A sedução entre bailarinos de tango argentino acompanhada pela orquestra Ojos de Tango aqueceu a Voz do Operário no 3.º dia do Festival Internacional de Tango de Lisboa. O espetáculo Puro Tango trouxe a palcos portugueses a essência do tango argentino. Esta foi uma noite que só acabou quando o sol permitiu que se dançasse o último tango. 

Pela 13.ª vez, Lisboa recebeu o tango argentino no reconhecido Festival Internacional de Tango de Lisboa. Num salão preenchido por luzes da cor da sedução, a concertina da orquestra Ojos de Tango abriu a pista de dança,  por enquanto em palco. Walter, El Chino Laborde foi a voz que encheu a sala.

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Quanto aos bailarinos, foram surgindo a pares. Diferentes pelos figurinos e pela sequência do tango foram escolhidos a dedo. Sebastian Achaval e Roxana SuarezAlejandra Mantiñan e Aoniken Quiroga, Ariadna Naveira e Fernando SanchezMariano Otero e Alejandra HerediaFausto CarpinoStephanie Fesneau são reconhecidos intérpretes deste ritmo tão sedutor.

Mas porquê um festival de tango argentino num país onde se canta o fado? Augusto Fragoso, um dos organizadores do evento, explica que tudo começou quando souberam [Lusitango] da existência de um festival de tango em Madrid. “Achamos que Lisboa tinha condições para ter um festival por ter a mesma forma de sentir, por serem ambas cidades portenhas como Buenos Aires”, acrescenta o organizador. Tal como o fado, que se vive nas entranhas de Lisboa, o tango nasceu das ruas da cidade para as zonas ricas.

2003 foi o ano do início. A Voz do Operário só começou a ser a casa do festival na terceira edição. Este espaço foi encontrado com o crescimento do festival. O piso, o salão ou a forma do salão foram algumas das características da escolha, como nos conta Augusto Fragoso. Agora, esta casa acolhe amantes de tango de todas as partes do mundo num festival com visibilidade lá fora. Todos os anos o festival recebe cerca de 400 apaixonados, vindos da Rússia, Austrália, China, Itália, França ou de Espanha. Também todos os amantes de tango portugueses acabam por visitar o festival.

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Os bailarinos internacionais são um dos grandes trunfos do evento. Esta foi a noite em que brilharam em palco. Alguns nomes são sonantes para quem acompanha atentamente os passos do tango. Alejandra Mantiñan foi uma das primeiras bailarinas do Tango Pasión e esteve no palco da Voz do Operário. Num ritmo mais compassado, mais acelerado, todos os bailarinos entregaram o seu corazón ao seu parceiro.

O que será preciso para se dançar o tango? “Duas pernas, um ouvido, ou dois, de preferência, um sentimento de musicalidade e capacidade de interpretar a música”- Augusto Fragoso

Mas será o tango apenas para quem sabe dançar? Não! O que será preciso para se dançar o tango? “Duas pernas, um ouvido, ou dois, de preferência, um sentimento de musicalidade e capacidade de interpretar a música. Se tivermos isso não é preciso mais nada. E um parceiro ou uma parceira, porque são precisos dois para se dançar o tango”, esclarece-nos Augusto Fragoso. E esqueçam a rosa. “A essência do tango passa pouco por flores, embora existam alguns floreados na realidade”, para quem pensava que a rosa na boca era uma das formas de fazer sucesso no tango, está completamente enganado. Rudolfo Valentino foi o grande responsável por esta moda que se tornou viral com a enorme difusão do cinema.

Para quem quisesse ter uma primeira oportunidade com o tango, o festival organizou aulas de Primeiros Passos. Todos os dias gratuitamente houve uma primeira viagem no tango.

temos pouquíssimos ou nenhuns apoios, apesar de termos um grande evento e de trazermos todos os anos várias centenas de pessoas a Lisboa” – Augusto Fragoso

A esta hora, ainda nem terminou o festival já se pensa na 14.ª edição. O cast e as datas são preocupações que devem ficar resolvidas o mais depressa possível. Mas se o sucesso do festival dita a próxima edição, Augusto Fragoso esclarece que os apoios não têm sido muitos:”temos pouquíssimos ou nenhuns apoios, apesar de termos um grande evento e de trazermos todos os anos várias centenas de pessoas a Lisboa que vem ao festival de todas as partes do mundo. As entidades oficiais não nos apoiam nem nos ajudam, nem nos procuram. A complexidade que envolve procurá-las é tão grande que se conseguirmos outras formas de obter alguma sustentabilidade no festival, preferimos essas formas.” 

Por enquanto, vive-se o tango como se estivéssemos nas ruas de Buenos Aires e se nelas apenas o ritmo e a paixão fossem permitidos. Depois das atuações dos profissionais, afastam-se as mesas que compuseram a sala. A pista de dança está entregue a quem tenha no tango uma paixão. A Milonga vai iniciar-se!

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Um parceiro, fluir no chão e ter a noção dos outros pares são o que de mais básico há para se dançar na Milonga. Depois, é deixar ir o corpo, sem coreografia, sem tempo, apenas se termina quando o ritmo for informado que o sol está a chegar. É hora de ir dançar outros tangos!

Fotografias de Ana Margarida Almeida