Uma nuvem de algodão branco paira entre a luz difusa azul escura cercada pelas paredes pretas da sala de concertos do Lux Frágil. A bossa nova que sai das colunas vais recebendo as pessoas que entram na sala, de copo na mão. Começam com passo de dança ligeiro, e muda para um rock psicadélico. Esta variedade de estilos caracteriza, aliás, o concerto que estava para vir.

Luís Clara Gomes, o nome por trás de Moullinex, trouxe os seus amigos para mostrar o novo álbum Elsewhere pela primeira vez ao vivo, no Lux, em Lisboa. Uns “obrigado por terem vindo” já modificados pelo reverb dão início ao concerto. Com um enorme baixo nas mãos, lado a lado com Bruno Cardoso, também conhecido como Xinobi, começam com um bem disposto ritmo dance vindo dos 80’s, acompanhado por uma batida tribal, dando lugar posteriormente a um bridge expansivo. Os instrumentos dão corpo às músicas, que apesar disso não perdem a sua faceta dançável. Se num DJ set as possibilidades são maiores, é difícil não nos sentirmos mais imersos na experiência com a banda a dar tudo à nossa frente. E para isso, o pequeno palco íntimo do Lux serve na perfeição.

A música seguinte tem uma veia mais intimista e dá aos pequenos grupos que se formam nas laterais oportunidade para tirar sem vergonha a obrigatória selfie. Afinal de contas, como é que uma pessoa poderia ir a um concerto se não anunciasse ao resto do mundo o divertimento que estava a ter? Continua depois o lado mais introspetivo do álbum, desta vez acompanhado pelo misticismo de uma flauta transversal.

As influências do álbum são intermináveis, já que de seguida ouvimos um pop equipado para a pista de dança ao bom estilo de Tame Impala, sucedido por um rock experimental pinkflodiano de introdução de filmes de ficção científica. Este evolui de seguida para o rock industrial dos anos 80, mas a viagem pelo tempo não se fica por aqui: o baixo contagiante da música seguinte inspira uma guitarra irrequieta a recordar o dance alternativo de início de milénio dos LCD Soundsystem. E o que seria de um álbum de dança sem prestar uma homenagem aos rifts de guitarra de Daft Punk? Como em quatro músicas conseguimos viajar por 40 anos! A paragem final é uma música do álbum anterior, à qual a plateia auxilia imediatamente nos vocais.

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Um álbum com influências e sonoridades tão diversas torna complexas as dinâmicas do seu concerto. A narrativa tem elos de ligação frágeis que por vezes o público não consegue acompanhar, apesar de, individualmente, todas as músicas terem o seu propósito. Não sendo um estilo de música completamente inovador, já que vai buscar sons a outras épocas e outros artistas, é refrescante ouvir uma musicalidade que não segue aquela cópia de todos os hits de verão e de queimas que somos praticamente obrigados a consumir. A qualidade e a envolvência que este concerto de música de dança portuguesa transmitiu faz-nos pensar que que os festivais de verão mais virados para a eletrónica têm escolhidos os nomes errados como headliners. O próximo concerto é já dia 19 de Junho, no Hard Club do Porto.

Fotografias de Élio Santos.