O nome hoje apresentado é frequentemente citado como uma das personalidades mais literatas e cultivadas da cultura contemporânea portuguesa, bem como um indiscutível veterano artístico cuja carreira abraça já cinco décadas. Conhecido também por ser uma figura reservada e séria, geralmente sucinta nas respostas que dá, é o universo de Luis Miguel Cintra que dá o mote para a décima jornada do Boca de Cena.

Embora a sua influência enquanto intérprete e mente criativa se estenda pelo cinema, a literatura, a poesia, a escrita e até o canto, os 66 anos de Luis Miguel Cintra deixaram a sua pegada angular no seu percurso pelo teatro, onde desde cedo o actor e encenador escreveu o seu nome na História com a fundação do Teatro da Cornucópia, com Jorge Silva Melo. Desde então, seguiram-se dezenas e dezenas de produções, internacionalizações, prémios e avalos que constituem uma carreira constante e prolífera.

Comecemos por isso, do início. Nasce em Madrid em 1949, pormenor que acabará por se manifestar de uma forma ou outra no seu trabalho, através do apreço que guarda por alguns autores espanhóis como Federico Garcia Lorca. Sendo filho de um filólogo, em 1966 ingressa no Curso de Filologia Românica da Faculdade Letras de Lisboa. Esta instituição foi particularmente importante para o seu percurso devido ao Grupo de Teatro de Letras, onde ingressou em 1968 e conviveu com personalidades como Deana Barroqueiro, Luís Lima Barreto e claro, Jorge Silva Melo. Foi neste mesmo grupo que encenou Anfitrião, peça escrita por António José da Silva, e pela qual recebeu o prémio especial Casa da Imprensa.

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Como Camões em O Velho do Restelo, de Manoel de Oliveira (2014)

Mais tarde, no virar da década seguinte, funda o Grupo de Teatro do Ateneu Cooperativo e encena mais um espetáculo: desta feita, uma adaptação de 3 Entremeses do espanhol Cervantes. Nesse mesmo ano de 1970 e até 1972 vai frequentar um curso técnico e de representação para a Bristol Old Vic Theatre School como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1973, com 24 anos figurava como professor de interpretação na Escola de Teatro do Conservatório Nacional. Nesse mesmo ano, ele e Silva Melo fundam aquilo que viria a ser uma das instituições culturais mais reconhecíveis da contemporaneidade.

Nasce então a Cornucópia e uma história que já é bem conhecida: um novo género de teatro, claramente vanguardista e atento às mutações da sociedade chega a Portugal, juntamente com autores ora basilares, ora progressistas que pintaram o extenso e bem alimentado currículo deste grupo de teatro, onde Cintra foi e continua a ser proeminente, dirigindo e participando no elenco de praticamente todas as suas criações. Os anos 70 de Cintra na Cornucópia foram passados em intensa actividade teatral, criando espectáculos e adaptações de autores como Lorca, Sófocles, Brecht, Goethe, Gorki, entre outros. Foi neste grupo de teatro que Cintra se afirmou como autor e encenador, nomeadamente em trabalhos como O Misantropo, Pequenos Burgueses e Terror e Miséria do III Reich.

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Com Ela, Cintra ganha o Prémio SPA de Melhor Actor de Teatro em 2012

Sempre ligado aos palcos, de uma ou outra forma, incluindo a fazer críticas de teatro para O Tempo e o Modo, Luis Miguel Cintra vai usar os anos 80 para se expandir: começa a figurar em vários filmes que mais tarde seria viriam a tornar clássicos incontornáveis da qualidade do cinema luso, como A Ilha dos Amores, de Paulo Rocha, Le Soulier de Satin, de Manoel de Oliveira e Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro. A sua breve mas memorável aparição neste último título é frequentemente lembrada como um dos seus momentos mais icónicos.

É também altura de percursos no estrangeiro: em 1984 apresenta-se com o seu grupo no Festival de Teatro da Bienal de Veneza. Mais tarde, em 1988, encenou com Maria de Medeiros, La Mort du Prince et Autres Fragments, de Fernando Pessoa para o Festival de Avignon e que no ano seguinte figurou no Festival de Outono em Paris. Um pouco mais à frente, em 1997, é dirigido por Brigite Jacques em Paris, na peça Sertório, de Corneille no Théâtre de la Commune-Pandora.

Reconhecido amante das altas artes, Luis Miguel Cintra também explorou o universo musical. Foi recitante no coro do Teatro Nacional S. Carlos, com quem colaborou em Moralities, de Hans Werner Henze. Em colaboração também com o coro da Gulbenkian, a parceira Cintra-S. Carlos também ergueu trabalhos como um recital de melodramas de Shubert, Lizt, Satie e Poulenc. Ainda no S. Carlos, encenou várias óperas como As Bodas de Figaro, de Mozart (1988), Le Infant et les Sortiléges, de Ravel (1987), e Dido e Eneias, de Purcell (1987).

O currículo é vastíssimo, a sua presença, incrivelmente assídua. Ao longo das décadas é possível ver Luis Miguel Cintra em praticamente todos os meios culturais, onde deixa a sua marca distintamente séria e dedicada. Para além do teatro, do cinema e da ópera, é necessário falar da recitação de poesia, cuja voz já levou à vida poemas de Fernando Pessoa, Herberto Helder e Sophia de Mello Breyner. Nos últimos anos, é necessário destacar alguns trabalhos como uma encenação de Comédia sin Titulo, de Garcia Lorca, no Teatro de la Abadia, em Madrid (2005), a participação em filmes como The Dancer Upstairs, de John Malkovich e O Principio da Incerteza, de Manoel de Oliveira, em 2000 e 2002, respectivamente.

Actualmente, é possível encontrar Luis Miguel Cintra com a sua Cornucópia, onde tem encenado e participado em vários espectáculos que seguem uma nova direcção, utilizando elencos extensos, quase integralmente constituído por actores amadores e estudantes de representação e consistindo, por vezes, em colagens de sonetos, peças e escritos de várias autores, como uma forma de responder às austeridades e ao sufoco económico que têm avassalado os orçamentos para as artes lusas. Discreto mas intensamente trabalhador, Luis Miguel Cintra quase que pode ser considerado um operário cultural e acima de tudo, é sem dúvida um dos grande intérpretes em Portugal.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.