O FATAL 2015 já terminou mas no Espalha-Factos continuamos a fazer o rescaldo. Desta vez trazemos-te a review de Pánica, o último espetáculo em competição. O Teatro do Bairro foi o anfitrião da noite, recebendo o GTN – Grupo de Teatro da Nova, que apresentou a sua versão da Ópera Pánica de Alejandro Jodorowsky.

A apresentação no Teatro do Bairro teve um começo atribulado, com algumas falhas de organização. Em noite de casa cheia, o espetáculo rapidamente esgotou e muitos foram aqueles que tinham efetuado reserva mas acabaram por se ver sem bilhete, depois de muito tempo numa fila até à bilheteira. Eventualmente, o problema foi resolvido mas a verdade é que atrasou o início do espetáculo em cerca de uma hora.

Quando, finalmente, toda a plateia está sentada no seu lugar, percebemos que valeu a pena esperar. Uma hospedeira de bordo introduz-nos à viagem “pánica” em que estamos prestes a embarcar.

O GTN, grupo de teatro da Universidade Nova de Lisboa, traz-nos um texto inédito em Portugal: a Ópera Pánica, do aclamado dramaturgo (e também realizador, poeta e cartoonista) chileno Alejandro Jodorowsky. Este texto, que data de 1993, é uma das obras centrais daquilo que ficou conhecido como o Movimento Pánico, impulsionado por Fernando Arrabal, Roland Topor e pelo próprio Jodorowsky, a partir da década de 60 do século XX.

O nome do movimento, que estes autores autodefiniam como uma “expressão artística que pretende anunciar a loucura controlada enquanto sobrevivência perante uma sociedade em crise de valores”, provém do deus Pan, que se manifestaria através do terror, do humor e dos dois em simultâneo. E foi precisamente isto que encontrámos em palco no Teatro do Bairro naquela noite.

A fidelidade ao espírito do movimento – e ao próprio texto trabalhado, desde logo – é um dos pontos fortes desta criação. Outro será ainda o reconhecido esforço pela inovação, com a aposta num texto que nunca havia sido feito em Portugal e a opção de fazer uma tradução original.

O princípio da unidade do espetáculo não é algo que assista Pánica. Ninguém nos dá uma única história com personagens específicos a ser seguidos ao longo da peça. Não. Aqui a ação, o tempo e o espaço são fragmentados em pequenos momentos, pequenos instantes, pequenos episódios tragicómicos (mas maioritariamente cómicos), aparentemente absurdos mas que nos tocam e transportam a mente do espetador para reflexões profundas (ou não tanto) acerca da existência e condição humanas.

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A influência do teatro do absurdo é bastante evidente na peça – e uma das bases do próprio Movimento Pánico. Entre os diferentes sketches não há nenhuma conexão necessária (com exceção para a cena dos mergulhadores de piscina, que nos surge duas vezes, com contornos diferentes em cada uma delas, e uma pequena conexão de encenação entre a cena da “guerra dos filósofos” e a cena que a antecede).

Em cada sketch, o espetador toma contacto com um quadro distinto, com personagens distintas, cujo nome nunca fica a saber e que, frequentemente, estão presas a uma situação sem solução, o que gera uma espécie de micro-enredos cíclicos. As divertidíssimas cenas em que duas pessimistas, duas otimistas ou uma pessimista e um otimista interagem entre si são exemplos perfeitos desta estruturação cénica que resulta muito bem em termos do impacto que tem na audiência.

Também os jogos de palavras são um elemento do teatro do absurdo que aqui vamos encontrar e que, em alguns casos, transformam as cenas mais curtas e simples nas mais geniais – como, por exemplo, o episódio da rapariga que vai dar “o primeiro passo”.

Em Pánica, o nonsense das situações em que as personagens se vão encontrando é uma constante, mas o poder e a dimensão das mensagens incrustadas em cada performance, em cada cena, não deixam que nada fique aquém e nunca, por nada, frustram as expetativas do espetador.

É impressionante o poder que o texto, que por si só é verdadeiramente dotado de grande valor, ganha com a interpretação e escolhas cénicas feitas pelo GTN – Grupo de Teatro da Nova. A Ópera Pánica de Alejandro Jodorowsky vale pelas falas das personagens, não é rica em indicações cénicas, portanto, todas as marcações e opções coreográficas ficaram livremente a cargo do grupo, que soube explorá-las impecavelmente. Aqui os créditos devem ir tanto para Marina Albuquerque, que encena o GTN agora pelo segundo ano consecutivo, como para os 11 jovens atores que dão vida à peça.

Ao nível da interpretação, são estes jovens atores que vemos prestar grandes desempenhos, com um bom trabalho a nível da dicção e projeção da voz e do movimento corporal, mas, principalmente, a nível da credibilidade e convicção que entregam – que é praticamente geral a quase todo o grupo, tornando-se difícil distinguir quem era e quem não era estranho ao grupo e ao mundo do espetáculo teatral até este ano.

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O cenário minimalista é comum a todas as tramas que se vão desenrolando em palco: um conjunto de puffs cúbicos, vermelhos, emprestados pelo espaço MusicBox, e que funcionam como adereços fundamentais de todas as cenas. Estamos perante uma excelente gestão de recursos limitados, mediante a incrível utilização que é feita deste objetos e que funciona na perfeição em palco, contornando quaisquer limitações – tudo se faz e tudo se entende com estes cubos vermelhos!

Relativamente aos figurinos, são variados e mudam constantemente. Não há uma grande elaboração a este nível, mas adequam-se aos objetivos pretendidos. A maior falha técnica em palco terá de ser os problemas de luz, que são exteriores às representações em palco, mas que deixaram os atores “pendurados” às escuras por mais do que uma vez.

Independentemente do texto, das opções cénicas e técnicas, aquilo que podemos retirar de mais significativo àquilo que Pánica nos expõe é a importância do à-vontade e da confiança entre o elenco, que transparece para o lado da plateia – resultante do trabalho efetuado nesse sentido ao longo do ano, segundo as revelações dos atores após o espetáculo. Afinal, é precisamente isto que dá sentido ao teatro do absurdo: as relações entre as pessoas.

Pánica acaba por ser um trabalho incontornável do GTN – Grupo de Teatro da Nova, pois mostra a forma como o grupo está em evolução e promete aumentar a fasquia e a qualidade do seu teatro, mais e mais a cada ano, merecendo, por isso mesmo, com toda a certeza, que o continuemos a acompanhar.

Fotografias de ensaio retiradas da página de Facebook do evento PANICA de Alejandro Jodorowsky