvez por isso as expectativas não são altas, talvez por isso a surpresa é grande e muito bem recebida.

O espetáculo é o resultado das oficinas que a Culturgest tem vindo a desenvolver desde 2011. O objectivo é formar jovens e torná-los técnicos capazes e independentes de criar um espetáculo de base sem ser necessário uma supervisão apertada. Em 2011 Metamorfose  foi o resultado da Oficina de Cenografias Moveis, em 2013 surgiu Metamorfose II da Oficina de Criação Multimédia, por fim veio Metamorfose III como resultado da Oficina de Luz, Sonoplastia e Dança.

Contrário ao habitual, neste espetáculo não nasceu primeiro a dança, mas sim os elementos que é costume ver-se como complementares. Metamorfose III prova como a luz e o som podem ser tão ou mais importantes como a dança e o corpo num espetáculo. Em Metamorfose III houve a preocupação de trabalhar as três áreas em simultâneo para que o resultado fosse harmonioso e funcionasse sem problemas. O som foi criado através do corpo dos bailarinos e da expansão espacial das ondas sonoras. Através de processadores de som que transformaram os barulhos do corpo em som de instrumentos, da distorção em tempo real e do efeito de quadrifonia (quatro colunas com som independente para que se aproxime mais à realidade), a sonoplastia de cada espetáculo é única  e irrepetível. A luz foi criada para funcionar com o corpo dos bailarinos, definindo não só o espaço dançável mas também que parte do corpo mover.

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Uma bailarina entra em cena. Tem microfones colados ao corpo para onde fala numa língua que só ela conhece. Os outros bailarinos seguem-se e, afinal, a língua é comum a todos. Agarram-se aos seus pés, falam para a sua barriga – mais do que o movimento o que aqui funciona é o som.

Outro momento muito bem conseguido é desenvolvido por três bailarinos. A cena está escura, há apenas um foco de luz que ilumina o bailarino do plano da frente. Do nada aparecem num plano mais elevado um casal de bailarinos num dueto. O tule que separa estas duas imagens deixa-nos em dúvida se é uma projecção ou imagem em tempo real.

Dois quadrados de luz. Dois bailarinos. Dois corpos. O que um dos quadrados mostra, o outro oculta. Funciona quase como um portal. O que desaparece da luz do quadrado da frente, reaparece no quadrado de trás.P1400346

Uma bailarina que se torna objecto. Uma bola de espelhos humana que não é mais do que um meio de projectar luz e de encher todo o auditório só com os reflexos que produz. O facto deste espetáculo não ter cenografia nem video obriga a que o corpo dos bailarinos ocupem toda a cena e que luz e som se projetem para que ocupem o vazio.

Sete colunas de luz nascem no fundo do palco graças aos efeitos de fumo. É um momento dedicado às três bailarinas. Descem sete tubos de alumínio que além de produzirem umas sombras que causam um efeito visual incrível, são de alumínio e o som que provocam ao baterem umas nas outras obrigou a que fosse integrado na sonoplastia. O último momento fica a cargo dos dois bailarinos que manipulam dois fortes LEDs. Iluminam-se a si, acima de tudo iluminam o espaço enquanto dançam. A simplicidade dos movimentos mas o efeito que causam é espetacular. Houve ainda brincadeira com microfones, círculos de luz, strobe e faixes de luz manipulados no momento por técnicos a darem efeito de scan.

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Não é um espetáculo de excelência, mas pela experiência e idade de quem o construiu não sobram dúvidas de que o futuro do espetáculo de dança em Portugal está assegurado. Cinco bailarinos bem formados, com uma visão estética da dança de influência europeia. Vemos Alain Platel ou Wim Vandekeybus naquele palco e isso enche-nos os olhos e também o coração. Não se trata de cópia, muito menos de plágio, falamos apenas da influência de dois grandes coreógrafos que têm sido vistos como mestres da dança contemporânea.

Em Metamorfose III há o equilíbrio certo entre o não ter medo de não dançar, e dessa forma dar espaço à técnica de luz e de som para brilharem, e o atrevimento de dominar a cena com momentos coreográficos onde as noções de corpo estão mais do que bem definidas. Como os próprios bailarinos afirmam, há uma necessidade de deixar o corpo falar por si só e de se exprimir à sua vontade. O espaço deixado ao improviso planeado é grande e é também esse conceito de transformação constante que faz de Metamorfose III uma peça coreográfica de cariz autêntico. Insisto: há potencial cá, há que acompanhar o trabalho destes jovens, há que ter esperança.

Conceção: Paulo Ramos
Criadores / intérpretes: Alejandra Balboa, Ângelo Cid Neto, Beatriz Dias, José Nuno e Lia Vohlgemuth
Orientação coreográfica: Madalena Xavier Silva e Francisco Pedro
Desenho de luz: Formandos do Workshop de Iluminação Cénica
Orientadores de iluminação:  Paulo Ramos e José Álvaro Correia
Sonoplastia e banda sonora: Formandos do Workshop de Sonorização Cénica
Orientadores de sonoplastia: Ricardo Guerreiro e Rui Dâmaso
Colaboração: Escola Superior de Dança