Ratos e Homens (Of Mice and Men), escrito em 1937, é um dos mais importantes romances de Steinbeck e uma obra-prima da literatura realista.

Este livro narra a história de George Milton e Lennie Small, dois “pobres diabos” em constante busca de um sonho, constantemente presente e repetido. George é inteligente, mas não tem um físico capaz de trabalhos duros. O segundo, Lennie, é um “grandalhão desmiolado”. Embora nunca seja especificado qual o seu problema, a dependência de George, o facto de se esquecer de quase tudo e a sua obsessão por tocar no que é macio adivinham uma deficiência cognitiva.

Tudo começa quando, depois de Lennie se ter envolvido numa confusão com uma mulher no seu antigo local de trabalho (ao agarrá-la para tocar o seu macio casaco de veludo), os dois companheiros se vêm obrigados a arranjar um novo emprego. Chegam a esta herdade, onde conhecem Candy, um velho com um cão quase tão velho quanto ele; Crooks, um negro com as costas partidas; Curley, o filho intriguista do patrão – que tem por adversários de luta preferidos aqueles que são maiores que ele; e a nora do patrão, esposa de Curley, mulher que aparece inesperadamente e que provoca os trabalhadores por se sentir infeliz no seu casamento.

A estadia dos amigos nesta propriedade é marcada pela tentativa de discrição, já que George só pretende amealhar algum dinheiro para poderem realizar o seu sonho. Este sonho, constantemente repetido e partilhado com Lennie, é quase como um alento para ele e para si próprio. A certa altura, o leitor já decorou os pormenores e as expressões usadas – um pedaço de terra com uma casa e alguns animais, onde poderão viver à “tripa-forra“, sem dar justificações a ninguém. Lennie trataria dos coelhos – que são, afinal, a única coisa que lhe importa em todo este sonho.

Com o rigor aprimorado da linguagem realista de Steinbeck, as suas metáforas e adjetivos pouco comuns, vamo-nos inteirando do cenário rústico e pobre da propriedade, do duro trabalho a carregar cevada, da miséria e das “tarimbas” (camas dos trabalhadores), sujas e infestadas.

Neste pequeno mas brilhante romance, há ainda espaço para serem tratados temas polémicos como o racismo e a desigualdade de géneros. Crooks, por exemplo, sabe o poder que todos têm sobre ele, sabe que o podem mandar matar quando assim quiserem. Não se sente digno de entrar nos quartos dos outros trabalhadores, mas também não os admite no seu quarto. Sabe aquilo a que tem direito e aquilo a que não tem. É protagonista de um diálogo bastante interessante com Lennie, (o primeiro trabalhador a entrar no seu quarto) acerca de ninguém o levar a sério e da solidão que o rodeia.

“Os livros não servem. Um homem precisa de alguém, alguém que esteja perto. Uma pessoa fica louca quando não tem ninguém. Não importa quem seja o outro, desde que esteja acompanhada. Eu digo-te – gritou-lhe – eu digo-te que uma pessoa se sente tão só que até fica doente.”

Já a mulher de Curley, que pode começar por ser encarada como intrometida, infiel e desrespeitosa para com o marido, acaba por se revelar uma personagem solitária e que busca atenção noutros homens, procurando alguém que a olhe como igual, que perceba que ela quer e sabe conversar, que reconheça que ela vale para mais do que somente estar fechada em casa com um marido que não gosta.

O autor atenta em sons como o restolhar de folhas, os passos sobre o feno, os rapazes que jogam, até o silêncio. Estes indícios trágicos servem como adivinhação do Destino, daquilo que “antes de ser já o era”. ´É por isso que, desde o início, percebemos que George e Lennie, esta dupla improvável, não terá o final desejado – não fosse este um romance realista.

Tudo acaba como começa. George reconfortando o pequeno grande Lennie, que só faz disparates e o mete em alhadas. Embora tudo isto seja verdade e ambos o reconheçam, não se abandonam. É improvável ver dois companheiros a viajarem sozinhos, e é por isso que eles se consideram diferentes. Consideram que têm alguém, que não estão sozinhos no mundo. O seu final leva à reflexão – sobre a fidelidade, a amizade e o valor da vida humana.

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Nota: 9/10

Título original: Of Mice and Men
AutorJohn Steinbeck
Editora: Livros do Brasil
Ano de lançamento desta edição: 2014
Número de Páginas: 104