De promessas não vivem os fãs. Não há volta a dar: o sucesso de uma banda só é consumado quando atingidos padrões de qualidade estipulados. No caso, de acordo com as origens, o trabalho desenvolvido e as expectativas criadas. Drones, o sétimo álbum de estúdio dos britânicos Muse, é o resultado de um processo de aprendizagem musical, de um entrosamento de estilos e consolidação a nível de composição e planeamento. É uma nova história – e que vem superar todas e quaisquer expectativas.

Por que não começar pelo fim? Drones, a faixa que dá nome ao álbum, encerra o trabalho de estúdio de forma peculiar, talvez até irónica e revolucionária. É o culminar de todo o (novo) processo de afirmação do estilo mais natural que há em Matthew Bellamy, Dominic Howard, Christopher Wolstenholme e no qual a aposta num coro –o já habitual coro mas desta feita num contexto totalmente diferente – se revela certeira. ‘Amen’, ouve-se no final. Como é dito, não há perda que se anule; os tempos mudaram.

Drones, agora o álbum, é um poema à nova era. Às máquinas que se apoderam da população, aos seres que se deixam apoderar pelas máquinas e àqueles que partem. É inevitável a associação de algumas estrofes à conhecida quebra de relação com Kate Hudson (“Do you have no soul?/ It’s like it died years ago”) mas é com afirmações como “Kill by remote” que este concept álbum desenvolve a história de um soldado abandonado de qualquer sensação de esperança e transformado numa máquina de matança livre de quaisquer julgamentos e conceitos éticos. As letras refletem a nova era, o ar dos tempos, e a sua evolução até à revolta.

Ficar por aqui seria, no entanto, ‘saber a pouco’. Escrever e cantar “I have been programmed to obey/I will execute your demands” não seria suficiente. Seria ‘só’ mais um álbum. Então, por que razão é Drones “o” álbum? Porque juntas, as doze faixas compõem uma crítica de dimensões socio-políticas – uma verdadeira luta à lavagem cerebral e às máquinas que querem assumir o controlo perante o ser humano – enquanto dão a redescobrir a banda que há vinte anos se formava. Drones é o revelar de todas as experiências das últimas duas décadas; é a consolidação de toda uma aprendizagem e de todos os estilos.

Ora vejamos: a revolucionária e quase chocante Psycho é suave e disfarçadamente atenuada por Mercy, um apelo à mudança, um “não” ao controlo. É um grito pela liberdade, pela misericórdia. “Show me Mercy” é o apelo feito aqui e um pouco ao longo de todo o álbum. Se aqui o marionetista controla o espectáculo, em Reapers surgem algumas das estrofes mais ‘progressivas’ da banda onde, claro, não poderia faltar um grande e tão característico solo de guitarra. Afinal, estamos a falar da junção de todas as propriedades, de todos os instrumentos que pelas mãos de Bellamy já passaram. E com eles “vêm os Drones!”, continuam a afirmar.

Voltamos à história: em Revolt, a oitava faixa, dá-se a reviravolta. É possível fazer do mundo aquilo que se quer (“make this world what they want”) até que, nas faixas seguintes, é reencontrada a esperança, o rumo, a luz. E que luz: Revolt e Aftermath são introduções perfeitas a The Globalist, que quebra todas e quaisquer expectativas ao ser o expoente máximo, o afirmar de um grande regresso. São histórias de uma banda condensadas em dez minutos. São Muse no seu estado puro, com todas as suas características — solos de guitarra, piano, suspense e solidez. É, agora sim, o afirmar de um regresso.

Se se pode fazer deste mundo aquilo que se quer? Pode, pois. Revolt di-lo e Drones, o álbum, comprova-o. Regressados às ‘bancas’ ao cabo de três anos, os Muse mostram-no. Fazem-no como querem e como sabem: com a sua música. Voltaram a superar as expectativas e estão lançados. A parar, apenas por vontade própria.

Drones (2015):
1. Dead Inside
2. [Drill Sergeant]
3. Psycho
4. Mercy
5. Reapers
6. The Handler
7. [JFK]
8. Defector
9. Revolt
10. Aftermath
11. The Globalist
12. Drones

Nota: 9/10