O palco do Teatro Camões volta a apresentar um clássico: O Pássaro de Fogo. A Companhia Nacional de Bailado aposta numa nova criação do bailado, com coreografia de Fernando Duarte e dramaturgia e encenação de Carlos Pimenta. Ao comando de uma orquestra que toca Stravinski está Joana Carneiro. E se desta vez a novidade é a cenografia e o video mapping de Nuno Maya, o desenho de luz de Cristina Piedade regressa a uma peça da CNB. Se todas estas mãos fazem elevar um pássaro, o Espalha-Factos falou com Fernando Duarte para saber como é coreografar um bailado com mais de cem anos.

A estreia de O Pássaro de Fogo foi a 26 de junho de 1910 no Teatro Nacional da Ópera de Paris, pelos Ballets Russes de Serge Diaghilev. A coreografia foi de Michel Fokine. Diaghilev também convidou Aleksandr Golovin para os cenários e Léon Bakst para os figurinos. Toda esta colaboração foi inspirada por contos tradicionais russos.

105 anos depois, a diretora artística Luísa Taveira propõe a Fernando Duarte que coreografe O Pássaro de Fogo. O coreógrafo confessa que ficou assustado, depressa se lembrou da partitura de Stravinski. “É um compositor por quem eu tenho uma maior admiração e uma das melhores memórias como intérprete, por ter dançado bailados de Stravinski“, revela o coreógrafo. A verdade é que se dançou outros bailados de Stravinski, não dançou O Pássaro de Fogo.

O desafio apresentava-se ainda maior. “Confesso que me tive de familiarizar muito, viajar no tempo, procurá-lo, perceber o porquê e como foi feito”, acrescenta Fernando Duarte. Esta não é a primeira vez que O Pássaro de Fogo está no reportório da CNB. No final dos anos 80, a companhia apresentou uma versão de Brydon Page e em 2006 uma de Uwe Scholz. Contudo, será a primeira de Fernando Duarte.

“Confesso que me tive de familiarizar muito, viajar no tempo, procurá-lo, perceber o porquê e como foi feito” – Fernando Duarte

IS7A8183

A sua experiência a coreografar bailados já conta com Lago dos Cisnes e com Quebra Nozes Quebra Nozes. Esses dois clássicos tiveram bem presentes na sua carreira como bailarino. A procura pelo sentido de O Pássaro de Fogo foi bem mais intensa. O seu grande desafio foi torná-lo cativante, atrativo e perceber como seria o resultado final. Depois de um processo que se iniciou em setembro com reuniões de criação e um trabalho de estúdio que se iniciou no final de abril,  o coreógrafo sente que pode dizer que ouviu O Pássaro de Fogo toda a sua vida.

IS7A8195

“Os bailarinos de hoje em dia não são os bailarinos de 1910 e daí termos de saber trabalhar com a massa que temos hoje em dia na mão”Fernando Duarte

IS7A8194

Fernando Duarte não esteve sozinho nesta nova criação. Carlos Pimenta esteve encarregue da dramaturgia e encenação. A grande novidade vem com a cenografia de Nuno Maya feita com video mapping, que a 270º preenche parte da sala. Mais uma vez, Fernando Duarte vê uma criação sua associada a um cenário não tradicional. A sala do Teatro Camões é invadida pela floresta onde Ivan Tsarevich entra e encontra um Pássaro de Fogo que liberta em troca de ajuda futura. E se há uma chama projetada que faz aparecer o Pássaro, vai haver um árvore que será cenário da dança de treze mulheres, entre elas está  Tsarevna, por quem Ivan se apaixona.

As princesas de 1910 passam a mulheres de 2015. Fernando Duarte assume uma transposição para a atualidade e para um lado mais humano, “um lado mais despido de formalidade e mais íntimo”. Até o malvado Köstchei e as suas criaturas mágicas têm um lado mais contemporâneo, muito complementado pelos figurinos de José António Tenente. O video mapping transporta o espetador até ao ambiente mais escuro e intimista do confronto entre IvanKöstchei na luta por Tsarevna. Um dos objetivos na utilização da projecção era que fosse complemento e não distração. “Se um espetador vem ver um bailado, a história tem de ser contada pelos bailarinos”, afirma Fernando Duarte.

Se foram colocadas algumas inovações nesta versão, o coreógrafo esclarece que O Pássaro de Fogo sempre foi um bailado arrojado, contrastando logo com as três horas que muitos bailados apresentavam na altura. O Pássaro de Fogo nem chega a uma hora e a partitura de Stravinski não é interrompida. A luta entre o bem e o mal, assim como a música são dois factores que fizeram perdurar O Pássaro de Fogo, segundo Fernando Duarte.

Depois há a batuta de Joana Carneiro que dirige a Orquestra Sinfónica Portuguesa. A conjugação entre a música e a dança demonstrou-se ser fácil de acordo com o coreógrafo. A gravação utilizada nos ensaios foi dada à maestrina que adaptou o tempo à orquestra.

O Pássaro de Fogo enfrentou Köstchei e venceu. O ovo da imortalidade do vilão é destruído com uma única pena do Pássaro utilizada por Ivan. Este pássaro que o coreógrafo classifica como contemporâneo, tem como motor a energia dos bailarinos que vestem cada personagem. “Os bailarinos de hoje em dia não são os bailarinos de 1910 e daí termos de saber trabalhar com a massa que temos hoje em dia na mão”, afirma o coreógrafo.

E se o bem sairá vitorioso no final, também Fernando Duarte está satisfeito com a sua nova criação.“Uma obra nunca está terminada, mas estou satisfeito”, demonstra o coreógrafo. Quanto à receção, Fernando Duarte afirma:”Acho que tem ingredientes para surpreender, nem que seja a obra magistral do Stravinski, mas acho que tudo o resto está à altura”.

O voo de O Pássaro de Fogo vai estar pelo Teatro Camões de 18 de junho a 28 de junho.

Vê aqui os elencos:

  • Pássaro de Fogo Solange MeloIvan Tsarevich Dominic WhitbrookKöstchei Andrea BenaTsarevna Inês Moura
    Dia 17 Jun às 21h (Ensaio Geral)
    Dia 19 Jun e 26 Jun às 21h
  • Pássaro de Fogo Filipa de CastroIvan Tsarevich Carlos PinillosKöstchei Frederico GameiroTsarevna Yurina Miura
    Dia 18 (Estreia), 20 Jun, 24 Jun e 27 Jun às 21h
  • Pássaro de Fogo Solange MeloIvan Tsarevich Dominic WhitbrookKöstchei Frederico GameiroTsarevna Inês Moura
    Dia 21 Jun às 16h
  • Pássaro de Fogo: Tatiana GrenkovaIvan Tsarevich: Miguel RamalhoKöstchei: Christian SchwarmTsarevna: Melissa Parsons
    Dia 25 Jun às 21h
    Dia 28 Jun às 16h

Fotografias de Fernando Duarte nos ensaios: Rodrigo de Souza

Fotografias do bailado O Pássaro de FogoBruno Simão