apsarases

Apsarases: a capoeiragem portuguesa de Gustavo Oliveira

Nesta edição de Apsarases, damos destaque ao trabalho e à carreira de um bailarino português que encontrou a paixão e a sua vocação para a dança nas favelas brasileiras em Recife, onde nasceu. O seu nome é Gustavo Oliveira Santos, bailarino aclamado pela crítica e pelos seus pares – os de palco e não só – e aplaudido de pé por públicos de qualquer parte do mundo.

Nascido em Recife no ano de 1982, foi com apenas três anos que começou a ouvir música popular brasileira e a mergulhar no mundo da percussão e do ritmo. Com cinco anos, Gustavo começa a sua formação na arte da dança, ingressando no Centro Cultural Daruê Malungo, grupo comunitário em Chão de Estrelas. Foi aí, nesse espaço e com essa família de pessoas que também nasceu com o samba no pé e a capoeira no resto do corpo, que deu os primeiros passos na experiência da dança popular e dança afro brasileira. A paixão foi crescendo e tornou-se num estilo de vida e num importante ganha-pão.

Por ter começado muito cedo o seu percurso artístico, também desde muito cedo que Gustavo Oliveira se tornou professor de dança popular e de percussão – com os instrumentos que aprendeu a fazer – formando bailarinos, capoeiristas e ritmistas adolescentes. Mais tarde, em 1997, começou a sua formação em dança clássica e contemporânea no Grupo Experimental de Dança, com a qual fazia espetáculos.

Em 2000, lecionou dança clássica num projeto infanto-juvenil no bairro dos Coelhos no Recife. Também dançou a coreografia Oscillate que Jorge Garcia, do Ballet da Cidade de São Paulo, coreografou para si e que foi premiada com o 1º lugar na seleção de solos e duetos no 5º Festival de Dança de Recife. Em junho de 2001, participou, com o Grupo Experimental, no XIII Festival Internacional de Lima/Danza Nueva, onde dançou e lecionou uma oficina de dança contemporânea.

Ainda com 19 anos, foi pela mão de Vasco Wellenkamp que Gustavo apanhou um avião para Portugal para a experiência de poucos meses que a recém fundada Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC) lhe oferecia. Com a família no Brasil, teve de ultrapassar um difícil período de transição que segundo o bailarino o fez crescer e amadurecer muito como homem e artista. Foi em Portugal que conseguiu afirmar-se verdadeiramente como artista, com o ritmo e o balanço da capoeira que trouxe na bagagem.

Também em Portugal, Gustavo conheceu Patrícia Henriques, bailarina da CPBC que, além de partilhar consigo um casamento, também partilhou o top dos melhores bailarinos de todo o mundo, na temporada de 2010/2011. Além disso, Gustavo e Patrícia partilham ainda aquele que já foi considerado um dos melhores duetos contemporâneos, ao som do Barco Negro de Amália Rodrigues, o dueto que podes ver aqui, inserido no bailado AmarAmália, tem emocionado públicos de vários pontos do globo, tendo merecido destaque no New York Times, em 2004. Desde cedo que o casal mostrou ser o pilar fundamental da companhia criada em 1997.

Gustavo Oliveira foi ainda distinguido, em outubro de 2007, como “Outstanding male dancer”, na revista Dance Europe.

Contudo, e apesar de todos os prémios e reconhecimento, o bailarino da CPBC não desiste de continuar a trabalhar para a sua evolução, tentando absorver e a aprender com tudo o que lhe for útil e com as pessoas. Foi uma das coisas que aprendeu com a falecida bailarina do Ballet Gulbenkian, Graça Barroso, pessoa que talvez tenha sido a mais importante no seu crescimento. Essa procura da evolução como artista é uma obsessão saudável que o torna um teimoso na defesa e aperfeiçoamento da sua vocação, sempre muito eclética e com fundamentação física e intelectual noutras artes e noutros ofícios, alguns que à primeira vista nem teria muito a ver com a realidade da dança.

Com 32 anos, quase a fazer os 33, a carreira e a vida de Gustavo Oliveira já podem ser consideradas longas e muito preenchidas, desde muito pequeno, quando percebeu o quão saborosa podia ser dança e os seus movimentos mesmo no meio da pobreza, da miséria e da fome da favela.

O bailarino português tem trabalhado e estudado desde sempre para estar entre os melhores e com os melhores. Já conseguiu mas não é por isso que se vai sentir satisfeito. Não se contenta com pouco, e isso é normal. Há quem tenha talento, há quem tenha genialidade e há quem tenha força. A capoeiragem deste português com sotaque consegue ter isso tudo e consagra-o como um dos melhores bailarinos contemporâneos deste século. Qualquer palco o poderá confirmar.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Em Família
‘Em Família’. Programa da TVI interrompido depois de “faltar a luz”