Chega ao fim a quinta temporada da série mais vista no planeta. Mother’s Mercy foi o episódio de encerramento que gerou mais uma onda de reacções e polémicas e aqui no Espalha-Factos fazemos agora uma análise geral de todos os episódios que marcaram mais um capítulo no sangrento caminho para o Trono de Ferro. Cuidado que haverá muitos spoilers para aqueles que ainda não viram os episódios todos da quinta temporada.

O dragão cresce, o lobo continua mutilado, o veado morre e o leão perde completamente a sua força. Novos poderes entram em jogo e começamos a ver um jogo completamente diferente no coração dos sete reinos. A rosa floresce e é agora a casa mais poderosa, a serpente desfere golpes imperdoáveis e os esfolados afirmam-se agora como o grande poder do norte.

Estas trocas de poderes e a ascensão de casas mais pequenas no lugar das ancestrais traçam todo um cenário de tumulto e caos que se vai vivendo em Westeros, mas cada vez mais a série nos vai oferecendo pistas para um facto incontornável: a guerra pelo trono – que se veio a intensificar desde a primeira temporada – é, na verdade, uma história secundária. Agora sim é a vez da história principal tomar lugar, estamos a entrar nos domínios da canção do gelo e fogo e a tensão entre estes dois elementos naturais está a crescer cada vez mais.

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E é este crescer dos elementos fantásticos do universo criado por George R.R. Martin que fez desta a mais fantasiosa das temporadas. É este aumento da tensão entre as forças opostas – o gelo e o fogo – que se assume como um terrível presságio de uma épica guerra que vai transcender tudo o que vimos até agora em GoT. Neste ponto, a série da autoria de David Benioff e Dan Weiss foi bastante eficaz nesta temporada. Há três cenas chave neste conjunto de 10 episódios que traçam esta nova linha narrativa que, a bem dizer, sempre existiu. Desde os primeiros minutos de Game of Thrones que sabemos que as criaturas míticas do gelo estão vivas e que existem dragões do outro lado do Narrow Sea.

Posto isto, há então os três momentos fulcrais para a construção da inevitável e monstruosa guerra que se aproxima: o momento em que Tyrion olha para os céus de Valyria e avista um dragão (sendo que este dragão pode não ser Drogon da Daenerys, o que nos leva a pensar que existe mais destas criaturas míticas na misteriosa terra de Valyria); o momento em que Jon Snow é confrontado com uma das mais épicas batalhas vistas na série até ao momento, Hardhome, onde se confirmou a verdadeira ameaça dos White Walkers aos reinos dos Homens; e finalmente, a irrepreensível cena da Daenerys Targaryen a montar Drogon na grande arena de Mereen.

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Mas a temporada não viveu só destes momentos. Se isto foi o ponto alto narrativo que vai alinhar o tom das futuras temporadas de Game of Thrones, houve vários outros momentos que merecem a nossa atenção. Numa temporada meio atípica em que nada de muito concreto se passa nos primeiros episódios, deu-se, no entanto, um cataclismo de emoções e mudanças radicais a partir do quinto episódio. Se repararem, nenhuma das personagens principais ficou na sua zona de conforto. Todas elas tiveram de se adaptar a novas linhas narrativas que as transcendiam num determinado momento e todas elas foram testadas ao seu mais íntimo medo e receio.

Dany foge de Mereen passadas duas temporadas de lá estar literalmente sentada. Sansa sai do seu ninho – literalmente – para o meio de mais um inferno, desta vez na sua própria casa. Tyrion chega à cidade caótica de Dany, Cersei enclausura-se a si mesma numa cela (levando também Margaery com ela). A Arya chega à lendária cidade de Bravos e à casa do Deus de muitas faces, Jaime embarca numa expedição a Dorne e Jon Snow… bem, ele morre.

De facto, de um ponto de vista narrativo, os fãs não podem, de todo, queixar-se desta quinta temporada. Tivemos grandes desenvolvimentos de todas as frentes de batalha, desde o sul a norte, este a oeste do mundo de George R.R. Martin. No entanto houve as grandes desilusões da temporada, sendo elas a storyline de Dorne e a de Bravos. Para quem leu os livros, as sandsnakes – nome dado às três filhas ilegítimas de Oberyn Martell – eram um tríade cheia de carisma e talento para a arte bélica. No entanto, na série, estas três irmãs entregaram (todas elas) uma fraquíssima representação das personagens do livro.

