O movimento pode ser uma forma de procurarmos a nossa zona de conforto, um lugar onde o nosso corpo se sinta em casa. Através da dança contemporânea, Luís Marrafa propõe ao público que observe o que se dança em palco e que reflita. Para isso, faz-se acompanhar por Petra Van Gompel, António Cabrita, Marcia Liu e São Castro, num espetáculo que estreia dia 5 e 6 de junho na Culturgest, às 21h30. 

O palco está vazio. Apenas a luz incide sobre ele. Mas não por muito tempo. Cinco bailarinos vão preencher o vazio com movimento. Aliás, o movimento é a essência de Home, a nova criação de Luís MarrafaPetra Van Gompel, António Cabrita, Marcia Liu e São Castro juntam-se ao coreógrafo para dançarem sobre a nossa adaptação à mudança e ao que a vida nos vai revelando.

Podemos dizer que Home começou muito antes da Residência Artística que Luís Marrafa fez em 2014, no Espaço do Tempo, e que iniciou o processo de criação de Home. Esta peça surge pelas várias experiências que o bailarino e coreógrafo teve de fazer ao longo da sua vida e que ainda o fazem questionar-se.“Na verdade é pela minha vivência, como eu estive em tantos sítios e vivi em vários sítios, eu sinto-me um pouco nómada”, revela Luís Marrafa.

“Agora neste momento estou bem, estou confortável, na minha zona de conforto, sinto-me bem, mas às vezes penso: ‘pronto, onde é que será?'” – Luís Marrafa

 Luís Marrafa nasceu na Alemanha em 1974 e em 1984 chega a Évora. Durante 10 anos adaptou-se a um sistema, que mudou completamente quando chega à cidade alentejana. Mas não ficou por aqui, estudou em Lisboa, esteve em Londres e desde há sete anos que vive em Bruxelas. “É engraçado que estas fases todas me fizeram pensar e refletir um pouco. Como também tenho 40 anos e às vezes fico a pensar: ‘será que eu quero ficar aqui?’ Agora neste momento estou bem, estou confortável, na minha zona de conforto, sinto-me bem, mas às vezes penso: ‘pronto, onde é que será?'”, questiona-se o coreógrafo.

Até o grupo de trabalho tem bailarinos distintos e isso é notório ao longo da peça. Há um trio que troca movimentos e está numa zona de conforto, são Luís Marrafa, São Castro e António Cabrita. Os três bailarinos são portugueses e têm essa gestualidade própria que é passada para Home. Luís Marrafa quis mesmo explorar isso: “Nota-se bem. Eu sinto isso. Acho que aqui é notável a distância das pessoas e a intenção do movimento.”

Depois, há um solo de Petra Van Gompel com quedas e mudanças de direção, a bailarina é belga e o seu movimento, sendo mais frio que o dos intérpretes do trio, está mais perto do que o de Marcia Liu que é chinesa. A bailarina foi aluna de Luís Marrafa em Bruxelas. Depois, ao longo do espetáculo, todos se juntam, quer seja em olhares, toques ou semelhanças no movimento.

Aliás, todos os bailarinos têm uma ligação a Luís Marrafa. António Cabrita já tinha trabalhado com Luís Marrafa em outros projetos e foi um dos bailarinos que esteve em 2014, na Residência Artística, com o coreógrafo. E foi António Cabrita que apresentou São Castro a Luís Marrafa. Quanto a Petra Van Gompel, é co-fundadora da companhia Marrafa vzw. Marcia Liu foi aluna de Luís Marrafa em Bruxelas. “Achei muito interessante como é que ela conseguia adaptar ao meu movimento e estava confortável”, afirma o coreógrafo.

Há uma clara diferença de movimento entre os bailarinos, quer seja nos olhares, nos solos que apresentam ou na própria característica mais quente ou mais fria do seu movimento, mas esse era um dos objetivos. “Há muito das suas personalidades no meu trabalho e isso é que me interessa. Não é uma coisa minha, é uma coisa nossa”, revela Luís Marrafa que diz existir muito movimento seu conjugado com o dos bailarinos.

Dentro destes movimentos, Luís Marrafa explora a comunicação com o público. “Este trabalho é muito tentar partilhar aquilo que se sente”, conta-nos o coreógrafo. Através do puro movimento, estimula-se o público a refletir. Como acrescenta Luís Marrafa :“para avaliarem, não em termos de negativo e positivo, mas em feeling, no sentimento.”

Home irá ter também uma apresentação na Bélgica e no Teatro Garcia de Resende em Évora, em setembro. Por enquanto, a estreia é na Culturgest, num palco onde a dança se instala no espaço corporal.

Fotografias: Catarina Veiga