A 2ª edição do festival de cinema feminino Olhares do Mediterrâneo arrancou ontem, com dois filmes que abordam questões políticas e religiosas do país que os lançou. Villa Touma, uma realização apátrida mas com raízes palestinianas, e For Those Who Can Tell No Tales, da Bósnia e Herzegovina.

Villa Touma, de Suha Arraf (2014)

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A chegada de Badia (Maria Zreik) a casa das três tias na cidade de Ramallah, durante a Segunda Intifada, suporta o ponto de partida para a caracterização do quotidiano de uma família que habita numa zona de conflito. Orfã, e nascida de um casamento entre um cristão e uma muçulmana não aceite pela família, a estadia de Badia provoca uma série de revelações que explicam a infelicidade das residentes da casa. As perdas amorosas das três tias, a contínua tentativa de se manterem ao nível social burguês apesar dos meios económicos insuficientes, e a permanente negação e exílio da realidade exterior às quatro paredes.

Mais do que uma caracterização da vida desta família, Villa Touma consegue reproduzir, sem efetivamente o fazer, a realidade que persiste na zona de confronto palestiniana ocupada por Israel. Apesar do filme ser maioritariamente gravado em cenas no interior da casa, as passagens pelas ruas de Ramallah acabam por dar um certo valor político ao filme, ao não deixar de dar importância ao que se passa exteriormente à família, mesmo que a própria não o faça.

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Sendo esta a primeira longa-metragem de Suha Arraf, a realizadora parece ter-se lançado – e bem – para assuntos ainda pouco explorados da cultura palestiniana, nomeadamente, a de famílias burguesas e o preconceito entre religiões. A realizadora acaba por espelhar uma população alheia a esta realidade e que vive em negação sobre assuntos de cariz político que, tal como o próprio filme, acaba por ser apátrida.

7/10

A realizadora:

suha arrafSuha Arraf nasceu na Palestina e iniciou a sua carreira como realizadora de documentários. O último, Women of Hamas (Nashot ha’chamas no original), ganhou 13 prémios em festivais de cinema internacionais. Villa Touma, a sua primeira longa-metragem, esteve em competição na última edição do Festival de Cinema Internacional de Venice, na Film Critic’s Week. The Lemon Tree, realizado por Eran Riklis, com o argumento de Arraf, recebeu o prémio de Melhor Argumento no Asia Pacific Screen Awards e foi ainda nomeado para Melhor Argumento no European Film Academy Awards.

 

For Those Who Can Tell No Tales, de Jasmila Zbanic (2013)

for those who can tell no tales

O filme oficial de abertura, For Those Who Can Tell No Tales, desvenda assuntos políticos da história do país de origem. A protagonista, e também argumentista da obra, Kym Vercoe, é uma turista australiana de visita à cidade de Visegrad, na Bósnia e Herzegovina. Depois de passar algum tempo pela cidade durante o Verão, decide voltar durante o Inverno, após descobrir que esteve hospedada num hotel, “casa” de massacres no Genocídio de Visegrad, durante a guerra da Bósnia.

Se durante a primeira visita ao país, o plano mantém-se focado em Kym, quando regressa pela segunda vez, parecem ser as paisagens, a cidade de Visegrad e a história por detrás dela os protagonistas do filme. Também Kym parece evoluir na segunda vez que a vemos em Visegrad, quando o medo e o horror pelos acontecimentos que ocorreram nos locais que visita, suprimem as emoções que a levaram ao mesmo destino inicialmente. Inicialmente uma turista comum, Kym transforma-se numa turista mórbida e revoltada, à procura de respostas para as questões que a impedem de ficar no seu país. São as lentes da câmara que usa como diário que a protegem da cidade e da realidade que parece alheia a todos, menos à própria.

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Um filme realizado em memória dos que já não podem contar histórias, especialmente, para os que já não podem contar a sua. Mais uma vez, trata-se também de um filme focado no comportamento da população durante um confronto. A conclusão é a mesma: “ignorance is bliss” (a ignorância é uma virtude).

6/10

A realizadora:

Natural de Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, Jasmila Zbanic estreia-se no papel de realizadora com o documentário Made in Sarajevo, em 1998. Com Filha da Guerra (2006) recebeu três prémios no Festival Internacional de Berlim, incluindo o Urso de Ouro (na fotografia), além de outros quatro prémios em festivais internacionais. For Those Who Can Tell No Tales foi nomeado para diferentes festivais internacionais, incluindo o Festival Internacional Abu Dhabi.

 

Olhares do Mediterrâneo – Cinema no Feminino está no Cinema São Jorge até ao próximo dia 7 (domingo). Para consultar a programação completa do festival, consultar a página oficial.