Parece ter havido alguns problemas de cast e toda a história de Dorne acabou por ser a mais dispensável de toda a temporada, fazendo qualquer fã da série revirar os olhos sempre que éramos transportados para o sul de Westeros ou víamos a cobra dos Martell nos créditos iniciais.

Outro ponto que poderia ter sido melhor trabalhado pela parelha de argumentistas foi a storyline de Arya Stark. Excepto no final da história – neste fatídico último episódio – as cenas que envolviam Bravos pareciam todas elas muito desinspiradas, aborrecidas e desinteressantes face a tudo aquilo que se passava do outro lado do mundo.

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No entanto houve histórias melhor contadas na série da HBO que nos livros. Cersei, por exemplo, entregou um dos melhores momentos de toda a série – nas suas cinco temporadas – naquele literal walk of shame desde o septo de Baelor até à Red Keep. Esta cena, tenho a dizer, foi magistral. Apesar de tudo o que se comenta nos momentos pós-episódio ser o Jon Snow, este para mim foi o verdadeiro grande clímax de todo o season finale. Uma das razões para o fortalecimento desta linha narrativa deveu-se completamente ao trabalho de Lena Headey que entregou a melhor prestação desta quinta temporada. A actriz que dá corpo a Cersei Lannister esteve magnífica a viver talvez dos momentos mais negros da vida da rainha regente que, pela primeira vez desde o início da série, perde totalmente o controlo do poder que se vira contra ela própria.

E é certo que esta foi a temporada que mais fugiu aos livros. Tanto para o bem como para o mal. Temos o exemplo de Sansa que ainda agora deixa muitos com um grande ponto de interrogação na cabeça. A personagem conheceu um destino completamente diferente nesta temporada e tomou o lugar de Jeyne Poole – melhor amiga de Sansa nos tempos de Winterfell e que nos livros se faz passar por Arya para casar com Ramsay Bolton – e viver os seus terrores ao lado da nova mais odiada personagem de GoT. Se por um lado é bom ver Sansa a tornar-se numa mulher perigosa e que sabe jogar a este jogo mortífero dos tronos, por outro ainda não conseguimos perceber bem a intenção dos autores da série ao colocá-la em situações tão limite como violação, violência física e violência psicológica.

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De um modo geral a série revitalizou-se um pouco depois de uma quarta temporada não tão bem conseguida como as anteriores. Os autores da série da HBO tomaram imensos riscos artísticos na exploração desta quinta temporada, riscos que nunca nenhum canal público norte-americano se daria ao luxo de tomar. As cenas de violação contra Sansa Stark foram demasiado arriscadas (mesmo que na minha opinião sejam totalmente justificáveis em termos narrativos) e isso denotou-se pela forte reacção das pessoas nas redes sociais de todo o mundo.

A morte de Shireen Baratheon foi outro momento de puro horror que nenhuma outra produção de televisão se daria ao luxo de reproduzir. Os elementos sonoros desta cena foram de tal modo bem conseguidos – falando tecnicamente – que criou, sem sombra de dúvida, a cena mais chocante que alguma vez vi na televisão.

A batalha de Hardhome, para acabar, também foi um risco bastante grande por parte dos autores. A cena nos livros é contada na terceira pessoa, sendo que o leitor nunca é transportado para o campo de batalha. Ora, inventar uma cena deste calibre numa versão adaptada é um trabalho bastante árduo, o que só comprova a qualidade de escrita que Game of Thrones oferece todos os anos aos seus espectadores (venha o geek de livro que vier, os autores da série não são maus escritores e isso é certo).

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Posto isto, para o ano estaremos cá novamente para ver mais dez episódios de pura adrenalina num dos mais memoráveis espectáculos televisivos de sempre. E não chorem muito com o último episódio, lá no fundo todos sabemos que Jon Snow voltará, basta só saber se em versão gelo ou fogo. Valar Morghulis!

 Classificação geral: 8/10

* Por opção do autor, este artigo foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945